Em pouco mais de três décadas, o Brasil perdeu 89 milhões de hectares de floresta, uma área correspondente a três vezes e meia o tamanho do estado de São Paulo. A agropecuária foi o principal vetor do desmatamento, especialmente na região da Amazônia Legal. Em 2005, a pastagem ocupava 45 milhões de hectares, tendo crescido para 53 milhões de hectares no ano passado. Com menos floresta, o desmatamento alcançou 7,8 mil quilômetros quadrados (km2) em 2018; este ano, as queimadas que estão fazendo a Amazônia arder em chamas podem levar o desflorestamento a chegar perto os 10 mil km2. A projeção foi feita pelo engenheiro florestal Tasso Azevedo, coordenador-geral do MapBiomas, um mapeamento de dados, feito de forma colaborativa com universidades, empresas de tecnologia e ONGs, sobre a cobertura e o uso da terra no Brasil. Só de janeiro a agosto, os incêndios na Amazônia cresceram 82%, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
LEIA MAIS: A Amazônia não pode esperar
LEIA MAIS: Brasil vira o vilão mundial do clima
Gostando do conteúdo? Nossas notÃcias também podem chegar no seu e-mail.
Veja o que já enviamosO MapBiomas remonta ao ano de 1985 e está na sua quarta versão, sendo uma das mais longas séries de dados sobre o assunto já feita no paÃs. A ferramenta é gratuita, de acesso liberado, e permite acompanhar, com grande angular, o que está ocorrendo nos seis biomas brasileiros (Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal), nos 27 estados da federação, nas 84 bacias hidrográficas, nas 585 terras indÃgenas e nas 789 Unidades de Conservação (UCs). De 1985 até o ano passado, a perda florestal somou 145,3 milhões de hectares de terra — a perda média anual é de 4,2 milhões de hectares.
[g1_quote author_name=”Tasso Azevedo” author_description=”coordenador-geral do MapBiomas” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]O mau uso da terra é, sem dúvida, o principal responsável pelas emissões brasileiras de gases de efeito estufa
[/g1_quote]O desmatamento vem ocorrendo de forma mais acentuada nas áreas privadas e menos nas terras indÃgenas e Unidades de Conservação. Essa constatação foi possÃvel porque, desde o ano passado, os dados vêm sendo cruzados com as informações disponÃveis no Cadastro Ambiental Rural (CAR). Em 2018, a perda de cobertura vegetal aumentou 20% nas propriedades rurais e 0,5% nas aldeias e UCs. “O mau uso da terra é, sem dúvida, o principal responsável pelas emissões brasileiras de gases de efeito estufa”, comentou Azevedo, corroborando os dados do último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) mostrou que este setor responde por 23% das emissões no mundo. No caso brasileiro, o uso da terra é responsável por 72% das emissões de gases de efeito estufa e 50% dessas emissões vêm do desmatamento.
Com a profusão de dados sobre desmatamento disponÃvel no paÃs, Azevedo defende, como escreveu em recente artigo, que já é possÃvel multar propriedades rurais usando satélites, assim como ocorre com as multas de trânsito que são emitidas graças aos radares instalados nas cidades e estrada que detectam a infração cometida pelo motorista. Em outro artigo, diz que é urgente decretar a moratória do uso do fogo na Amazônia, no Cerrado e no Pantanal. O fogo que arde na Amazônia e que colocou o paÃs no epicentro de uma crise ambiental global é provocado, sobretudo, pelo “desmatamento ilegal, muitas vezes ligado à máfia de roubo de madeira, à grilagem de terra e ao garimpo”.
No atual ritmo das queimadas é zero a chance de o paÃs cumprir as metas voluntárias autoimpostas. A meta anunciada durante o Acordo de Copenhague era reduzir o desmatamento ilegal na Amazônia em 80% em relação à média do perÃodo entre 1996 e 2005. “Isso significaria que o desmatamento em 2020 não deveria passar de 3,8 mil km2“, comentou Azevedo, lembrando que o mais perto que o paÃs chegou dessa meta foi em 2012, quando o desmatamento atingiu 4,5 mil km2.
