Jéssica*, 24 anos, encontrou um espaço para se expressar, se conectar com pessoas que compartilhavam seus interesses em jogos, construir amizades e uma pequena comunidade: a plataforma de streaming Twitch. Apesar de não ganhar nada financeiramente com as transmissões, dedicava ao menos duas horas por dia após o expediente do seu trabalho – ela é supervisora de atendimento, sua única fonte de renda – aos jogos online que eram transmitidos pela plataforma.Â
Foi nojento e assustador. Meu hobby, talvez até um sonho, morreu ali; eu não estava esperando aquilo
Em 2021, tudo mudou. âEu cheguei em casa bem cansada e estressada do meu trabalho, não via a hora de começar a jogar e transmitirâ disse Jessica. Em certo momento da transmissão, recebeu uma raid (termo usado nos chats quando uma transmissão está para terminar e o criador do conteúdo direciona seu público para outro criador) de outro usuário e notou novos visualizadores que a acompanhavam – cerca de 40 desconhecidos estavam a assistindo jogando. Todos, apesar de serem usuários cadastrados, estavam sem foto, com nomes ofensivos e totalmente anônimos â muitos deles se identificaram como homens em seus perfis; outros eram bots (robôs). A partir de certo momento, começou uma enxurrada de comentários machistas, misóginos e racistas. âO anonimato deixa todo mundo corajoso, comentaram tudo sobre mim. Desde a forma como eu jogava até coisas da minha aparênciaâ, disse Jéssica.
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O relato de Jéssica não foi isolado e não se limitou à quele momento. Nas redes sociais, não é difÃcil encontrar relatos de streamers que denunciam mensagens de ódio, morte, perseguição, racismo, e saudações nazistas. A hashtag #TwitchAjudaAsMina foi criada especialmente para buscar um posicionamento e uma ação da Twitch sobre os diversos casos como esse em que a plataforma não assegura a segurança das suas streamers.Â
As contas que participam desses ataques são, geralmente, novas e sem seguidores ou foto de identificação. Muitos são bots criados especialmente para o envio simultâneo de uma ou de várias mensagens diferentes em um determinado espaço de tempo com o intuito de manter o engajamento, um assunto ou, no caso de Jessica, o assédio direcionado.
Apesar de continuar seus jogos naquele momento, os comentários anônimos foram escalando radicalmente até que Jéssica notou que vários usuários começaram a assediar sexualmente. âPara mim, ali foi o limite. Eu já estava em um dia ruim, então eu engoli o choro, me despedi e desliguei a transmissãoâ. No dia seguinte, ela excluiu o seu canal e nunca mais voltou a transmitir. âFoi nojento e assustador. Meu hobby, talvez até um sonho, morreu ali; eu não estava esperando aquiloâ, relatou Jéssica.Â
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Veja o que já enviamosJéssica resolveu levar o seu relato para as redes denunciando o que sofreu, mas excluiu a postagem não muito após ter o caso relativizado por outros usuários. âComentaram que eu poderia ter limitado as mensagens, que eu deveria estar acostumada, que a comunidade é assim mesmo. Em todo o momento, me culpavam pelo assédio que eu sofriâ, contou.Â
No Brasil, oito a cada dez jovens já sofreram com assédio online
Um estudo da organização Plan International, realizado com 14 mil meninas de 15 a 25 anos em 22 paÃses, incluindo o Brasil, revelou um panorama desolador: no mundo, a pesquisa apontou que 58% das meninas entrevistadas na pesquisa já foram assediadas ou abusadas online. No Brasil, o número de vÃtimas de assédio online chegou a 77%, bem acima da média global.Â
O estudo ainda revelou que meninas usuárias de mÃdias sociais em paÃses de renda alta e baixa estão constantemente expostas a mensagens explÃcitas, fotos pornográficas, perseguição on-line e outras formas perturbadoras de abuso.Â
No estudo abrangente, o tipo de comportamento mais prevalente é o uso de palavras ofensivas e depreciativas, mencionado por uma grande proporção das jovens que enfrentaram assédio, seguido por situações de desconforto intencional e pressões relacionadas à sexualidade.
Descobri que nesses fóruns tinham fotos minhas em dias comuns, que eu postava nos stories, mas que sexualizavam meu corpo em qualquer mÃnima ação. Até deep nude meu tinha ali, foi assustador
Em âmbito nacional, os dados apresentaram algumas variações: a forma de assédio mais comum ainda é a linguagem abusiva e insultuosa, mas os assédios incluem comentários sobre aparência, sexualidade e questões raciais. âEu não estou dizendo que não acontece em outros paÃses, mas o que foram muito citados e estão é em graus muito altos é o racismo e comentários LGBTfóbicosâ, explica Ana Nery Lima, especialista em gênero e inclusão na Plan International Brasil.
Mais da metade das jovens brasileiras pertencentes a grupos étnicos minoritários e que foram vÃtimas de abuso afirmam que foram atacadas devido à sua raça ou origem étnica, enquanto uma proporção das que se identificam como LGBTIQ+ relatam ter sofrido assédio em função de sua identidade de gênero ou orientação sexual. âA maioria desses insultos tem comentários homofóbicos, racistas e, sobretudo, sobre caracterÃsticas fÃsicas das meninasâ, explica Ana.Â
Muito além do assédio: os fóruns e as deepfakes
Marta*, 21, é outra vÃtima do assédio online. Há um ano, em uma live no YouTube, conversando com seguidores, até que recebeu uma mensagem de cunho machista e misógino por meio de uma doação no LivePix com um valor baixo. âAssim que a mensagem subiu, o bot leu em voz alta a mensagem e, apesar de eu seguir com a transmissão, não aguentei dois minutos até começar a chorar na frente de todo mundo e encerrarâ, contou Marta, que também faz transmissão de seus jogos online no Youtube.
Diferente de Jéssica, ela tentou buscar mais informações sobre seu agressor e acabou descobrindo que o assédio foi direcionado: seu nome, usuários na rede e fotos estavam circulando em fóruns anônimos. âDescobri que nesses fóruns tinham fotos minhas em dias comuns, que eu postava nos stories, mas que sexualizavam meu corpo em qualquer mÃnima açãoâ relatou Marta. âAté deep nude meu tinha ali, foi assustadorâ, acrescentou.
Deep nudes são imagens manipuladas com inteligência artificial para mostrar a nudez falsa de uma pessoa e configuram uma forma de violência digital. Por meio de softwares, qualquer usuário pode criar deep fakes. Além disso, fóruns e comunidades online facilitam a disseminação desses conteúdos sem o consentimento da vÃtima. Combater essa prática exige medidas como conscientização sobre os perigos da violência digital, leis que tipifiquem e punam a criação e compartilhamento dessas imagens e proteção da privacidade online.
Para Ana Nery Lima, da Plan Brasil, apesar de muitos avanços no combate ao abuso sexual, a tecnologia anda em passos mais largos – e perigosos. âA gente tem ONGs e terceiro setor trabalhando com essas questões. A Safernet, por exemplo, disponibilza um canal em seu site só para denúncias onlineâ, lembra, citando ainda iniciativas na esfera pública. âTemos também operadores do direito, Ministério Público, a nova lei de LGPDâ¦â, acrescenta. Mas, para ela, parece não ser o suficiente: âenquanto a gente tem uns avanços nesse sentido, a inteligência artificial já praticamente estabilizou força total.âÂ
Regulamento das plataformas
A Twitch diz proibir o assédio sexual em suas diretrizes. Em regulamento disponÃvel no site, a plataforma informa que não aceita assedio sexual âindependentemente dos comentários serem direcionados para outros dentro ou fora dos nossos serviçosâ, e não permite investidas e solicitações sexuais indesejadas, objetificação sexual ou ataques degradantes relacionados à s supostas práticas sexuais de uma pessoa, independentemente de seu gênero. âConsideraremos indicações de indivÃduos afetados pelo comportamento para entender quando investidas e outras declarações são indesejadas, mesmo que não sejam claramente pejorativasâ, acrescenta o regulamento. A Twitch, entretanto, nunca se pronunciou sobre a hashtag #TwitchAjudaAsMina e nem comentou sobre os casos relatados nessa reportagem. A plataforma também não tem uma diretriz clara sobre bots e não limita ou bloqueia as contas de diretamente após a denúncias, deixando grande parte o controle das interações para os próprios streamers.
Já o YouTube, em sua polÃtica contra assédio e bullying virtual, afirma que não permite conteúdo destinado a pessoas contendo ofensas ou injúria com base em caracterÃsticas fÃsicas, status de grupo protegido, como idade, deficiência, etnia, gênero, orientação sexual ou raça e oferece ferramentas e guias para denúncias. Além de incentivar a denúncia do caso diretamente ao órgão local responsável pelo cumprimento da lei.Â
*Os nomes foram alterados para proteger as identidades das vÃtimas
