(Juliana Radler*) – O cotidiano dos povos Tukano, Kotiria (Wanano), Desano, Tariano, Piratapuia e outros que habitam o rio Uaupés e afluentes, na Terra IndÃgena (TI) Alto Rio Negro, em São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, foi impactado pela contrato de venda de créditos de carbono realizado entre comunidades indÃgenas colombianas e a empresa suÃça South Pole. Considerada uma das maiores consultorias do mercado de carbono, a empresa acumula em seu portfólio o polêmico projeto Kariba, no Zimbábue, que foi objeto de uma série de denúncias de jornais internacionais pela falta de transparência e repasses injustos de recursos à s comunidades africanas.
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Quatro associações indÃgenas brasileiras dos rios Uaupés e Papuri relataram ao Instituto Socioambiental (ISA) a insegurança que estão enfrentando desde que os âparentes colombianosâ fecharam acordo de créditos de carbono na fronteira na região da Cabeça do Cachorro, no Noroeste Amazônico. Drones voando em cima das comunidades, das roças, das áreas de pesca e da floresta no entorno virou algo tão comum quanto o voo das aves amazônicas.
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Veja o que já enviamosâAs comunidades começaram já a reclamar em 2022 que tinha muito drone, que estavam fiscalizando eles. Isso é o que eles não conseguiam entender: o que eram esses drones e por que estavam fazendo essa fiscalização?â, questionou uma liderança Tukano da Associação das Mulheres IndÃgenas do Distrito de Iauaretê (Amidi)**, que atua há mais de 20 anos na defesa da cultura e do território indÃgena na região do Médio Rio Uaupés, na fronteira entre Brasil e Colômbia.
Os indÃgenas, inicialmente, não sabiam o motivo dos drones sobrevoarem a região. Medo e boatos de que poderiam ser narcotraficantes ou guerrilheiros se espalharam. Depois, foi descoberto que os drones eram da empresa South Pole, que estava fiscalizando as comunidades indÃgenas com o intuito de averiguar se a floresta vinha sendo queimada para a abertura de roças â prática milenar para a subsistência das comunidades. As roças indÃgenas rionegrinas compõe o Sistema AgrÃcola Tradicional do Rio Negro (SATRN), que são inclusive Patrimônio Cultural Imaterial tombado pelo Iphan.
As lideranças brasileiras contaram que nunca houve nenhuma comunicação oficial das associações colombianas, da empresa South Pole ou do governo colombiano sobre os projetos de carbono na fronteira. O problema se acentuou quando os indÃgenas colombianos passaram a invadir as áreas de roça do lado brasileiro, pois estão impedidos de plantar e levar seu modo tradicional de vida. âOs parentes colombianos nos falaram que agora são vigias da floresta. Não podem mais fazer roças e recebem dinheiro para comprar seus alimentos de foraâ, comentou um dos lÃderes Kotiria, da Associação das Comunidades IndÃgenas do Rio Waupés Acima (Acirwa).
Liderança Kotiria da Associação das Mulheres IndÃgenas do Alto Rio Uaupés (Amiaru), disse que em sua comunidade as pessoas começaram a acreditar que seriam expulsas. âPrimeiro, eu fiquei com muito medo. Uns falavam que iam tirar as nossas casas da comunidadeâ. A liderança contou que após participarem de algumas assembleias e reuniões convocadas pela Federação das Organizações IndÃgenas do Rio Negro (Foirn) sobre o tema, com a presença de advogados, a comunidade ficou mais tranquila e ciente dos seus direitos. âDo lado brasileiro, não vamos assinar nada sem consulta livre, prévia e informadaâ, enfatizou a representante da Amiaru, fazendo menção ao Protocolo de Consulta dos Povos IndÃgenas do Rio Negro.
Falta de transparência
O processo de negociação entre empresa e indÃgenas colombianos ocorreu sem transparência e consulta à s comunidades, segundo as lideranças brasileiras e a escuta feita pelo jurÃdico da Foirn na região. âTudo foi feito sem diálogo comunitário, apenas com negociações envolvendo algumas famÃliasâ, comentou o advogado da Foirn. As lideranças brasileiras informam que indÃgenas colombianos estão preocupados com o futuro das comunidades, já que não podem mais fazer suas roças e o recurso recebido também não é suficiente para o sustento. âO que sabemos é que o contrato não foi bom para os parentes colombianos e alguns estão arrependidosâ, informou a liderança da Acirwa.
âAs maiores comunidades colombianas que estão invadindo as áreas de roça brasileiras são Ibacaba, São Joaquim e Igarapé Inambu. Já no Alto Papuri, são as comunidades de Santa Maria, Los Angeles e Acaricuara que estão vindo fazer roça no lado brasileiroâ, explicou a liderança Tukano da Associação das Comunidades IndÃgenas Alto Rio Papuri (Aciarp).
Na comunidade colombiana de Ibacaba, uma das envolvidas na transação de créditos de carbono, os indÃgenas da etnia Kotiria não podem mais fazer roças. Acordos antigos entre Kotirias do Brasil e da Colômbia de uso dos territórios tradicionais para fazer roças, não estão mais vigorando. Assim, nascem conflitos e incertezas quanto ao futuro das comunidades e a permanência da população, já que os contratos são de longo prazo, segundo as lideranças indÃgenas. âOs nossos antepassados trabalhavam bem juntos, mas agora essa situação de carbono está atrapalhando. Os colombianos também são Kotirias, falam a mesma lÃngua que nós. Vivemos na mesma culturaâ, lamentou o representante da Acirwa.
As comunidades indÃgenas brasileiras na fronteira com a Colômbia afirmam que a negociação de carbono realizada junto à s comunidades colombianas nos rios Uaupés e Papuri trouxe um tremendo impacto negativo para o modo de vida indÃgena. A roça é mais do que o sustento alimentar, está na base da cultura indÃgena. Sem roça, não há vida na comunidade. Para os brasileiros, é preciso que haja um diálogo transparente entre as autoridades brasileiras e colombianas sobre os projetos de carbono nas terras indÃgenas fronteiriças.
âPara cada comunidade colombiana chegou um motor e uma voadeira quando eles negociaram o contrato. Essas voadeiras e motores eram para eles fazerem a articulação na área. Depois receberam motosserra, tanque de água, placas solares, baterias. Esses são os materiais que eles receberam. Por isso, ficamos preocupados. Se os colombianos vão continuar a trabalhar desta forma com as empresas, isso poderá acontecer com a gente. As empresas são desobedientes, elas podem entrar na parte do Brasil e querer trabalhar assim. Na minha visão temos que nos defender e termos uma posição claraâ, alertou o lÃder Tukano da Aciarp.
Nesta região da fronteira Brasil-Colômbia, o trânsito entre indÃgenas é livre e o uso dos territórios indÃgenas em ambos os lados é regido por acordos comunitários entre povos que falam a mesma lÃngua e possuem a mesma cultura, como é o caso dos Kotiria e dos Tukano. Há muitos anos, a convivência entre os indÃgenas brasileiros e colombianos nesta região é pacÃfica e com amplo intercâmbio.
Cowboys do carbono
Especialistas no mercado de carbono, como o Instituto Talanoa de PolÃtica Climática, alertam para o crescente número de projetos conflituosos, oriundos de negociações que envolvem empresas emergentes apelidadas de âcowboys do carbonoâ. De acordo com apuração do departamento jurÃdico da Foirn, federação indÃgena que representa as associações de base da região, a empresa South Pole é a responsável pelo projeto que vem causando impacto negativo nestas comunidades, denominado âProyecto REDD + de Los Pueblos IndÃgenas del Vaupés Yutucu e Otros.
A empresa suÃça South Pole está envolvida em uma das maiores polêmicas sobre negociação de créditos de carbono junto a comunidades tradicionais, no projeto Kariba, no Zimbábue, como noticiou o jornal britânico The Guardian em março deste ano. Estima-se que o projeto Kariba tenha arrecadado mais de 100 milhões de euros desde 2011, mas as comunidades envolvidas não se beneficiaram de forma justa dos recursos. Denúncias também foram feitas pela agência de jornalismo investigativo Follow the Money, pelo principal jornal alemão, Die Ziet e pela revista The New Yorker.
Amazônia colombiana
Na Amazônia colombiana, a South Pole desenvolve três projetos de REDD + nos departamentos do Uaupés (Vaupés ou Waupés) e do Amazonas, sendo dois deles registrados e validados na plataforma de certificação Verra, de acordo com o Diagnóstico de Projetos REDD+ na Amazônia Colombiana, feita pelo Instituto Amazónico de Investigaciones Cientificas, da Colômbia.
Este documento revela que a South Pole desenvolve o maior projeto de REDD+ na Colômbia, desenvolvido em outra área preservada, na região do Putumayo. Este projeto tem vigência de 30 anos e incide em uma área de 3.824.920 hectares, equivalente a 65,62% da área da reserva.
Já o projeto Yucutu e Outros, que vem impactando as comunidades indÃgenas brasileiras na TI Alto Rio Negro, tem vigência de 20 anos e abrange uma área de 850.062 hectares, o que equivale a 21,69% da área da Grande Reserva do Vaupés, na Colômbia, segundo o diagnóstico mencionado acima. A área de impacto do projeto engloba 74 comunidades indÃgenas colombianas.
A soma da área dos projetos implementados pelo South Pole na Colômbia chega a 4.806.513 hectares, o que equivale a 9,94% da área da Amazônia colombiana e 20% da área disponÃvel para REDD+ nas suas reservas. Este número coloca a South Pole como a maior implementadora de projetos de REDD+ nas reservas amazônicas colombianas, conforme aponta o Instituto Amazónico.
O mercado voluntário de carbono teve uma rápida expansão na Colômbia e segundo dados da Plataforma Renare – Registro Nacional de Reducción de Emisiones y Remoción de GEI (Gases do Efeito Estufa), existe um total de 51 projetos de REDD+ na Amazônia colombiana, sendo nove já em fase de implementação, conclui o Diagnóstico sobre projetos de REDD+ na Colômbia.
MPF e Funai recomendam suspensão de acordos
Diante de denúncias de violações de direitos e da desconfiança sobre a veracidade dos projetos locais de carbono, a Fundação Nacional dos Povos IndÃgenas (Funai) e o Ministério Público Federal (MPF) posicionaram-se com recomendações claras para que as comunidades brasileiras não fechem contratos até que haja a definição de critérios e orientações para a inserção das Terras IndÃgenas no mercado de carbono.
A pergunta importante a ser feita é: os projetos locais de carbono são de fato soluções para o combate às mudanças climáticas ou apenas mera maquiagem verde (greenwashing) para enriquecer oportunistas?
âPara tanto, será necessário considerar as salvaguardas, os riscos envolvidos, as estruturas de governança, a segurança jurÃdica, os potenciais benefÃcios para os povos indÃgenas e, sobretudo, a contribuição destes projetos para a mitigação dos efeitos das mudanças climáticasâ, escreveu a Funai em nota oficial em abril deste ano.
Já em agosto passado, o MPF expediu recomendação para que fossem suspensas todas as operações, contratos e tratativas em andamento no tema de crédito de carbono e no modelo de Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal (REDD+), que incidem nos territórios indÃgenas e tradicionais, com ou sem regularização fundiária definitiva, no estado do Amazonas.
âO documento recomendou que a comercialização de créditos de carbono, no Brasil ou no exterior, seja suspensa. Tal informação deve ser encaminhada para todos os atores envolvidos nas tratativas e negociações em andamento, já iniciadas ou finalizadas â desde comunitários, lideranças, empresas e instituições nacionais ou internacionais â, para ciência e adoção das medidas recomendadasâ, noticiou o MPF em seu site oficial. No entanto, o Conselho Nacional do Ministério Público, em setembro passado, solicitou por liminar que houvesse a suspensão da recomendação do MPF do Amazonas afirmando que tal medida extrapola suas atribuições.
O ISA entrou em contato com a empresa South Pole para ter informações sobre o projeto, mas não recebeu retorno até o fechamento desta publicação.
*Juliana Radler, jornalista com especialização em jornalismo ambiental pelo International Institute of Journalism, é articuladora do ISA no Amazonas
**Os nomes das lideranças indÃgenas entrevistadas não foram mencionados por medida de proteção à s fontes
