*Com fotos de Lucas Landau
(PARINTINS, AM) Há quase 20 anos, em meio à s celebrações dos 500 anos da chegada dos portugueses ao Brasil, o lÃder Yanomami Davi Kopenawa passou por Parintins, no Amazonas, na chamada marcha indÃgena, rumo ao Monte Pascoal, em Porto Seguro. Durante a jornada, em pleno governo do presidente (e sociólogo) Fernando Henrique Cardoso, foi recebido por bombas de gás lançadas pela PolÃcia Militar e precisou retroceder. Era o começo de sua luta pública. “Na festa da celebração do Brasil, descobri qual era nosso lugar nisso tudo. Percebi que a maioria não gostava nem de ficar perto de Ãndio. Foi lá a primeira vez que me deparei com a violência policial”, conta o xamã, um dos nomes mais importantes na luta indÃgena do paÃs.
[g1_quote author_name=”Davi Kopenawa” author_description=”lÃder Yanomami” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Gostando do conteúdo? Nossas notÃcias também podem chegar no seu e-mail.
Veja o que já enviamosEstão interessados em acabar com nossa mata, nossos rios, estão matando tudo. Mataram pelo ouro, agora para produzir bijuteria
[/g1_quote]Duas décadas depois, Kopenawa voltou a Parintins como destaque na apresentação do Boi Caprichoso no festival que leva o nome da cidade e foi realizado no final de junho. Não foi recebido por bombas no caminho, mas sequer pôde conversar com jornalistas. Pouco conhecido nas ruas, ele afirma ser alvo certo dos ruralistas e expor sua imagem pode ser um risco à sua própria vida. O pajé nos encontra, então, em uma chácara nos arredores da cidade, para uma entrevista exclusiva, na qual fala, entre muito assuntos, sobre a mineração em terras indÃgenas – causa provável, segundo denúncia dos indÃgenas, do assassinato do cacique Emyra Wajãpi, que teria sido atacado por garimpeiros.
Enquanto observa da varanda o sutil movimento do vento em direção à s árvores, o xamã denuncia a grande ameaça que representa a exploração de nióbio, mineral que o presidente Jair Bolsonaro afirma ser a salvação da economia brasileira. “Eu moro no pulmão do mundo, mas estão interessados em acabar com nossa mata, nossos rios, estão matando tudo. Mataram pelo ouro, agora para produzir bijuteria. O que vale isso aÃ?”, questiona, apontando para uma pulseira avaliada em 20 reais. Em 2010, o site Wikileaks vazou um documento em que as minas de nióbio brasileiras eram consideradas recursos estratégicos para os EUA.
[g1_quote author_name=”Davi Kopenawa” author_description=”LÃder Yanomami” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Bolsonaro enganou muita gente, até indÃgenas, mas a mim ele não engana. Ele é o que nós, Yanomamis, chamamos de xauara, possui um pensamento adoecido, completamente louco
[/g1_quote]‘Bolsonaro xauara’
A Amazônia perdeu, nos últimos 30 anos, 18% de sua área florestal. De acordo com o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) em junho de 2019, foram destruÃdos 920,4 km² de mata em relação ao mesmo perÃodo no ano anterior. Por hora, a área desmatada equivale a 20 campos de futebol, um resultado desastroso da entrada do PSL no governo. âBolsonaro enganou muita gente, até indÃgenas, mas a mim ele não engana. Ele é o que nós, Yanomamis, chamamos de xauara, possui um pensamento adoecido, completamente louco. Quer manchar nossas terras, exercer sua maldade quando, na verdade, deveria estar ali apenas para respeitar as leis”, opina.Â
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O pajé Yanomami olha nos olhos, se expressa para além do verbo e não teme nem mesmo os mais poderosos do paÃs. E destaca que até o momento não houve diálogo entre o atual governo e seu povo. âQuando ele fala sobre comunidades indÃgenas, está mentindo. Fala que a gente quer carro, quer mineração. Isso ele julga por ele. Não estou roubando, nunca tirei nada de ninguém. Falar é meu direito! Não tenho medo dele ou da bancada ruralista. Eles querem dinheiro, querem conforto, querem entregar a Amazônia na mão dos Estados Unidos, do Japão, da Alemanha.”
Demarcação de terras
Desde a marcha indÃgena de 2000, o paÃs viu cinco nomes assumirem a presidência. Independentemente da vertente polÃtica, a demarcação de terras pedidas pelos povos que aqui sempre estiveram não foi prioridade para nenhum governos, nem mesmo os do PT, diz o pajé. âO que exigimos é um pequeno território, que está previsto na Constituição. E ainda querem reduzir as terras a que temos direito… A única coisa que eu peço é que o Bolsonaro respeite a lei e o povo indÃgena, o brasileiro legÃtimo”, afirma.
[g1_quote author_name=”Davi Kopenawa” author_description=”LÃder Yanomami” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Não terÃamos emprego, mal falamos a lÃngua de vocês. Vamos fazer o quê? Morar aonde? Você acha que teremos alguma garantia? O governo não dá nada pra vocês… Para nós, o essencial está na floresta
[/g1_quote]Hoje, aos 63 anos, “calculados”, Kopenawa já viajou pelo mundo principalmente pela notoriedade de seu livro “A queda do céu” (Companhia das Letras, 2015), um retrato da metafÃsica indÃgena escrita em co-autoria com o etnólogo francês Bruce Albert. Foi ainda criança que começou a ter sonhos e avisos dos xapiri â os bons espÃritos. âMe tornar pajé foi escolha dos xapiri. Lutar pela floresta e meu povo, a foi escolha minha. Viajo, vou longe, vejo a cidade e volto. Meu lugar é na minha comunidade, ao lado do meu povo. Só saio para defendê-los. Posso até ficar um ou dois meses fora da aldeia, mas só abandono quando eu morrer”.
No entanto, não é raro que alguém generalize exceções indÃgenas que desejam ocupar as cidades. âTem Ãndio que estudou, aprendeu a lÃngua do capitalismo, gostou do mundo moderno e ele que fique na cidade. A maioria de nós prefere a comunidade. O povo Yanomami sofreria na cidade. Não terÃamos emprego, mal falamos a lÃngua de vocês. Vamos fazer o quê? Morar aonde? Você acha que teremos alguma garantia? O governo não dá nada pra vocês… Para nós, o essencial está na floresta. Somos de láâ.
Em meio à s diferenças culturais que envolvem a cosmologia, “A queda do céu” se faz leitura fundamental na construção de uma nova consciência no que diz respeito ao desmatamento. Na crença Yanomami, a floresta só se mantém se houver uma pausa emergencial nas extrações. O que chamamos de aquecimento global é, para os Yanomamis, o enfraquecimento de Omam â que equivale a Deus em sua cultura â no suporte do declÃnio cósmico.
Localizados no extremo norte do paÃs, na fronteira entre o Brasil e a Venezuela, os Yanomamis tiveram a demarcação de seu território homologada em 1992 a partir de um decreto presidencial de Fernando Collor depois de muita morte e luta. Hoje, comunicam suas percepções cosmológicas com a sociedade não-indÃgena graças ao encontro com um homem branco que habitou seu território, aprendeu o dialeto e produziu algo maior junto à comunidade. âEu e Bruce ficamos amigos, mas o livro foi uma exigência minha após ele passar mais de um ano convivendo conosco e coletando informações da nossa cultura. Chegou um momento em que o chamei para uma conversa e disse que era muito importante falar sobre o meu povo sob um ponto de vista que fosse meu, não deleâ.
Antropólogos e indÃgenas
A relação entre antropólogos e indÃgenas é tênue, e, para Kopenawa é necessário que haja uma contrapartida: criar ferramentas para alavancar o que é tido como inalcançável. âO antropólogo precisa entender que seu estudo não pode parar em si mesmo. Tem que gerar possibilidades para nósâ.
[g1_quote author_name=”Davi Kopenawa” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]O Ãndio é quem está à frente desta luta, mas o homem branco precisa ser o suporte para que a gente consiga agir
[/g1_quote]São constantes os convites internacionais na vida do lÃder Yanomami. Ele, que este ano esteve em Harvard, nos EUA, enfatiza o privilégio de um convite. Se decidisse tentar um visto por conta própria, talvez não tivesse sua entrada autorizada. Cidadania, definitivamente, não é um direito nÃtido aos povos indÃgenas. âFora do Brasil me mandam passagens. Reconhecem minha luta, o meu desejo de ficar em paz com meu povo. Mas se eu não fosse convidado por eles, jamais seria bem recebido nos Estados Unidos. Não podemos esquecer que foram os primeiros a matar meu povo”.
O Festival de Parintins
Mesmo no Norte do Brasil, um dos pontos em que habitam em maior concentração, os povos da floresta estão marginalizados. Eles, que compreendem o tempo das coisas observando as estações, o cultivo e as sabedorias ancestrais, possuem poucos meios para afirmar e propagar a própria cultura entre os não-indÃgenas. O Festival de Parintins, uma espécie de ópera da selva, é a maior celebração do folclore brasileiro, celebrando sobretudo a identidade indÃgena. Para Kopenawa, uma forma de começar a estreitar laços com um outro Brasil.
“à uma festa realmente muito linda, que valoriza o indÃgena. O povo de Parintins está à s margens do Rio Amazonas, então sabe que é preciso cuidar para que a gente consiga sobreviver.â Com enormes alegorias que destacam indÃgenas, ribeirinhos e animais silvestres, são constantes as narrativas dos bois Garantido e Caprichoso sobre nossa história genocida. “Gostei muito de participar. à uma festa que os brasileiros precisam conhecer melhor”. Para além do festival, realizado em junho, época da cheia no verão amazonense, conhecer melhor a cultura indÃgena é ponto de partida para construir outras ideias do devir brasileiro enquanto o céu não cai. “O Ãndio é quem está à frente desta luta, mas o homem branco precisa ser o suporte para que a gente consiga agir”, conclui o pajé.
