Por Giovanny Vera, de Santa Cruz de la Sierra, BolÃvia*
Agosto foi um mês trágico não só para a Amazônia brasileira, que sofreu com um recorde de queimadas, mas também para a BolÃvia e o Paraguai, que, assim como o paÃs vizinho, continuam combatendo focos de incêndios que se revitalizam cada dia, amparados pela baixa umidade e os fortes ventos. Com números cada vez maiores de queimadas e com um tÃmido, ou quase nulo, apoio ao combate ao fogo por parte de seus governos, agora a população exige uma luta ativa contra os incêndios florestais.
As queimadas e seus impactos vão além das fronteiras. Nas regiões do Pantanal, compartilhado entre BolÃvia e Paraguai e também na Chiquitania boliviana, grandes queimadas tiveram sua contribuição para o rio de fumaça que chegou até São Paulo para cobrir seu céu e continuou até a região Sul do Brasil.
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Veja o que já enviamosHouve dias em que a concentração de focos de calor e as emissões de dióxido de carbono (CO2) e dióxido de nitrogênio (NO2) foram muito altas. Elas se apresentaram simultaneamente nas áreas mencionadas, e coincidiram com os ventos vindos de norte a sul. Transportaram a fumaça desde a Amazônia, se juntando à s emissões da BolÃvia e Paraguai, conforme explicou Armando RodrÃguez, gerente de projetos de geomática da Fundação Amigos de la Naturaleza (FAN), da BolÃvia. De acordo com ele, a situação atual de queimadas tem fatores comuns, como âa época seca que começou mais cedo em relação a anos anteriores, fortes ventos atÃpicos neste perÃodo, e atividades humanas, como o desmatamento para abertura e habilitação de novas terras para plantiosâ.
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Outra coincidência aconteceu no Brasil e na BolÃvia: o descaso dos governos dos dois paÃses diante do iminente perigo de descontrole dos incêndios. Foram mais de 20 dias de queimadas sem apoio à s instituições de combate ao fogo, até que, por pressões da população, os presidentes Jair Bolsonaro e Evo Morales, cada um em seu paÃs, decidiram enviar ajuda. Foi assim que no dia 22 de agosto a Coordenadora das Organizações IndÃgenas da Bacia Amazônica (Coica) declarou Morales e Bolsonaro como personas non gratas em uma carta aberta aos povos indÃgenas.
Também foi elaborada declaração de emergência ambiental e humanitária pela Coica. Nesses documentos, os presidentes foram acusados de apresentar falta de vontade e incapacidade para proteger os povos indÃgenas e a biodiversidade, frente aos incêndios florestais em seus paÃses.
Já no Paraguai, a Secretaria de Emergência Nacional (SEN) atuou desde a segunda semana de agosto no combate ao fogo no Pantanal paraguaio. Por isso, conseguiu controlá-lo logo, enviando aviões e especialistas à região afetada.
População em pânico
Na BolÃvia, as regiões mais afetadas com as queimadas são a de Chiquitania, área de transição entre a Amazônia e o Chaco, e a do Pantanal. A partir da segunda metade de agosto, o fogo se descontrolou, ameaçando povoados e espalhando pânico entre os moradores, incapazes de apagá-lo.
Dados do Inpe mostram que na BolÃvia os focos de calor começaram a se multiplicar a partir de junho, até somarem 14.307, num total de 19.871 pontos detectados em 2019. Por sua vez, o Sistema de Monitoramento e Alerta Precoce de Riscos de Incêndios Florestais (Satrifo), da Fundação Amigos da Natureza (FAN) da BolÃvia, informou que foram registrados mais de 2,1 milhões de hectares queimados no paÃs inteiro neste ano, até o dia 27 de agosto.
Apesar da emergência, Evo Morales declarou que a BolÃvia tinha os recursos necessários para o combate ao fogo e se negou a solicitar ajuda estrangeira. Repetiu Jair Bolsonaro em relação à s queimadas na Amazônia brasileira. Na quinta-feira, 22 de agosto, o governo boliviano anunciou a contratação do maior avião-tanque do mundo, o Supertanker Boeing 747, para ajudar na luta contra os incêndios. O avião vem operando junto a helicópteros militares e aeronaves agrÃcolas pulverizadoras.
Em uma primeira avaliação, a devastação tinha atingido, até 24 de agosto, mais de 700 mil hectares de bosques, em 35 comunidades de 11 municÃpios, afetando, pelo menos, 1.817 famÃlias, de acordo com Javier Zavaleta, ministro da Defesa boliviano. Com o fogo se agravando, e depois de uma semana marcada por manifestações de moradores e autoridades da região afetada, no domingo, 25 de agosto, Morales aceitou a oferta de ajuda de Argentina, Peru, Paraguai, Chile e Espanha, além de apoio financeiro oferecido pela Corporação Andina de Fomento (CAF).
Pesquisadores, autoridades e instituições ambientalistas bolivianas avaliam que as queimadas estão relacionadas a uma série de medidas que o presidente vem tomando na área do meio ambiente. Um exemplo é o assentamento de colonos ligados ao seu partido polÃtico, dentro de unidades de conservação na Chiquitania, conforme comentou Rosa Virginia Suárez, coordenadora da ONG Probioma. âGrupos de pessoas são trazidos para a região para colonizar e para abrir novos campos agropecuários, em unidades de conservação que fornecem água ao Pantanal e para toda a regiãoâ.
Para Vincent Vos, biólogo pesquisador, âos incêndios são resultado direto de polÃticas governamentais focadas na ampliação da fronteira agropecuária e o fomento ao agronegócio, com custos ambientais e sociais inaceitáveisâ. Segundo ele, o governo boliviano tem realizado alterações nas normas ambientais que âfavorecem e promovem o desmatamento, novos assentamentos e atividades agropecuárias em zonas com vocação florestalâ, sem respeitar recomendações técnicas e cientÃficas. O presidente Morales promulgou decreto, um mês antes de as queimadas se descontrolarem, no qual foram autorizados, nas regiões de Santa Cruz e Beni, o desmatamento e a queima controlada de mata, com o objetivo de favorecer atividades agropecuárias.
Unidades de conservação atingidas no Paraguai
A BolÃvia e o pantanal paraguaio enfrentaram incêndios simultâneos que devastaram cerca de 39 mil hectares de áreas de floresta e pastagens. Além disso, ainda afetaram duas unidades de conservação, segundo a Secretaria de Emergência Nacional (SEN) do Paraguai. O fogo teria se iniciado no lado boliviano, e de lá pulou para BahÃa Negra e Chovoreca, na região Alto Paraguai, a mais de 800 quilômetros de Assunção. Até a terceira semana do mês de agosto foram registrados 10.723 focos de calor.
Joaquin Roa, ministro da SEN, informou que os incêndios no pantanal paraguaio foram controlados pelas equipes enviadas de Assunção, mas devido à s situações crÃticas nos lados boliviano e brasileiro, o presidente Mario Abdo Benitez orientou que a Secretaria esteja pronta para novos casos de queimadas. O plano terá como base a cidade de Forte Olimpo, a quase 800 quilômetros da capital.
De acordo com Oscar Rodas, diretor de Mudanças Climáticas da WWF Paraguai, as queimadas afetaram mais de 20 mil hectares do Parque Nacional Rio Negro, que é Pantanal, e, pelo menos 10 mil hectares na zona da Reserva Natural Chovoreca, onde a vegetação é de bosque seco. “Chovoreca poderá ser ainda mais afetado, dependendo da intensidade dos incêndios, levando em conta que a época de queimadas está começando e vai até outubroâ.
Diante da situação das queimadas, o Senado paraguaio declarou situação de emergência ambiental para as duas regiões afetadas pelas queimadas: Alto Paraguay e Boquerón. O regime especial terá duração de dois meses, com objetivo de apoiar a população local e instituições, disponibilizando recursos para o combate ao fogo.
