*Juliana Arini
Aldeia Piaraçu/TI Capoto Jarina, São José do Xingu (MT) â Por quatro dias, a aldeia Piaraçu, na Terra IndÃgena Capoto Jarina (MT), tornou-se o centro do mundo para 45 povos indÃgenas. Cerca de 600 lideranças indÃgenas protagonizaram um evento inédito em todo o paÃs, o Encontro dos Povos Mebengokrê. No final do encontro, após quatro dias e muitos debates, os povos indÃgenas deram um exemplo a todo Brasil durante a construção do documento âManifesto do Piaraçu das lideranças indÃgenas e caciques do Brasilâ.
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[g1_quote author_name=”Raoni Metukire” author_description=”Cacique kaiapó” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Não vou desistir, vou continuar até quando o meu corpo resistir. Se o homem branco insistir em cortar floresta, fazer barragem em rio, garimpo e destruir tudo, vou continuar aqui, lutando
[/g1_quote]O encontro foi idealizado pelo lÃder Kayapó Raoni, ou Raoni Metukire, em seu idioma materno, que mesmo com quase noventa anos, insiste em convencer os homens a repensarem a ocupação do planeta. âNão vou desistir, vou continuar até quando o meu corpo resistir. Se o homem branco insistir em cortar floresta, fazer barragem em rio, garimpo e destruir tudo, vou continuar aqui, lutandoâ, diz ele, durante entrevista exclusiva à agência Amazônia Real. Raoni responde à s indagações da reportagem com uma resolução que por trás de sua pintura tradicional camufla o peso da idade.
Os olhos lacrimejam, não há mais a agilidade do guerreiro alto e esguio que começou a lutar pelo povo Kayapó nos anos de 1970, mas a sua determinação causa espanto. O lÃder permaneceu até o último momento de votação do documento, que envolveu discussões sobre os direitos das mulheres, o respeito aos jovens e, principalmente, como os povos indÃgenas vão enfrentar um grande desafio: as polÃticas anti-indÃgenas do atual governo brasileiro.
[g1_quote author_name=”Manifesto do Piaraçu” author_description=”Documento firmado por 45 povos indÃgenas” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]O atual presidente da República está ameaçando os nossos direitos, a nossa saúde, o nosso território. Quem nasceu primeiro não foi o Brasil, fomos nós povos originários e nós fomos massacrados, mas continuamos a resistir para poder existir
[/g1_quote]O Manifesto do Piaraçu denuncia o projeto em curso do governo brasileiro: “genocÃdio, etnocÃdio e ecocÃdioâ. O documento ressalta o reconhecimento dos direitos indÃgenas nos artigos 231 e 232 da Constituição Federal de 1988, além da convenção internacional que estabelece que, em caso de projetos que impactem os indÃgenas, eles devem ser consultados previamente.
“O atual presidente da República está ameaçando os nossos direitos, a nossa saúde, o nosso territórioâ, afirma o manifesto indÃgena, em referência à s intenções do presidente Bolsonaro de liberar a mineração, o agronegócio e o arrendamento das terras. “Quem nasceu primeiro não foi o Brasil, fomos nós povos originários e nós fomos massacrados, mas continuamos a resistir para poder existirâ, declara o texto.
Os povos da floresta representados pela filha do lÃder seringueiro e ambientalista Chico Mendes (1944-1988), Angela Mendes, que atua na coordenação do Comitê Chico Mendes, também participaram das discussões do documento.
âDesde o ano passado percebemos que precisávamos nos unir, pois os tempos atuais pedem que estejamos todos juntos. Temos um governo literalmente fascistaâ, afirmou Angela, muito emocionada, após reencenar um momento protagonizado por seu o pai nos anos de 1980 ao se reunir com povos indÃgenas para firmar uma aliança dos Povos da Floresta.
União na Amazônia
O encontro na terra indÃgena Kayapó foi um sucesso. Eram esperadas 450 pessoas, mas o evento reuniu 600 participantes. Alguns convidados â e mais de 200 visitantes extras, bem recebidos -, viajaram por até cinco dias, dormiram em barracas, redes e em alojamentos improvisados para atender o chamado de Raoni. A grande maioria das pessoas era indÃgenas, somados a jornalistas nacionais e internacionais, e amigos de longa data do cacique.
[g1_quote author_name=”Afukaka Kuikuro” author_description=”LÃder indÃgena da etnia Kuikuro, do Parque Nacional do Xingy” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Cresci com Raoni no Xingu, e vou estar sempre ao lado dele. Nossa luta é igual, pelo território e cultura do povo indÃgena.
Precisamos nos unir não só para defender território, mas para cuidar que os jovens tenham orgulho de ser indÃgena e veja futuro dentro de nossa cultura
O clima era de alegria, com os representantes de 45 povos vestidos com as cores de suas culturas originais. A reunião final, no centro da aldeia, com todas as lideranças e seus representantes que participaram da luta pela inclusão dos direitos indÃgenas na Constituição Federal de 1988, foi um dos momentos mais emocionantes.
As discussões do evento apontaram o governo do presidente Jair Bolsonaro como um dos principais inimigos dos povos indÃgenas hoje. âQuerÃamos que a Funai (Fundação Nacional do Ãndio) voltasse aos bons tempos. Estivesse fortalecida e com estrutura para ajudar os povos indÃgenas como nos tempos de OlÃmpio Serra, Sidney Possuelo, Claudio Romero e os outros presidentes que realmente pensavam nos povos indÃgenasâ, conta Megaron Txucarramãe, tradutor, sobrinho e cotado para ser um dos possÃveis sucessores de Raoni.
Em sua casa, Megaron explicou à reportagem da Amazônia Real como a trajetória de Raoni forjou o lÃder atual. âCrescemos no Xingu. O povo Kayapó fez parte da diáspora dos povos que perderam o seu território com a abertura das estradas que cortaram a Amazônia a partir da década de 1950. Fomos levados para lá e por lá ficamos um tempo, até que decidimos voltar aqui para à s margens do Xinguâ, diz.
Raoni nasceu na aldeia Krajmopyjakare, hoje chamada Kapôt â filho do lÃder Umoro, uma grande liderança de seu povo. Apesar de só conhecer o âhomem brancoâ, em 1954, seu povo já sofria há décadas com os ataques.
âNão gostei quando conheci o homem branco. Tive medo, minha avó, de quem herdei o meu nome, sempre contava das histórias de ataques e mortes. Eles (brancos) no encurralaram aqui. Antes nosso povo andava por tudo. Goiás, Tocantins, até beira do Rio de Janeiro era nosso território de andar e migrar. Agora só conseguimos mudar um pouco aqui em nossa terraâ, conta TuÃra Kayapó, prima consanguÃnea, mas ao mesmo tempo neta de Raoni, segundo a estrutura de parentesco dos Kayapó.
O evento na Terra IndÃgena Capoto Jarina foi marcado de simbolismo. Além de um documento conciso, o encontro promoveu o diálogo entre os povos de todas as regiões do paÃs.
âCresci com Raoni no Xingu, e vou estar sempre ao lado dele. Nossa luta é igual, pelo território e cultura do povo indÃgenaâ, explica Afukaka Kuikuro, um dos grandes lÃderes do Parque Nacional do Xingu, uma das maiores terras indÃgenas do paÃs.
âPrecisamos nos unir não só para defender território, mas para cuidar que os jovens tenham orgulho de ser indÃgena e veja futuro dentro de nossa culturaâ, conclui o lÃder xinguano.
O encontro também resgatou a visibilidade de lideranças Kaypó históricas. à o caso de Paulinho Paikan, voz atuante entre seu povo no contexto polÃtico. âNão vou me calar quando for para defender a natureza. Esse é o meu direito a vida e as ameaças cresceram muitoâ, disse ele à  Amazônia Real.
âPensei muito sobre isso tudo que tem nos cercado. Cheguei à conclusão que a soja é a ilusão do dinheiro. A dependência do dinheiro é algo que não tem fim, não se esgota; se entrarmos nesse caminho vamos nos devorar, não terá fimâ, explicou Paulinho Paiakan.
As ameaças moram ao lado
Capoto Jarina é um exemplo dos novos tempos entre os Kayapó. A terra indÃgena é cortada por uma estrada por onde trafegam inúmeras carretas de soja e gado. A estrada é o marco fÃsico de dois territórios indÃgenas, o mundo Kayapó e o Parque Nacional do Xingu, mas em ambos os lados é possÃvel perceber o quanto a floresta já sucumbiu ao corte de madeira. Uma franja de floresta rala e cercada do âmato-bravoâ, trepadeira espinhosa também conhecida como âjuquiraâ, toma conta do horizonte em ambos os lados.
No passado, conforme lembra Márcio Santilli, sócio-fundador do Instituto Socioambiental (ISA), os próprios Kayapó chegaram a se envolver com corte de madeira e com garimpo, atividade que causava divisão entre eles. Santilli é reconhecido por sua atuação no indigenismo brasileiro, e foi presidente da Fundação Nacional do Ãndio (Funai) de 1995 a 1996.
âPor um tempo, os Kayapó estiveram envolvidos com o corte de madeira e garimpo, ainda nos anos de 1990. Eu me desentendi com muitas lideranças daqui para tentar mudar o pensamento deles. Mas Raoni nunca apoiou essa conduta e sua postura foi fundamental para que passassem a evitar o assédio do homem branco sobre as suas riquezasâ, disse Marcio Santilli, em declaração à  Amazônia Real.
[g1_quote author_name=”Oé Paiakan” author_description=”Advogada e filha do lÃder indÃgena Paulinho Paiakan” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Meu pai lutou muito para estudarmos, chegou a se desentender com os familiares, mas nós conseguimos. Minhas irmãs são enfermeiras, eu sou advogada e todas nós estudamos inglês. Sempre participamos do movimento indÃgena
[/g1_quote]No Encontro na aldeia Piaraçu, Márcio Santilli contribuiu repassando informações aos indÃgenas sobre as atuais propostas do governo federal que envolvem o arrendamento de terras indÃgenas para não-indÃgenas e a regulamentação da mineração, na qual um dos pontos mais controversos é a proposta do governo de não dar poder de veto aos povos indÃgenas.
A formação de jovens lideranças também se mostrou um tema crucial para o futuro. As filhas de Paulinho Paiakan são exemplos desse novo modo de vida indÃgena.
âMeu pai lutou muito para estudarmos, chegou a se desentender com os familiares, mas nós conseguimos. Minhas irmãs são enfermeiras, eu sou advogada e todas nós estudamos inglês. Sempre participamos do movimento indÃgenaâ, explica Oé Paiakan Kayapó, de 24 anos, vista como uma liderança pelo próprio Raoni.
âPrecisamos dos jovens para manter a nossa luta. Eles são fundamentaisâ, afirma Aritana Yalapiti, um dos caciques xinguano presente na reunião. âRaoni desde muito cedo sempre foi esse lÃder, os jovens precisam buscar essa posturaâ, afirma.
Renovar é preciso
A delicada questão da sucessão de cacique Kayapó, é um tema pouco discutido. Nas terras indÃgenas poucos se habilitam a se candidatarem ou lutar pelo reconhecimento necessário para tornarem-se uma liderança.
Pai de dez filhos, Raoni perdeu em dois acidentes os herdeiros naturais. Seu primogênito morreu em um acidente pouco esclarecido nos anos de 1990, quando seu povo ainda vivia no Parque Nacional do Xingu. Após o incidente, Raoni migrou para dentro do território Kayapó, abandonando de vez o local para onde foram levados pelos sertanistas Orlando, Claudio e Leonardo Villas-Boas, à época do contato, em 1954.
A aldeia de Raoni é tão reservada quanto a possibilidade de manter um contato mais próximo com ele. Apesar de ser uma figura pública, Raoni é quase sempre esquivo ao assédio de quem o admira. A aldeia isolada é uma proteção ao cacique. O único caminho é o rio Xingu em uma viagem de mais de duas horas. Foi para lá que ele convidou o seu sobrinho Bepkmro Metuktire e atual tradutor para morar.
âEle já expôs o seu desejo de me transmitir a liderança e pediu para eu estudar e me prepararâ, explica Bepkamro, ou Ta-ú como é conhecido.
[g1_quote author_name=”TuÃra Kayapó” author_description=”LÃder indÃgena” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Desde jovem, Raoni sempre vem lutando, e me vez ver o sonho da luta e segui-lo, mas a liderança é dos jovens. Daqui em diante nosso futuro está com as jovens mulheres
[/g1_quote]Bepkamro é vice-presidente do Instituto Raoni, a associação que o povo Kayapó utiliza para captar recursos para projetos de economia sustentável, como atividades agroflorestais nas aldeias e para fazer eventos como os dessa semana. O cargo é outro sÃmbolo de proximidade com Raoni. Antes dele, o segundo filho do cacique, Tedje Metukitire, falecido em um acidente de carro em 2004, ocupava o cargo.Mas a sucessão do cacique para as lutas futuras também envolverá uma figura feminina, com já anunciou o próprio Raoni, quebrando a tradição de transmissão da chefia apenas aos homens. O nome dessa figura segue sem ser definido.
Hoje a mulher mais respeitada entre os Kayapó é TuÃra. Para ela a figura de Raoni foi fundamental para tornar-se uma lÃder. âDesde jovem ele sempre vem lutando, e me vez ver o sonho da luta e segui-lo, mas a liderança é dos jovens. Daqui em diante nosso futuro está com as jovens mulheresâ, explicou.
Enquanto não há ainda a previsão de um sucessor, o cacique viaja para repetir a mesma mensagem em inúmeras entrevistas e discursos. âEnquanto o indÃgena tiver ameaçado, eu vou pedir a pazâ, diz Raoni.
O inÃcio de sua cruzada envolveu encontro com vários presidentes brasileiros e estrangeiros. O primeiro deles foi Juscelino Kubitschek, nos anos 1950, e o ultimo o presidente francês Emanuel Macron, em 2019. Raoni apenas não se encontrou ainda com o atual presidente brasileiro Jair Bolsonaro, com quem vive uma história mútua de aversão.
O discurso anti-indÃgena do presidente foi uma das razões do sucesso do encontro na Aldeia Piaraçu. O documento pode ser considerado sÃmbolo da resistência indÃgena e dos povos tradicionais contra velhos inimigos dessas nações, como na abertura de novas áreas de floresta, a mineração e a disputa pela terra.
âEssa reunião não veio para fazermos guerra. Estamos unidos para defender o povo e a terra. Quero que todo mundo respeite os indÃgenas e nos deixe viver pazâ, concluiu Raoni, que na semana que vem estará em Oxford, no Reino Unido, em um seminário sobre meio ambiente e direitos sociais.
Em 2019, Raoni foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz. Embora não tenha sido escolhido, seu nome permanece com a indicação para 2020.
*Enviada Especial – Amazônia Real – A repórter Juliana Arini foi à Aldeia Piaraçu para cobrir o Encontro Mebengokrê a convite da Fundação Raoni.
