(Porto Velho, Rondônia) – O comboio partiu de Porto Velho no final da tarde de segunda-feira rumo à base montada pelo Exército em Alto ParaÃso, região leste de Rondônia. Dois caminhões, três micro-ônibus, pelo menos uma dezena de picapes 4×4 e mais uma carreta que transportava um trator seguiram pela BR-364 chamando a atenção dos motoristas que circulavam pela rodovia federal. Ontem, antes que o dia clareasse, cerca de 200 pessoas, entre servidores do ICMBio, policiais militares, bombeiros, brigadistas, policiais federais, Ministério Público Federal e Conselho Tutelar com o apoio de um helicóptero da polÃcia militar estavam prontos para a operação de reintegração de posse na Floresta Nacional (Flona) do Bom Futuro.
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Veja o que já enviamosO acampamento Boa Esperança começou a ser construÃdo na área de floresta em 22 de outubro do ano passado, uma semana antes do segundo turno da eleição que elegeu o presidente Jair Bolsonaro. Foi uma fala dele, em Porto Velho, ainda durante a campanha, que encorajou a invasão, segundo os moradores. âEle disse que tinha muita reserva em Rondônia e ia diminuirâ, conta um dos moradores, numa roda de conversa em que ninguém quer se identificar. âFiquei sabendo que tinha isso aqui por um conhecidoâ, explica outro. âUm começou a falar pro outro e veio essas famÃliaâ, completa um terceiro.
As casas são simples, paredes de folhas de palmeira seca, algumas poucas são feitas de madeira e têm telhas Brasilit. As fossas, usadas como sanitários, ficam do lado de fora da casa e são facilmente reconhecidas pelas paredes de plástico acomodadas em quatro estacas de madeira. à visÃvel que as famÃlias que invadiram os cerca de 500 hectares da unidade de conservação são de baixa renda: dentes falhos, rostos envelhecidos e os poucos pertences são surrados. Como e por que essas famÃlias foram parar ali é o que a polÃcia federal vai esclarecer com a Operação Bom Futuro, deflagrada ontem de manhã. O inquérito policial foi instaurado em novembro de 2018 e a PF de Rondônia cumpriu na terça-feira quatro mandados de prisão preventiva e quatro de busca e apreensão expedidos pela 5ª Vara da Justiça Federal de Porto Velho. Segundo as investigações, Delson Pinto de Souza, um dos presos, é acusado de ser um dos lÃderes da invasão e de ameaçar as famÃlias que desejavam sair do acampamento obrigando-as a permanecer lá. Delson também é apontado como um dos responsáveis pelo cadastramento de mais de quatrocentas famÃlias e o recolhimento de mensalidades dos invasores, além da demarcação dos lotes e degradação da área federal protegida. No total, havia 218 barracos construÃdos no acampamento, mas a contagem oficial foi de cem famÃlias residentes.
Maria de Lourdes, 43 anos, chora enquanto arruma sua mudança. Ela está conformada com a decisão judicial que ordena a desocupação de uma área de proteção federal. O choro, conta, é porque se assustou com a chegada do batalhão de choque. O marido e os dois filhos perderam o emprego numa serraria e o sustento da famÃlia em Cujubim ficou difÃcil. âO Bolsonaro disse que ia cortar algumas reservasâ desabafa Lourdes. Ela conta que as famÃlias que foram morar na área invadida não se conheciam antes. No inÃcio receberam cestas básicas, ela não sabe dizer quem as enviava, mas a ajuda durou apenas três meses. As famÃlias removidas foram orientadas a levar apenas o básico, o que para eles incluÃa cachorros, gatos e algumas poucas galinhas.
A reintegração acontece a partir de uma ação ajuizada pelo ICMBio. A operação deve levar três dias pois as famÃlias serão deslocadas com seus pertences para os municÃpios de Alto ParaÃso e Rio Pardo, uma vila com mais de quatro mil habitantes, construÃda onde, originalmente, era uma unidade de conservação federal.
âPensei que fosse mais pertoâ
O presidente do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), coronel Homero de Giorge Cerqueira, chegou à reintegração de posse com o sol queimando forte a terra seca. Ao encontrar os servidores que participavam da operação disse âAchei que fosse mais perto. Muito longe!â Na entrevista, mais tarde, depois de ter tomado pé da operação, o ex-comandante da PolÃcia Militar de São Paulo falou sobre sua experiência na polÃcia ambiental de SP âEu nunca trabalhei no governo federal. Trabalhei 35 anos no governo estadual. Em São Paulo a gente conseguiu congelar o desmatamento. Eu, como comandante do policiamento Ambiental, tinha 2.190 policiais militares, 4 batalhões, 498 embarcações que cobriam todo o território, eu fazia toda a cobertura do litoral paulista. O ICMBio tem 1.538 funcionários, 300 fiscais, então é bem aquém do que eu tinha no estado de SP. Eu acredito que o bioma da Mata Atlântica é muito parecido no sentido de fazer a proteção.â Perguntado sobre o seu conhecimento da região amazônica, disse âEu já viajei para a Ãfrica, para a Ãndia. Fiz passeios maravilhosos nos parques [da Ãfrica do Sul]. Então me interessou muito levar minha famÃlia para esses locais, para conhecer como é a realidade desses paÃses, é um pouco diferente do nosso.â Sobre os brasileiros escolherem destinos fora do Brasil para as férias em famÃlia e não pensarem em conhecer a Amazônia, o coronel se apressa em responder: âeu fui pro Amazonas, eu fui conhecer o hotel Ariaú, um hotel maravilhoso, fica no topo das árvores, mas não tem mais. Eu fui porque me interessei muito pelo bioma amazônico.â
Passado de invasões
A flona Bom Futuro foi criada em 1988 com 280 mil hectares e até a metade dos anos 90 ainda tinha sua floresta primária intacta. Vieram as invasões de madeireiros e na sequência do desmatamento e dos roubos de madeira nobre veio a grilagem das terras. Em 2010, o governo Lula (PT) entrou em acordo com o governo de Rondônia para desafetar (reduzir a área protegida) mais de 180 mil hectares. A região desafetada deveria ser transformada em uma Ãrea de Proteção Ambiental (APA) que tem critérios de conservação bem menos rÃgidos. A medida legalizou a situação de milhares de invasores. Na vila de Rio Pardo chegaram a funcionar dez serrarias. Pela redução de dois terços da floresta o governo federal recebeu terras do estado de Rondônia para a construção da usina hidrelétrica de Jirau, no rio Madeira. Desde então, houve uma reintegração em 2017, no mesmo local onde foi construÃdo o acampamento Boa Esperança. Anteriormente, em 2013, em complicações decorrentes de uma outra operação na mesma área do Boa Esperança, uma equipe da Força Nacional foi encurralada em Rio Pardo e um policial foi morto.
