Frente à pressão dos indÃgenas, que, nos últimos dias, trocaram as aldeias pelas ruas das principais capitais do paÃs, o governo deu um passo atrás, após uma semana marcada por mobilizações e confrontos em diferentes regiões do paÃs. Foram um total de 30 manifestações, em 18 estados brasileiros. O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, recuou e anunciou, ontem, em BrasÃlia, após reunião com lideranças indÃgenas, que desistiu, pelo menos por enquanto, de extinguir a Secretaria Especial de Saúde IndÃgena (Sesai), criada em 2010. Com a mudança de estratégia, o risco de os Ãndios ficarem à deriva foi adiado, pelo menos no que diz respeito à saúde das comunidades tradicionais. O ministério não desarticulou completamente o grupo de trabalho que vinha estudando a saúde indÃgena.
Se, ainda durante a campanha eleitoral, o então candidato prometera guerra aos Ãndios; como presidente, Jair Bolsonaro vem atacando com flechadas letais as 305 etnias no paÃs. O mais recente confronto havia sido disparado no último dia 20, quando Mandetta defendeu mudanças na pasta, dentre elas o fim da Sesai. A medida visava transferir automaticamente todo o atendimento para prefeituras e estados. Ontem, o ministro afirmou que âa Secretaria de Saúde IndÃgena deve permanecerâ, justificando sua decisão: âComo os Ãndios acham que a Secretaria de Saúde IndÃgena deve permanecer, porque tem uma luta histórica, é simbólico, e porque ali se reforça a sua cultura e a sua identidade, nós vamos manter a secretaria de saúde indÃgenaâ
[g1_quote author_name=”Roberto Liebgott” author_description=”coordenador do Cimi no Sul” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Gostando do conteúdo? Nossas notÃcias também podem chegar no seu e-mail.
Veja o que já enviamosO fim deste modelo levaria o caos para a saúde indÃgena
[/g1_quote]Para Roberto Liebgott, coordenador do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) na Região Sul, o recuo não significa que o governo federal tenha abandonado sua polÃtica “anti-indigenistaâ, mas adiou, por ora, uma medida que levaria “o caos para a saúde indÃgena”. O processo de desconstrução do atual modelo de atenção à saúde indÃgena começou antes mesmo da posse do atual presidente. Desde outubro, diz ele, distritos sanitários especiais indÃgenas (DSEI) vinham sendo sucateados e seus profissionais pararam de receber salário.
Segundo levantamento feito pelo Cimi, não havia dinheiro para pagamento de medicamentos, combustÃveis, transportes, realização de exames, vacinação, remoção de doentes para os centros de referências e nem para o pagamento de servidores que atuam nas comunidades indÃgenas. Falta de tudo um pouco: analgésicos, soro, esparadrapos, gaze; sequer água potável há em muitos postos de saúde e polos bases de atendimento. Ontem, o ministro garantiu que o pagamento dos profissionais já havia sido autorizado.
O golpe mortal foi dado com o fim do programa Mais Médicos. âNos últimos anos, quem vinha prestando assistência à s comunidades tradicionais eram os médicos ligados a este programaâ, esclarece Liebgott, comentando que, atualmente, só está ocorrendo atendimento emergencial prestado por agentes de saúde e por enfermeiros. Por falta de salário, servidores lotados nos distritos de saúde ameaçavam paralisar as atividades, o que poderia acarretar em mortes em função das condições epidemiológicas das comunidades, suas realidades geográficas, sanitárias e de falta de acesso aos centros de saúde públicas, postos e hospitais. O recuo do governo vai evitar, nas palavras de representantes da Sesai, mortes prematuras: “Poderão morrer pessoas a cada quatro horasâ, informou matéria publicada no site do Cimi.
O atual modelo de atenção à saúde indÃgena é fruto de décadas de discussão e sua elaboração contou com a participação ativa de lideranças indÃgenas. à considerado, portanto, o melhor arranjo para atender a população indÃgena. São 34 Distrito Sanitário Especial IndÃgena (DSEI), 345 polos bases, 67 Casa de Saúde IndÃgena (CASAI), 23 Casa de Passagem para FamÃlias IndÃgenas (CAPAI) e 899 Unidade Básica de Saúde IndÃgena (UBSI). âO fim deste modelo levará o caos para a saúde indÃgenaâ, concluiu.
Segundo o Ministério da Saúde, foram realizados, no ano passado, 8.250.736 atendimentos de atenção primária à saúde pelas Equipes Multidisciplinares de Saúde IndÃgena. A média de atendimentos por pessoa aumentou mais de sete vezes em cinco anos: foi de 1,56 em 2014 para 11,2 em 2018. Tomando como referência os últimos cinco anos, os registros de atendimentos aos indÃgenas cresceram de 1.171.531, em 2014, para 6.427.596, em 2018, totalizando 16.944.832 atendimentos no perÃodo.
