Vaticano – Das 120 propostas aprovadas no documento final do SÃnodo da Amazônia, a que define o pecado ecológico âcomo uma ação ou omissão contra Deus, contra o próximo, a comunidade e o meio ambiente”, se destaca pela importância quase revolucionária se pensarmos na profunda crise socioambiental que abala o mundo. Segundo o documento, quem polui a floresta, comete âum pecado contra as gerações futurasâ. Esses pecados âse manifestam em atos e hábitos de poluição e destruição da harmonia do meio ambiente, transgressões contra os princÃpios da interdependência e quebra de redes de solidariedade entre criaturas e contra a virtude da justiça”.
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Veja o que já enviamosNas palavras de Dom David MartÃnez de Aguirre Guinea, Vigário Apostólico de Puerto Maldonado (Peru), que se pronunciou durante a coletiva de imprensa onde foi apresentado o documento final para os jornalistas, ânenhum católico pode viver a sua fé sem considerar o grito da terra: é preciso ter consciência de que agredir a terra é um pecado ecológicoâ.
[g1_quote author_name=”Dom David Marinez de Aguirre Guinea” author_description=”Vigário Apostólico de Puerto Maldonado” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Nenhum católico pode viver a sua fé sem considerar o grito da terra: é preciso ter consciência de que agredir a terra é um pecado ecológico
[/g1_quote]O documento ressalta que a Amazônia é a segunda área mais vulnerável do planeta em relação às mudanças climáticas provocadas pelo homem e que os riscos de desmatamento, que até o momento representam 17% do total da floresta, colocam em perigo o ecossistema e a biodiversidade mudando o ciclo da água. Nessa ótica, o texto propõe a criação de Ministérios especiais para a promoção da ecologia integral nas paróquias em cada jurisdição eclesiástica, a criação de um fundo mundial para cobrir parte dos orçamentos das comunidades presentes na Amazônia que promovem seu desenvolvimento integral e sustentável e a criação de um Observatório socioambiental Pastoral para diagnosticar o território e os conflitos socioambientais em cada igreja local e regional.
O texto propõe a chamada para a conversão ecológica como resposta à crise socioambiental e vê na ecologia integral âo único caminho possÃvel para salvar a região, pois a depredação da terra vem junto com o derramamento de sangue de inocentes e da criminalização dos Defensores da Amazôniaâ. âA ecologia integral se fundamenta no fato de que tudo está intimamente relacionado: ecologia e justiça social.â
O documento pontua que a defesa dos direitos humanos não é apenas um dever polÃtico, mas sobretudo uma exigência de fé e por essa razão apoiam campanhas de desinvestimento de empresas extrativistas na Amazônia, começando pelas próprias instituições eclesiais e denuncia a violação dos direitos humanos. âNão há mudança real. Com a Amazônia queimando, as pessoas percebem cada vez mais que as coisas devem mudar. Não vamos deixar que as riquezas da Amazônia se transformem numa maldiçãoâ, disse o cardeal Michael Czerny, subsecretário da Seção de Migrantes e Refugiados do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral.
Os povos da floresta como protagonistas
Segundo o documento, nos povos da Amazônia se encontram ensinamentos de vida. âOs povos originários e aqueles que chegaram tarde forjaram sua identidade na convivência, trazem valores culturais nos quais descobrimos as sementes do Verbo. O pensamento dos povos indÃgenas oferece uma visão integradora da realidade, capaz de compreender as múltiplas conexões existentes entre tudo o que foi criado. O manejo tradicional do que a natureza lhes oferece tem sido feita de forma sustentável. Encontramos outros valores nos povos indÃgenas como reciprocidade, solidariedade, sentido de comunidade, igualdade e organização social.
[g1_quote author_name=”Documento Final” author_description=”SÃnodo da Amazônia” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Boa parte dos territórios indÃgenas está desprotegido e os já demarcados estão sendo invadidos por frentes extrativistas predatórias, como a mineração e a extração florestal, por projetos de infraestrutura, cultivos ilÃcitos e pelas grandes propriedades que promovem a monocultura e a pecuária extensiva
[/g1_quote]Demarcação Já!
à impossÃvel falar de direito a terra sem falar de direito à vida e vice e versa. Sem citar o nome de nenhum paÃs especificamente, o texto lembra aos governos que é deles a responsabilidade de demarcar e proteger os territórios indÃgenas e indica que âboa parte dos territórios indÃgenas está desprotegido e os já demarcados estão sendo invadidos por frentes extrativistas predatórias, como a mineração e a extração florestal, por projetos de infraestrutura, cultivos ilÃcitos e pelas grandes propriedades que promovem a monocultura e a pecuária extensivaâ.
Os bispos sinodais propuseram também âque a igreja se comprometa a ser aliada dos povos da Amazônia para denunciar os ataques contra a vida das comunidades indÃgenas, dos projetos que afetam o meio ambiente, da falta de demarcação de seus territórios bem como do modelo econômico predatório e ecocida. A presença da igreja entras as comunidades tradicionais exige a consciência de que a defesa da terra não tem outra finalidade senão a defesa da vidaâ, diz o texto.
Ao se posicionar pela defesa da vida, a igreja propõe instrumentos de atuação para a defesa da terra e das culturas originárias da floresta. O que âimplicaria acompanhar os povos amazônicos no registro, na sistematização e difusão de dados e informações sobre seus territórios e a sua situação jurÃdica. Queremos priorizar a incidência e o acompanhamento para conseguir a demarcação de terrasâ.
Papel da mulher ficou em segundo plano
Diversamente da primeira versão que havia sido apresentada na segunda, dia 21, o documento final agradou, em muito, os bispos da Amazônia. Segundo Dom Adriano Ciocca, bispo de São Félix do Araguaia, âo novo documento ganhou uma versão mais estruturada e resumida, seguindo a linha do que a assembleia queriaâ, disse. Para ele, a única parte que não avançou foi a do papel das mulheres dentro da igreja, citando a ordenação feminina. âCreio que ainda não se reconhece o espaço e o papel que as mulheres deveriam ter e considero isso um anacronismo. A igreja católica é a última realidade que não abre espaço para as mulheres. Imagino que se continuarmos nessa evolução, daqui algumas décadas, a igreja terá que lhes pedir perdão por não ter dado o espaço que elas já ocupam e que deve ser reconhecido.â
O documento de 33 páginas trouxe 120 recomendações que abordam as quatro conversões sugeridas: pastoral, ecológica, cultural e sinodal. O texto final é o resultado de anos de um profundo trabalho de escuta realizado ao longo de 270 atividades que envolveram mais de 87 mil pessoas da Amazônia e de outros paÃses do mundo.
Votaram 181 padres, cada ponto aprovado necessitava dos votos de, pelo menos, 120 deles, o que aconteceu. Todos os pontos foram aprovados pela maioria. Agora com o texto em mãos, Papa Francisco deverá avaliar o documento e, até o final do ano, – segundo o pontÃfice declarou – publicar a chamada âexortação apostólica pós-sinodalâ onde serão dadas as orientações para a igreja católica no mundo todo.
No caminho de atuação das propostas indicadas pelo SÃnodo, Papa Francisco não estará sozinho. Ele será acompanhado por 13 bispos eleitos membros da comissão pós-sinodal, sendo quatro deles brasileiros: dom Erwin Kräutler, bispo emérito da prelazia do Xingu (PA), dom Cláudio Hummes, arcebispo emérito de São Paulo (SP), dom Alberto Taveira, arcebispo de Belém (PA) e Dom Roque Paloschi, bispo de Porto Velho (RO). Outras três pessoas serão escolhidas por Francisco nos próximos dias, sendo duas mulheres – uma leiga e uma religiosa – e um homem leigo.
A religião do euÂ
Na missa de Conclusão da Assembleia Especial do SÃnodo dos Bispos para a Região Pan-Amazônica, que aconteceu na manhã de hoje, 27, na BasÃlica de São Pedro, o Papa Francisco, disse que os âerros do passado não foram suficientes para deixarmos de saquear os outros e causar ferimentos aos nossos irmãos e à nossa irmã terra: vimo-lo no rosto dilaniado da Amazônia. A religião do eu continua, hipócrita com os seus ritos e as suas orações, esquecida do verdadeiro culto a Deus, que passa sempre pelo amor ao próximo. Até mesmo cristãos que rezam e vão à Missa ao domingo são seguidores desta religião do eu.â
Francisco terminou a missa ao dizer que neste SÃnodo, eles tiveram a oportunidade de âescutar as vozes dos pobres e refletir sobre a precariedade das suas vidas, ameaçadas por modelos de progresso predatórios. E, no entanto, precisamente nesta situação, muitos testemunharam que é possÃvel olhar a realidade de modo diferente, acolhendo-a de mãos abertas como uma dádiva, habitando na criação, não como meio a ser explorado, mas como casa a ser guardada, confiando em Deus. Quantas vezes, mesmo na Igreja, as vozes dos pobres não são escutadas, acabando talvez vilipendiadas ou silenciadas porque incomodas. pedindo a graça de saber escutar o clamor dos pobres: é o clamor de esperança da Igrejaâ.

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