No próximo domingo (19), quando Ito Melodia anunciar o retorno do glorioso Império Serrano ao Grupo Especial do Carnaval carioca, terá inÃcio a festa quase centenária que movimenta aldeias, corações e mentes em torno de histórias mais ou menos desconhecidas, mas que quase sempre têm a capacidade de nos tornar maiores e melhores. A partir dali, a rua Marquês de Sapucaà terá sobre si os olhos de todo um planeta afundado em urgências.
Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU pregam a erradicação da fome e da pobreza, melhoria do meio ambiente, igualdade de gênero, entre outros temas absolutamente relevantes. Todos foram cantados pelas escolas de samba do Rio em diversos momentos dos desfiles desde que Zé Espinguela os idealizou, em 1929. Porém, nos últimos anos, uma série de fatores conduziu as agremiações para a linha de frente do progressismo brasileiro; em 2023, todos os 12 enredos do Grupo Especial do carnaval carioca têm alguma ligação, direta ou indireta, com os ODS.
O recém-promovido Império Serrano e atual campeã Grande Rio abrirão o primeiro dia de desfiles com homenagens a dois dos maiores fenômenos populares do paÃs: a brava Serrinha falará de Arlindo Cruz a partir de sua obra e o terreiro caxiense promoverá divertida busca por Zeca Pagodinho por bairros do Rio e de Duque de Caxias, incluindo a mÃtica Xerém. O ODS 4, âEducação de qualidadeâ, sustenta a importância da âvalorização da diversidade culturalâ, e as obras de Arlindo e Zeca (e, claro, de Império e Grande Rio) estão entre as mais valiosas contribuições para a cultura brasileira. Os dois desfiles buscarão reforçar esse entendimento para além do clube quase fechado dos que acompanham escolas de samba o ano inteiro, a chamada âbolha carnavalescaâ.
O ponto acima também abraça a Mocidade Independente de Padre Miguel, que trará para o Rio os artistas de Alto do Moura, bairro de Caruaru, em Pernambuco, todos discÃpulos de Mestre Vitalino, que ergueu sua obra do barro até se tornar um dos maiores artistas plásticos do Brasil. O ODS 4 também liga a ParaÃso do Tuiuti, que conta a história da chegada de búfalos à Ilha de Marajó, no Pará, e a Imperatriz Leopoldinense, que narra, através da literatura de cordel, a delirante chegada do mitológico cangaceiro Lampião ao céu e ao inferno (e o impedimento de sua entrada em ambos). São escolas que, com dois ótimos sambas, também valorizam a diversidade cultural e promovem a âcontribuição da cultura para o desenvolvimento sustentávelâ, como está no documento das Nações Unidas.
Tem mais. A centenária Portela, ao contar sua secular odisseia a partir da narrativa hipotética de cinco grandes portelenses como Paulo Benjamin de Oliveira, o professor Paulo da Portela, também se insere nessa turma que propõe âeducação de qualidadeâ como objetivo de desenvolvimento sustentável. A Unidos de Vila Isabel promete levar à Sapucaà as festas de um Brasil inteiro, contando como cada regionalidade contribui para o enriquecimento cultural do brasileiro enquanto povo – e, como vimos, a valorização desta diversidade consta no sétimo ponto do ODS 4.
à também inspiração do Salgueiro, que promete mergulhar na obra do grande Joãosinho Trinta para revelar as delÃcias possÃveis de um hipotético paraÃso vermelho, onde tudo é permitido e nada é obrigatório. Aqui, a Academia do Samba pode trazer o que se entende como âestilo de vida sustentávelâ, com a âpromoção de uma cultura de paz e não violência, num exercÃcio de cidadania globalâ, atingindo também o ODS 10, âRedução das desigualdadesâ, através da garantia de eliminação de leis, polÃticas e práticas discriminatórias e da promoção de legislação, polÃticas e ações adequadas a este respeitoâ: âBasta!, de violência e opressão/Chega!, de intolerânciaâ, canta o contestado, mas valente, samba da escola.
O contexto é importante. Se há alguns anos, a tônica para os enredos das grandes escolas era o tema patrocinado, seja na abordagem da matéria-prima de um produto especÃfico (oi, iogurte!), seja na âhomenagemâ a cidades, estados ou paÃses que investem em determinada agremiação – os tais âenredos CEPâ -, hoje predominam os temas autorais. O paÃs mudou, e ainda bem, através da construção de polÃticas públicas que facilitaram o acesso e a permanência de pessoas de baixa renda em estruturas educacionais de qualidade, ou da promoção de debates historicamente negligenciados que, hoje, nos permitem dizer que estamos melhores (enquanto os que fazem parte do problema teimam que âo mundo está chatoâ. Paciência).
Essa geração com mais acessos tem ferramentas mais eficazes de contestação. E agora, após muitos anos de peleja em espaços de menor visibilidade na bruma dos barracões, as pessoas que ascenderam no boom polÃtico, social e econômico dos anos 2000/2010 passaram a ocupar espaços de criatividade e de decisão historicamente negados a quem não tem sobrenome. Agora, a festa mudou de mãos: felizmente, a lista de presidentes, diretores/as, carnavalescos/as, enredistas e historiadores/as pretos/as, pertencentes à população LGBTQIAP+ e oriundos/as das camadas populares é incontável, só aumenta, num caminho sem volta.
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Veja o que já enviamosEm 2023, as regiões Norte e Nordeste do paÃs predominam no Grupo Especial do Rio: sete dos 12 enredos desenvolvidos têm estes territórios como inspiração direta ou indireta. Como a Unidos da Tijuca, que falará da BaÃa de Todos os Santos, a reentrância da costa litorânea que se localiza no estado da Bahia e, no mundo, só perde em tamanho para o Golfo de Bengala, na Ãndia. Outra que se veste de Bahia para 2023 é a Mangueira, fundada no terreiro de Tia Fé, mãe-de-santo, jongueira e lÃder comunitária no recém-ocupado morro de Mangueira que tinha ligações importantes com Salvador: uma das versões existentes é a de que Tia Fé fora trazida da capital baiana até o Rio de Janeiro no perÃodo pós-abolição.
Nos exemplos tijucano e mangueirense, além da diversidade cultural idealizada no ODS 4, também chama a atenção a aproximação dos dois enredos com ODS 11, âCidades e comunidades sustentáveisâ, a fim de âfortalecer esforços para proteger e salvaguardar o patrimônio cultural e natural do mundoâ. Na Mangueira, escola que tem uma mulher, Guanayra Firmino, como presidente (e a rainha de bateria da escola-mãe, Evelyn Bastos, como a presidente da Mangueira do Amanhã), o ODS 5, âIgualdade de gêneroâ, é atingido em cheio. O excelente samba mangueirense é uma ode ao poder matriarcal que a ancestralidade ensina.
Os ODS 4 (âEducação de qualidadeâ), 5 (âIgualdade de gêneroâ) e 10 (âRedução das desigualdadesâ) também estão presentes na proposta da Viradouro, que contará a história de Rosa Maria EgipcÃaca, mulher negra do século 18 nascida no Benin, escravizada e trazida para o Rio, considerada santa, prostituta, bruxa, profetisa e reconhecida, enfim, como a primeira mulher negra a escrever um livro na história do Brasil. Sua fascinante história é contada através de um ótimo samba, bastante emocionante, que conversa com o segundo ponto do ODS 5, que visa a âeliminar todas as formas de violência contra todas as mulheres e meninas nas esferas públicas e privadas, incluindo o tráfico e exploração sexual e de outros tiposâ.
Por fim, a Beija-Flor de Nilópolis contará a história da revolução de 1823 na Bahia, o Dois de Julho da independência baiana, comemorado até hoje como um levante popular que expulsou os portugueses e foi apagado da história âoficialâ brasileira justamente por ter o povo e três mulheres, Joana Angélica, Maria Quitéria e Maria Filipa, como protagonistas. Aqui, a Soberana reforça seu lugar historicamente contestador com samba explosivo que remete aos ODS 1 (âErradicação da fomeâ), 2 (âFome zero e agricultura sustentávelâ), 5 (que promove a igualdade de gênero), 10 (redução das desigualdades) e 16. âPaz, justiça e instituições eficazesâ que exige transparência, eficácia e responsabilidade a todas as instituições, e também a garantia de âtomada de decisão responsiva, inclusiva, participativa e representativa em todos os nÃveisâ.
Como se vê, é a época de ouro do carnaval carioca em relação ao equilÃbrio e ao nÃvel de apresentação das escolas de samba e de diversos segmentos, como bateria e mestre-sala e porta-bandeira. Também nunca estivemos tão perto da função principal de uma escola de samba, que é ser a guardiã de toda uma aldeia quase sempre machucada pelo Estado e pelo mercado, a reserva cultural de um povo e o caminho que aponta o que precisa ser diferente.
O Brasil só se tornará possÃvel quando se der conta que não há solução que passe por fora de uma escola de samba; e sim, o caminho é longo. Mas que seja o inÃcio.
