No auditório praticamente lotado da Fundição Progresso, perto de 40 brasileiros ergueram-se das cadeiras, para atender a Raull Santiago. âQuem é preto, periférico e favelado levanta aÃâ, pediu o comunicador independente, empreendedor social e ativista, integrante dos coletivos Papo Reto e Movimentos e da assembleia da Anistia Internacional no Brasil. Deu-se, então, o momento mais catártico do último dia do Festival 3i.
As duas mesas derradeiras, na tarde do domingo (20), na verdade foram complementares, ao tratar de racismo e desigualdade, representatividade e espaço, olhares e vozes. Mazelas brasileiras ocuparam as falas, com crÃticas inclusive ao elenco dos debates, que reproduziu o desequilÃbrio de gênero e raça verificado na mÃdia tradicional.
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A penúltima mesa do dia, âComo cobrir a cidade fora das redações tradicionais. Os desafios de tornar o jornalismo mais democrático e acessÃvel â e por que essa transformação deve ser uma prioridade hoje”, apresentada por Ponte e Ãnois, reuniu, além de Raull, a multipremiada repórter Elvira Lobato e Darryl Hollyday, editor do City Bureau, de Chicago, sob mediação de Maria Teresa Cruz, da Ponte Jornalismo. O americano descreveu o trabalho de capacitar pessoas e comunidades para defender a democracia, num jornalismo radicalmente participativo. âBuscamos o engajamento dos cidadãos na defesa e luta pelos seus direitosâ, arrematou.
Elvira alertou para a precariedade da veiculação de informações em lugares como Japeri, na Baixada Fluminense, que vive sufocada pela disputa entre três facções criminosas. âNão é animador o que está sendo feito de jornalismo fora dos grandes centrosâ, constatou. Ela até lembrou uma exceção, âA Sireneâ, jornal criado pelos atingidos pelo rompimento da barragem da Samarco em Bento Rodrigues (MG). Mas lamentou o fim das edições regulares, por falta de verba.
[g1_quote author_name=”Raull Santiago” author_description=”Ativista e empreendedor social, dos coletivos Papo Reto e Movimentos” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]à grave ler que alunos da PUC sofrem com tiroteio na Rocinha. Jornalismo periférico não fala só sobre violência e morte; a gente cria, fala sobre soluções e isso fala sobre tudo
[/g1_quote]Aplaudido com entusiasmo pela plateia â formada na maioria por jovens â, Raull Santiago sustentou sua fala numa assumida parcialidade na prática jornalÃstica. Definiu-se como âcomunicador pé na portaâ e atacou a alegada imparcialidade da mÃdia tradicional, âfeita por pessoas que vêm do lugar de privilégio e não conhecem a estrutura racista e desigual da cidadeâ. A construção da inovação, inspiração e independência se dá com a quebra do cenário de exclusão. âNessa estrutura de ausência, criamos a redação faveladaâ, acrescentou. âà grave ler que alunos da PUC sofrem com tiroteio na Rocinha. Esse paÃs não se informa do jeito correto. Jornalismo periférico não fala só sobre violência e morte; a gente cria, fala sobre soluções e isso fala sobre tudo. Para cada uma das mesas desse evento, tinha um jornalista favelado que poderia ter sido chamado para falar. Temos que fazer jornalismo que combata atual estrutura desigual e racistaâ, arrematou, sendo novamente aplaudido com entusiasmo.
Em seguida, a mesa que fechou a segunda edição do Festival 3i abordou a desigualdade que a mÃdia perpetua. Apresentada por Marco Zero Conteúdo e Ponte Jornalismo, “Quem tem voz nas redações? Como as organizações digitais trabalham internamente com suas equipes e quais os desafios para ampliar a diversidade nas redações”, teve mediação de Carolina Monteiro, do Marco Zero Conteúdo, e a participação de André Santana, do MÃdia Ãtnica e do Portal Correio Nagô, Paula Cesarino Costa, editora de Diversidade da Folha de S.Paulo; MatÃas Máximo, do Cosecha Roja (Argentina); e Pedro Borges, do Alma Preta.
Baiano, André convidou a plateia para uma reflexão: âQuando falam com negros sobre algo que não seja cultura, futebol ou Carnaval? Quando contam histórias de negros que não sejam sobre violência?â, questionou. âEm qualquer área, tem um especialista negro para falar, que não ganha espaço. E assim, não nos vemos representados nessa mÃdiaâ. Ele lembrou ainda o âfetiche dos corpos negros mortosâ que grassa pela imprensa e falou da âmorte epistemológica promovida pelo racismo estruturalâ.
Paula Cesarino falou dos desafios de levar diversidade a uma redação acostumada a funcionar com brancos, a maioria homens, quase todos heterossexuais. âQuem tem voz nesses espaços é gente branca, da eliteâ, constatou, lembrando a perplexidade de um jornalista inglês que, 15 anos visitou a Folha e só encontrou brancos. Ela argumentou ainda que não adianta contratar um negro e uma trans e dar como cumprida a agenda da diversidade. âPrecisa ser muito mais profundo do que issoâ, ponderou.
Máximo exibiu diversos trabalhos do que chamou de âtrincheira ativistaâ no jornalismo argentino, como a cobertura âdissidência sexual e ditaduraâ, sobre os crimes contra LGBTs cometidos nos anos de arbÃtrio no paÃs. Ensinou a plateia atenta sobre como pautar toda uma cobertura a partir de memes, no mais pleno jornalismo digital. Um deles, aliás, era âEl patrón del fuegoâ, o âpatrão do fogoâ, com uma foto de Jair Bolsonaro, por conta das queimadas na Amazônia.
Cofundador e editor-chefe do Alma Preta, Pedro Borges, integrante da rede Jornalistas das Periferias exibiu estatÃsticas de representatividade em diversos segmentos â inclusive no Festival 3i, que teve apenas sete não brancos entre seus 42 palestrantes. âVocês não sabem como é duro olhar a mesa e não enxergar ninguém como a genteâ, comentou, exaltando a mÃdia feita nas periferias. âO jornalismo mais incrÃvel do Brasil é produzido pelos moleques das quebradasâ, relatou, numa fala contundente e empolgante. Pedro alertou que os negros, historicamente deixados de lado, não estão mais dispostos a prescindir dos avanços. âO jornalismo será negro e periférico. Não vamos abrir mãoâ, garantiu. âOu os veÃculos de mÃdia entendem que a gente veio para ficar ou vão ficar para trás. Porque nós vamos atropelarâ.
Tomara – porque o Brasil precisa.
