Quando as imagens do comboio de terroristas invadindo e depredando objetos de arte do Palácio do Planalto, do Congresso Nacional e da sede do STF, na Praça dos Três Poderes, ganharam o mundo, parecia que se tratava de uma violência desordenada. Entretanto, a escolha das obras e a forma como foram danificadas revelam discursos de misoginia, racismo, intolerância polÃtica. Para Daniela Name, curadora e crÃtica de arte carioca, mais do que dano financeiro, a destruição das obras de arte indicam um atentado à humanidade, à subjetividade, à possibilidade do povo brasileiro pensar fora da reta. Um atentado aos Direitos Humanos, que independem de diferenças de cor, classe social e gênero.
A justiça e a arte confrontam como ninguém o ideário bolsonarista, que se baseia em um nacionalismo que permite destruir o diferente, destruir quem o contradiz
Daniela Name observa que, embora os golpistas tenham entrado como um furacão nas sedes dos Três Poderes, ao analisar os danos à s obras, é possÃvel perceber um discurso polÃtico. O painel ‘As mulatas’, obra de Di Cavalcanti, de 1962, recebeu seis facadas ordenadas, ou seja, houve tempo de realizar a sequência de facadas. âParece que alguém foi caminhando e esfaqueando. à uma tela de mulheres mestiças, ou seja, pardas”, frisa.
Para a especialista, a forma como essa ação foi realizada “é muito coerente com alguém que já disse que a filha foi uma fraquejada, que, durante a campanha, disse que o quilombola merecia ser pesado em arrobas; alguém que desprezou a intelectualidade do povo nordestino”. O discurso de Jair Bolsonaro está na inspiração dos ataques. “Por isso, esse quadro de Di Cavalcanti, foi danificado com tanto esmeroâ, analisa Daniela.
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A curadora também avalia que o desaparecimento da obra ‘A bailarina’, de Victor Brecheret, traz consigo uma mensagem subliminar de misoginia e intolerância. A escultura de porte médio apresenta o corpo de uma bailarina nua, fazendo movimentos tÃpicos do balé clássico. âNovamente o corpo feminino sendo atacado. Um corpo feminino nu, que desapareceâ, reflete Daniela Name.
No Senado, a obra de Athos Bulcão, um painel gigante todo na cor vermelha, formado por relevos, também foi danificado. âAlguém passou com um pedaço de vidro, ou uma faca, ou uma chave de fenda e arranhou esse vermelho. Justamente o vermelhoâ, observa. O prejuÃzo financeiro é incalculável. No entanto, Daniela revela que algumas obras, a exemplo das de Di Cavalcanti e de Athos podem ser recuperadas. âMas vai dar muito trabalho e é a verba pública sendo gasta com algo que não seria necessárioâ, destaca.
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Veja o que já enviamosOs danos à s obras de arte também revelam a contradição do discurso dos golpistas, que defende a âOrdem e o Progressoâ, mas atacam os órgãos legisladores. A obra âA Justiçaâ de Alfredo Ceschiatti, de 1961, localizada em frente ao prédio do Superior Tribunal Federal (STF), também foi atacada. Amarraram uma bandeira do Brasil, como se tivesse enforcando essa figura e escreveram âperdeu, manéâ. Uma réplica da Constituição Federal de 1988, que estava em uma das vitrines de blindex, foi rasgada.
âEntão, mais uma vez, a gente volta a uma contradição de discurso. São pessoas que sempre afirmaram a ordem, dizia que os petralhas eram baderneiros, que Lula ia transformar o Brasil em uma Venezuela. No entanto, a posse de Lula, há uma semana antes, apesar do calor, da multidão, ocorreu de forma pacÃfica. E aà eles vão direto na Lei, [atacam] a escultura da Justiça do Ceschiatti e os exemplares da Constituiçãoâ, pondera.
Uma obra destruÃda e que jamais será recuperada é o relógio do século XVIII, produzido pelo André-Charles Boulle e oferecido por Luiz XIV, à época, rei da França, para Dom João VI, então rei do Brasil. âA gente já pode dar essa obra como perdida, não tem como restaurar, pois destruÃram o relógio e deixaram apenas a carcaça. Além do valor financeiro, tem o prejuÃzo para a relação entre os dois paÃses, o Brasil e a França, porque se trata de um presente de um chefe de Estado para outro chefe de Estadoâ, avalia.
Ainda segundo Daniela, âa justiça e a arte confrontam como ninguém o ideário bolsonaristaâ. Esse ideário, prossegue ela, âque se baseia em um nacionalismo que permite destruir o diferente, destruir quem o contradiz, por isso eles destruÃram a praça dos Três Poderes, que abriga as instituições que legislam a democraciaâ , explica.
O levantamento dos objetos de arte depredados das sedes do Executivo, do Legislativo e do Judiciário ainda estão sendo realizado. O Palácio do Planalto divulgou uma lista preliminar de danos. Na Câmara, relatório preliminar estima prejuÃzo acima de R$ 3 milhões. Os responsáveis pelos ataques podem ser processados por danos ao patrimônio e obrigados a pagar indenização pelas obras de arte e outros objetos destruÃdos.
Destruir imagens interessa ao totalitarismo
Ao longo da história, os regimes totalitários usaram a iconoclastia, ou seja, a rejeição ao uso e a veneração de imagens para sustentar suas doutrinas. âOs regimes totalitários têm horror à s imagens porque elas impedem que você tenha uma visão reta do mundo. à uma perseguição à capacidade de ter ideiasâ, analisa Daniela. A curadora compara a Noite dos Cristais ao ataque aos Três Poderes, em BrasÃlia.
Em tempo, vale lembrar que a Noite dos Cristais, também chamada de pogrom, foi um ataque organizado contra o povo judeu. Grupos extremistas inspirados por Hitler, que fez parecer que não estava envolvido com o caso, entraram em sinagogas, lojas e casas perseguiram e levaram judeus aos campos de concentração. âForam grupos totalitários que entraram nas sinagogas e perseguiram os judeus, a polÃcia alemã, na verdade os escoltou. Não foi o que ocorreu ontem em BrasÃlia?â, questiona.
Por fim, Daniela defende que a destruição das obras de arte e dos espaços e sÃmbolos legisladores se dá porque em um paÃs desigual, no qual a classe média percebe que o sistema liberal não dá conta dos seus desejos, âa lei e a arte são lugares de humanidade, que tratam a todos como iguais, na lógica de ser humano, por isso deve -se destruÃ-losâ, conclui.
