Dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Félix do Araguaia, no Mato Grosso, e um dos maiores defensores dos direitos humanos do paÃs, morreu aos 92 anos, neste sábado (08/08), em Batatais (SP), onde havia sido removido para tratamento médico devido a problemas respiratórios. A informação foi comunicada pela Prelazia de São Félix do Araguaia (MT), a Congregação dos Missionários Filhos do Imaculado Coração de Maria (Claretianos) e a Ordem de Santo Agostinho (Agostinianos). Ele havia testado negativo para covid-19.
Um dos expoente da Teologia da Libertacão, Dom Pedro Casaldáliga ficou conhecido como defensor dos povos indÃgenas e ribeirinhos e dos camponeses e trabalhadores rurais da Amazônia desde a ditadura militar. Foi responsável por algumas das primeiras denúncias por trabalho escravo contemporâneo que ganharam o mundo no inÃcio da década de 1970.
Morador até hoje de São Félix do Araguaia, o bispo emérito havia sido transferido no meio da semana, por uma UTI aérea, para o hospital de São Paulo, após o agravamento de seu estado de saúde. Ainda jovem, Dom Pedro sofreu uma forte pneumonia que deixou uma sequela permanente em seu pulmão. Após a transferência, Dom Adriano Ciocca, atual bispo da Prelazia de São Félix, informou que Casaldáliga estava com um grave problema pulmonar. âHá dois meses ele já foi hospitalizado por causa disso, mas conseguiu reagir e recuperar. Dessa vez está com mais dificuldades, porque o mal de Parkinson e a idade enfraqueceram ainda mais eleâ, acrescentou em áudio encaminhado à reportagem da agência Amazônia Real.
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Veja o que já enviamosPara o bispo da Diocese de Xingu-Altamira, Dom João Muniz Alves, o bispo emérito tem um legado de doação e presença junto ao povo de sua igreja e é um dos maiores profetas da atualidade. âDom Casaldáliga é um Ãcone da Igreja do Brasil, uma voz profética em favor da vida e dos direitos dos indÃgenas e lavradores. Sofreu ameaças de morte e permaneceu firme na missão. Com 52 anos de presença na Amazônia, Casaldáliga enraizou-se na cultura de nosso povo e tornou-se um de nós. Deus seja louvado por este apóstolo da esperança e do amor que se doa até o fimâ, disse Dom João.
No ano passado, a escritora e jornalista Ana Helena Tavares lançou a biografia de Dom Pedro Casaldáliga – Um Bispo contra Todas as Cercas – e escreveu no #Colabora sobre sua experiência ao preparar e lançar o livro. “Não é por outro motivo, senão pela identificação com estas causas, que cada lançamento tem se tornado um ato polÃtico, sempre descontraÃdo e lotado de pessoas sedentas de utopia. Elas se alimentam da luz emanada pelo biografado e eu me revigoro a cada evento. No lançamento no Rio de Janeiro, em 8 de maio, houve, ao final, um inspirador momento de oração com a presença de representantes da Igreja Católica, um pastor luterano e um pastor metodista, fazendo jus ao ecumenismo sempre praticado por Pedro”, escreveu Ana Helena.
Uma vida em defesa da democracia e dos direitos humanos
Dom Pedro Casaldáliga nasceu na Espanha em 1928 e ficou conhecido por sua luta pela defesa dos direitos humanos â especialmente dos povos indÃgenas â, sendo um dos principais expoentes da Teologia da Libertação no Brasil. Filho de camponeses, nasceu na cidade catalã de Balsareny, sacerdote ordenado na Espanha, Casaldáliga veio para o Brasil como missionário em 1968: estava fugindo da Espanha franquista.
Em plena ditadura militar, não se calou diante dos desmandos que começou a perceber assim que chegou à Prelazia de São Félix, em 1968. Publicou uma série de cartas abertas à população relatando as desigualdades na região, agravadas pela grande concentração de terras nas mãos de poucos. Ganhou projeção nacional e internacional por denunciar os grandes latifúndios de São Félix do Araguaia que começaram a se estabelecer na década de 1970; em 1971, foi nomeado o primeiro bispo da diocese local.
Por seguir os ensinamentos de Cristo, pagou um preço alto por isso, sendo preso e perseguido pelos militares: âComo é bom ser perseguido pela causa do Evangelho, da Justiça e da total libertação!â, escreveu na ocasião em que foi submetido ao cárcere privado.
Ainda na década de 70, escreveu a carta intitulada âUma igreja na Amazônia em conflito com o latifúndio e a marginalização socialâ. O documento alcançou outros importantes teólogos, como Frei Betto e Leonardo Boff, e trouxe São Félix do Araguaia â uma pequena cidade do interior brasileiro â para o debate nacional sobre a importância da reforma agrária e das lutas sociais, além de reforçar, dentro da igreja Católica, o movimento da Teologia da Libertação.
Casaldáliga é um dos fundadores do Conselho Missionário IndÃgena (CIMI) e da Comissão Pastoral da Terra (CPT), duas das mais importantes entidades religiosas do Brasil. As organizações desempenharam um papel importante na transição democrática e também influenciaram na elaboração da Constituição de 1988, marco dos direitos sociais e indÃgenas no paÃs.
Mais recentemente, em julho passado, Dom Pedro assinou uma carta, em conjunto com outros 154 bispos da Igreja Católica, tecendo duras crÃticas ao presidente da República Jair Bolsonaro (sem partido). Na carta foi destacado que o Governo Federal âé apáticoâ, âomissoâ e demonstra uma grande falta de interesse em atender os mais pobres, além âde incapacidade para enfrentar crisesâ.
Anos antes, em 2013, ele teve que sair escoltado pela PolÃcia Federal de São Félix do Araguaia por causa de ameaças de mortes de fazendeiros da região, inconformados com o processo de desintrusão da Terra IndÃgena Marãiwatsédé, do povo Xavante. à época, os produtores rurais disseram que as declarações do bispo a favor dos indÃgenas pela retomada do território, fez com que o Governo Federal acelerasse ainda mais o processo de desintrusão.
*Com Amazônia Real
