No Acre, um menino de 12 anos foi morto a tiros por um homem que pescava num lago na área indÃgena Kulina: o corpo foi cortado em dois, uma parte jogada na água, outro largada na terra. Em Eirunepé (AM), cinco homens arrastam um menino Kanamari de 14 anos: ele foi amarrado pelo pescoço antes de ser estuprado e morto com 29 golpes de faca. No Mato Grosso do Sul, a Guarani Kaiowá RaÃssa, de 11 anos, foi alcoolizada, abusada sexualmente por cinco pessoas e atirada de um penhasco. Os relatos desses crimes brutais contra crianças do ‘Relatório Violência Contra os Povos IndÃgenas no Brasil â dados de 2021’, divulgado nesta quarta (17/08) pelo o Conselho Indigenista Missionário (Cimi).
Leu essa? Número de assassinatos de indÃgenas cresceu 61% em 2020
A brutalidade cada vez maior é um dado extra na escalada de violência contra os indÃgenas no governo Bolsonaro: o Cimi registrou 176 assassinatos em 2021, número pouco menor do que os 182 homicÃdios registrados em 2020. Nos cinco anos anteriores (2015/2019), a média foi inferior: 123 indÃgenas assassinados por ano. “Esse relatório foi o mais doloroso de todos pela crueldade dos crimes praticados contra os indÃgenas”, afirmou Roberto Antonio Liebgott, coordenador do Cimi Sul e um dos organizadores do relatório, no lançamento realizado na sede da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e transmitida pelo canal do Cimi no Youtube.
à chocante o número de crianças assassinadas. São corpos dilacerados, mocinhas esquartejadas. Parece que não basta matar; tem que destruir o corpo, decapitar, esquartejar. Isso é o horror, é inominável
O documento mostra ainda a multiplicação das ameaças à s Terras IndÃgenas com o aumento, pelo sexto ano consecutivo, dos casos de âinvasões possessórias, exploração ilegal de recursos e danos ao patrimônioâ. Em 2021, o Cimi registrou a ocorrência de 305 casos do tipo, que atingiram pelo menos 226 Terras IndÃgenas (TIs) em 22 estados do paÃs. No ano anterior, havia sido registrados 263 casos de invasão em 201 terras em 19 estados. A quantidade de casos em 2021 é quase três vezes maior do que a registrada em 2018, quando foram contabilizados 109 casos do tipo.
O relatório registrou aumento em 15 das 19 categorias de violência sistematizadas pela publicação em relação ao ano anterior – essas categorias são divididas em três capÃtulas: violência contra o patrimônio, que inclui as invasões; violência por omissão do poder público, como a falta de assistência na saúde e na educação e a mortalidade infantil; e a violência, que registra, além dos homicÃdios, lesões corporais, casos de racismo, violências sexuais, ameaças.
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Veja o que já enviamosSuas mãos estão vermelhas com o sangue do nosso povo. Estamos lutando contra um governo que mata
No caso dos assassinatos, 39 vÃtimas eram crianças ou adolescentes com menos de 19 anos. No Rio Grande do Sul, na TI Guarita, Daiane Kaingang, de 14 anos, foi estuprada e assassinada: o corpo, jogado no mato, foi encontrado dilacerado dias depois. Em Guajará-Mirim, Rondônia, uma menina indÃgena de 5 anos, deficiente, foi encontrada morta com marcas de violência. “à chocante o número de crianças assassinadas. São corpos dilacerados, mocinhas esquartejadas. Parece que não basta matar; tem que destruir o corpo, decapitar, esquartejar. Isso é o horror, é inominável”, desabafou a professora socióloga Lucia Helena Rangel, coordenadora da pesquisa para o relatório do Cimi.
Na introdução do relatório, Rangel e Lingblott apontam a violência “sistêmica e institucionalizadas” a que os indÃgenas estão submetidos. “Corpos, espÃritos, terras e águas sofrem cruéis agressões, e as vidas de crianças, jovens, homens, mulheres, idosos e idosas estão sendo aniquiladas sob a omissão e conivência silenciosa dos entes e agentes públicos”, escrevem os coordenadores do documento. “Esse relatório é também uma denúncia dos ataques contra a dignidade da vida; no caso, a dignidade da vida indÃgena”, afirmou Antônio Eduardo Cerqueira de Oliveira, secretário-executivo do Cimi, durante o lançamento acompanhado por lideranças indÃgenas e representantes de ONGs e embaixadas.
Escalada de violência
No capÃtulo ‘Violência contra a Pessoa’, foram registrados, além dos 176 homicÃdios, casos de abuso de poder (33); ameaça de morte (19); ameaças várias (39); assassinatos (176); homicÃdio culposo (20); lesões corporais dolosas (21); racismo e discriminação étnico cultural (21); tentativa de assassinato (12); e violência sexual (14). Vice-cacique de aldeia Guarani Nhandeva no sul do estado do Rio, Neusa Kunhã Takuá culpou toda a sociedade brasileira pelas violências contra os indÃgenas. “Suas mãos estão vermelhas com o sangue do nosso povo”, afirmou a lÃder indÃgena no lançamento do relatório, enfatizando a responsabilidade de Bolsonaro. “Estamos lutando contra um governo que mata”.
Dom Roque Paloschi, presidente do Cimi e arcebispo de Porto Velho, destacou “o absurdo das muitas violações com ação direta do estado”, citando os três Poderes: “o Executivo pela omissão na demarcação das terras e pela ação violenta das forças policiais; o Legislativo pelos projetos de lei que atacam direitos dos povos indÃgenas; o Judiciário pela morosidade em tomar medidas protetivas”. Dom Roque disse que o relatório faz parte de uma missão. “à uma missão de cristãos e cristãs denunciar a violência contra os povos originários e a a violação sistemática de seus territórios e seus direitos”, frisou o presidente do Cimi.
O relatório de hoje é, a meu ver, mais um passo na construção do que nós precisamos: democracia. E a construção da democracia implica o enfrentamento da mentira, das fake news e de tudo que elas representam. Em Jesus, verdade e vida se integram. Pois Jesus é o caminho, a verdade e a vida. Fake news e mentira têm outra origem e seu resultado é sempre a morte. Por isso, lutar pela vida significa, necessariamente, mostrar a verdade
No capÃtulo ‘Violências contra o Patrimônio’, dos povos indÃgenas, foram registrados 871 casos de omissão e morosidade na regularização de terras; 118 conflitos relativos a direitos territoriais; e 305 invasões possessórias, exploração ilegal de recursos naturais e danos diversos ao patrimônio. No total de 1.294 casos de violências contra o patrimônio dos povos indÃgenas em 2021. “Temos um governo que não apenas não demarca, como prometeu, mas estimula o desrespeito aos territórios. Vemos uma escalada de invasões violentas: quem invade, também atira, bota fogo nas plantações e nas casas, passa o trator por cima de tudo”, denunciou a professora Lúcia Helena Rangel.
Roberto Antonio Liebgott acrescentou que o governo Bolsonaro implantou no Brasil uma anti-polÃtica indigenista, com “um monstro de cinco pernas”: desumanização, para tratar os indÃgenas como bichos que podem ser caçados; desterritorialização, para entregar suas terras à agricultura ou à mineração; devastação, para destruir o habitat indÃgena, a floresta; desconstituição dos direitos, com ações no Legislativo e no Judiciário; e a integração forçada. “Com esse monstro de cinco pernas, podemos prever que o relatório com números de 2022 terá números ainda maiores de violência contra os indÃgenas”, disse o coordenador do Cimi Sul.
O capÃtulo ‘Violência por Omissão do Poder Público’ registra 744 mortes de crianças até cinco anos – a quantidade de óbitos de crianças só foi maior, na última década, nos anos de 2014 (785), 2019 (825) e 2020 (776). O número de suicÃdios de indÃgenas em 2021 chegou a 148, o maior já registrado desde que o Cimi passou a contabilizar este dado com base em fontes públicas, em 2014. Ainda neste capÃtulo, foram registrados 34 casos de desassistência geral; 28 de desassistência na área de educação escolar indÃgena; 107 de desassistência na área de saúde; 13 de disseminação de bebida alcóolica e outras drogas; e 39 de morte por desassistência à saúde: um total de 221 casos, 25% a mais do que registros nestas categorias em 2020 (177 casos).
Secretário-geral da CNBB, Dom Joel Portella Amado destacou a importância do relatório do Cimi ao revelar esse cenário de violência contra os povos indÃgenas. “A CNBB está completando 70 anos e, ao longo de sua história, tem um serviço que considera indispensável: a solidariedade aos mais frágeis, aos vulneráveis. Nessa defesa, isso eu gostaria de destacar, se encontra sem dúvida a apresentação da verdade, ainda que a verdade seja dura e envolva sofrimento e perda de vidas. A verdade precisa ser dita”, afirmou Dom Joel ao abrir o evento. “O relatório de hoje é, a meu ver, mais um passo na construção do que nós precisamos: democracia. E a construção da democracia implica o enfrentamento da mentira, das fake news e de tudo que elas representam. Em Jesus, verdade e vida se integram. Pois Jesus é o caminho, a verdade e a vida. Fake news e mentira têm outra origem e seu resultado é sempre a morte. Por isso, lutar pela vida significa, necessariamente, mostrar a verdade”, concluiu o secretário-geral da CNBB.
