A tática é conhecida. Começam pelo roubo de madeira nobre com alto valor comercial. Em seguida vem a derrubada do que restou, a grilagem e a venda das terras. A etapa seguinte é queimar a área tomada dos Ãndios na marra. Aà só falta jogar as sementes de braquiária, esperar o capim crescer e colocar os bois para pastar onde antes era uma exuberante, necessária e útil floresta primária. No Brasil tem mais boi do que gente. De acordo com o IBGE, são 213,5 milhões de cabeças de gado e 210,1 milhões de pessoas. Na região amazônica a proporção é de três bois por cidadão e o Pará concentra os municÃpios com maior crescimento de rebanhos nos últimos dez anos.
LEIA MAIS: Ameaças ao povo Munduruku se intensificam
LEIA MAIS: Os incêndios que queimam a Amazônia
Gostando do conteúdo? Nossas notÃcias também podem chegar no seu e-mail.
Veja o que já enviamosO aumento da degradação na Terra IndÃgena Sawré-Muybu, do povo Munduruku, vem da direção da BR-163, importante via de escoamento de gado, madeira e grãos. âNo caso da Sawré Muybu, o que acontece nesse momento é um avanço da atividade madeireira cirúrgica. Os madeireiros estão tirando somente o Ipê que segue para o [municÃpio de] Trairão onde é âesquentadoâ no esquema de guias falsas de crédito de manejoâ, diz Danicley Aguiar, 44 anos, engenheiro agrônomo do Greenpeace especializado em Amazônia. O esquema para legalizar madeira roubada a que o agrônomo se refere também é uma prática criminosa bem conhecida das autoridades. Começa na fase do inventário das árvores que poderão ser derrubadas na área que será submetida ao plano de manejo florestal e continua por todo o sistema de monitoramento. Na hora do inventário cria-se um crédito excedente de árvores que não existem e é usado para legalizar a madeira extraÃda ilegalmente de terras indÃgenas e unidades de conservação. âO Estado não consegue garantir que a atividade madeireira aconteça dentro da legalidade e a fraude é um combustÃvel para a pilhagem das terras indÃgenasâ, completa Danicley.
Em Agosto, o #Colabora publicou reportagem sobre as ameaças ao povo Munduruku e como os indÃgenas expulsaram invasores de suas terras. Poucas semanas depois da ação de vigilância dentro de seu território os madeireiros retornaram em número maior e seguiram com a derrubada das árvores. Sem uma ação efetiva da PolÃcia Federal e do IBAMA esses madeireiros não deixarão de destruir a floresta para roubar madeira. E não é só a destruição da floresta que está em questão. Aguiar afirma que âas perdas ambientais são de fato um problema, mas a consequência é ainda mais grave quando se vê que a destruição das terras levará à destruição desses povos que fatalmente entrarão em colapso. Se esse processo de invasão continuar, vai virar genocÃdio.â A lei que estabelece o crime de genocÃdio, nº 2.889/56, tem vigência anterior e foi recepcionada pela Constituição de 1988. O artigo primeiro aborda expressamente o crime de genocÃdio e tipifica penas e condutas relacionadas a âintenção de destruir, no todo ou em parte, grupo nacional, étnico, racial ou religiosoâ.
Sem tempo para esperar
 Se nada for feito, o próximo ataque à Sawré Muybu será a grilagem das terras. à o que aconteceu, por exemplo, nos territórios Karipuna e Uru-Eu-Wau-Wau, em Rondônia. No mesmo dia do discurso do presidente Jair Bolsonaro na abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas, o Conselho Indigenista Missionário (CIMI)  lançou o relatório âViolência Contra os Povos IndÃgenas do Brasilâ com análises dos dados até 2018. Porém, a entidade fez uma denúncia baseada em dados parciais de 2019 que mostraram que só nos primeiros nove meses de governo do atual presidente foram invadidas 153 terras indÃgenas em 19 Estados. Esse número representa o dobro de invasões ocorridas em todo o ano passado. As estatÃsticas endossam, portanto, os motivos de ambientalistas e indÃgenas estarem alarmados com futuro que se avizinha.
O discurso anti-ambientalista e anti-indigenista de Bolsonaro inflamou o clima de âliberou geralâ para as milÃcias ambientais. Organizadas, elas têm núcleos armados, polÃticos, institucionais e econômicos. Danicley explica que âo mapa mostra o quanto o território [Sawré Muyby] está desprotegido e vem sendo pilhado e, se nada for feito, se o contexto não for modificado, esse território será exposto à grilagem.â Ele continua âisto vai acompanhar um banho de sangue e a responsabilidade será dos três poderes. Se o Executivo lidera uma retórica de invasão de terras indÃgenas os outros poderes se calam. A questão das terras indÃgenas é um problema de Estado.â
