George Wittemyer*
Os humanos superexploram os elefantes africanos há séculos. Mais de 2.000 anos atrás, a demanda do Império Romano por marfim levou à extinção de populações de elefantes geneticamente distintas no norte da Ãfrica. Mas, nos últimos tempos, o aumento da população entre os elefantes da Ãfrica Austral e o declÃnio no resto do continente tornaram difÃcil avaliar claramente o grau de ameaça à espécie em geral.
Eu faço parte de uma equipe de cientistas que recentemente revisou a situação dos elefantes africanos para a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). Compilamos dados de mais de 400 locais em toda a Ãfrica, abrangendo 50 anos de esforços de conservação – e nossos resultados foram sombrios.
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Veja o que já enviamosO número de elefantes da savana africana – a maior subespécie de elefantes – diminuiu 60% desde 1990. E os elefantes da floresta, que a IUCN está tratando como uma espécie separada pela primeira vez, diminuÃram em número em mais de 86%. Com base em nossa avaliação, a IUCN mudou sua lista com classificação “vulnerávelâ para todos os elefantes africanos: os elefantes da savana passaram a ser classificados como âem perigoâ; e os elefantes da floresta receberam a classificação âcriticamente em perigoâ.
Ao separar os elefantes da savana africana e os elefantes da floresta em categorias independentes, nosso relatório revela o estado crÃtico dos elefantes da floresta mais esquivos, obscurecido em avaliações anteriores que agruparam todos os elefantes da Ãfrica. Evidências cientÃficas para separar as espécies foram se acumulando nas últimas duas décadas, e muitos taxonomistas achavam que esse reconhecimento já devia ser feito há muito tempo.
O aumento da pesquisa sobre os elefantes da floresta destaca o declÃnio dramático que esses animais gigantes – e quase sempre reclusos estão sofrendo. Estudos também mostram que eles estão entre os mamÃferos de reprodução mais lenta do planeta. Isso significa que, mesmo que recebam proteção adequada, a recuperação de sua população levará décadas.
Ameaças globais, soluções globais
Cientistas acreditam que as populações de elefantes em toda a Ãfrica realmente aumentaram durante o inÃcio do século 20, quando as nações estavam entrincheiradas em guerras globais e o consumo de marfim e outros itens de luxo diminuiu. Após a Segunda Guerra Mundial, no entanto, o consumo conspÃcuo aumentou. A caça descontrolada de marfim causou uma queda acentuada no número de elefantes nas décadas de 1970 e 1980.
Graças à s redes de comércio global interconectadas, junto com fronteiras porosas e não regulamentadas em muitas partes da Ãfrica, o aumento da demanda de marfim em uma parte do mundo rapidamente se traduz em preços mais altos no mercado negro de marfim na Ãfrica. E esses preços mais altos levam à caça ilegal.
A remoção de elefantes de uma área pode abrir caminho para a conversão de florestas e pastagens em agricultura. Este ciclo levou ao esgotamento de grande parte da área de distribuição histórica dos elefantes africanos.
A perda de habitat também aproxima elefantes e humanos, levando a mais conflitos entre eles – esses confrontos levam à perda direta de elefantes. Essa aproximação também acaba tornando os elefantes um fardo para as comunidades locais (com disputa por alimentos e água), o que pode corroer o interesse e o apoio à conservação dos animais.
Embora a escala de declÃnio das populações de elefantes na Ãfrica seja avassaladora, existem muitos exemplos de esforços de conservação bem-sucedidos em todo o continente. O esforço de Conservação Transfronteiriça KAZA (Kavango-Zambeze), liderado por Botswana, detém a maior população contÃgua de elefantes no continente, e essa população experimentou um forte crescimento nos últimos 50 anos. Este sucesso reflete a cooperação entre paÃses vizinhos e o trabalho com as comunidades locais.
Os esforços internacionais conjuntos para reduzir o comércio ilegal de marfim estão aumentando a conscientização sobre os problemas com o consumo de marfim. A China proibiu o comércio doméstico de marfim em 2017 e, ao mesmo tempo, a caça ilegal de elefantes africanos diminuiu – favorecendo, inclusive, as maiores populações da Tanzânia e do Quênia, que estavam sob forte pressão 10 anos antes. A população central de elefantes da floresta no Gabão, que diminuiu 80% entre 2004 e 2014, estabilizou com o aumento do investimento governamental e redução da pressão da caça ilegal com foco no marfim.
O trabalho inovador com comunidades em paÃses como NamÃbia e Quênia para melhorar a subsistência das pessoas por meio do desenvolvimento de economias baseadas na natureza e na vida selvagem levou à proteção de enormes extensões de terras como áreas de conservação. E pesquisadores e conservacionistas estão trabalhando para encontrar soluções para os conflitos entre as atividades humanas e as necessidades dos elefantes que possam ser aplicadas em toda a Ãfrica.
Ao destacar o estado precário das duas espécies de elefantes da Ãfrica, meus colegas e eu esperamos que esta Avaliação da Lista Vermelha (a lista da IUCN de espécies ameaçadas) possa ajudar a motivar os paÃses africanos com populações de elefantes e a comunidade internacional a investir em medidas que apoiem a conservação dos elefantes.
Os elefantes fornecem muito mais do que apenas benefÃcios estéticos. Estudos recentes mostram que os elefantes da floresta também desempenham um papel importante no combate à s mudanças climáticas, aumentando o armazenamento de carbono nas florestas da Ãfrica Central, uma das reservas de carbono mais importantes do planeta. Os elefantes dispersam sementes e desbastam as árvores jovens à medida que se alimentam, o que abre espaço para que árvores maiores prosperem.
Os elefantes também são a base da economia baseada na vida selvagem em toda a Ãfrica. E os elefantes são considerados engenheiros do ecossistema que estruturam o equilÃbrio entre as árvores e a grama nas savanas da Ãfrica. Junto com muitos outros especialistas em conservação, vejo reverter seu declÃnio como um imperativo global que requer apoio global combinado.
George Wittemyer é professor de Vida Selvagem e Biologia da Conservação, da Universidade do Estado do Colorado (EUA) e integra o Grupo de Especialistas em Elefantes Africanos da IUCN
