As ameaças começaram ainda durante a campanha eleitoral do então candidato à presidência pelo PSL. Eleito, o presidente Jair Bolsonaro transformou a vida dos indÃgenas num verdadeiro inferno no seu primeiro ano de governo. Em 2019, houve aumento de casos de violência em 16 das 19 categorias listadas pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi) no seu relatório âViolência Contra os Povos IndÃgenas do Brasil/ 2019â, lançado na última quarta, dia 30 de setembro.
Chama especial atenção a intensificação de registros de invasão de terras indÃgenas por posseiros, exploração ilegal de recursos naturais e danos ao patrimônio. Os casos mais do que duplicaram no governo Bolsonaro, pulando de 109, em 2018, para 256 casos, no ano passado. Um total de 151 terras indÃgenas foi alvo de invasões, atingindo a vida de 143 povos indÃgenas, que vivem espalhados por 23 estados brasileiros. Do total de casos listados no relatório do Cimi, 107 deles provocaram danos ao meio ambiente.
[g1_quote author_name=”arcebispo Dom Roque Paloschi” author_description=”presidente do CIMI” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Aqui se incentivou uma das maiores tragédias ambientais do mundo, através de incêndios criminosos, desmatamentos, loteamentos de terras indÃgenas, invasões de toda ordem, ameaças, espancamentos e assassinatos de lÃderes indÃgenas, quilombolas e de comunidades de pequenos agricultores, que defendiam seus territórios
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Veja o que já enviamosâAqui se incentivou uma das maiores tragédias ambientais do mundo, através de incêndios criminosos, desmatamentos, loteamentos de terras indÃgenas, invasões de toda ordem, ameaças, espancamentos e assassinatos de lÃderes indÃgenas, quilombolas e de comunidades de pequenos agricultores, que defendiam seus territóriosâ, criticou Dom Roque Paloschi, presidente do Cimi e arcebispo de Porto Velho, ao analisar a atuação do governo Bolsonaro durante o lançamento do relatório. à a primeira vez que o Cimi divulga o documento virtualmente.
à de fato uma tragédia sem precedentes. As invasões promovidas nas terras indÃgenas durante o primeiro ano do governo Bolsonaro tiveram motivações diversas. De exploração ilegal de madeira a garimpo, passando por grilagem, pesca predatória, tráfico de drogas, contaminação por agrotóxico e ocupação ilegal para expansão do agronegócio.
à frente de um governo marcado pela omissão e pelo desmonte da estrutura de proteção dos povos indÃgenas, o presidente Bolsonaro e ministros  engavetaram 829 processos de pedidos de demarcação de terras indÃgenas em 2019. A base de dados do relatório incluiu informações enviadas por missionários, pelos povos indÃgenas e suas entidades, pelo Ministério Público Federal (MPF) de diferentes estados e notÃcias publicadas pela imprensa.
[g1_quote author_name=”Lúcia Helena Rangel” author_description=”Organizadora do relatório do CIMI” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Os dados de 2019 demonstram o aumento significativo das omissões do governo federal em relação à s suas obrigações constitucionais no que tange aos povos indÃgenas. Tais omissões contam com a complacência do mais alto dirigente do paÃs, Jair Bolsonaro
[/g1_quote]âOs dados de 2019 demonstram o aumento significativo das omissões do governo federal em relação à s suas obrigações constitucionais no que tange aos povos indÃgenas. Tais omissões contam com a complacência do mais alto dirigente do paÃs, Jair Bolsonaroâ, analisou a antropóloga Lúcia Helena Rangel. Professora da PUC-São Paulo, ela organizou o relatório em parceria com Roberto Antonio Liebgott, coordenador do Cimi Regional Sul.
Invariavelmente, as violências praticadas contra os indÃgenas e suas comunidades estão associadas à disputa pela terra. Ainda que o número de assassinatos tenha diminuÃdo em 2019, as lideranças indÃgenas foram o principal alvo. A emboscada contra Paulo Paulino Guajajara, assassinado no final de 2019, é apenas um dos exemplos. Morreram naquele ano 113 indÃgenas contra 135, em 2018. Os dois estados com o maior número de assassinatos foram o Mato Grosso do Sul, com 40 mortes, e Roraima, com 26 assassinatos. Em compensação, aumentaram as tentativas de assassinatos, que subiram de 22, em 2018, para 25, no ano passado. Assim como as ameaças de morte, que pularam de oito, em 2018, para 33, em 2019.
O Cimi denunciou em seu relatório os casos em que houve omissão do poder público, um total de 267 casos. Frente à dificuldade de levantar alguns dados, especialmente aqueles oriundos da Secretaria Especia de Saúde IndÃgena (Sesai), os autores do relatório apelaram a Lei de Acesso à Informação (LAI). Ainda assim, muitos dados foram encaminhados de forma parcial, sobretudo aqueles referentes a suicÃdio e mortalidade na infância.
Foram registrados 133 suicÃdios em todo o paÃs em 2019; 32 a mais que em 2018. Os estados do Amazonas (59) e Mato Grosso do Sul (34) encabeçaram a lista. Também houve aumento nos registros de âmortalidade na infânciaâ (crianças de 0 a 5 anos), que saltaram de 591, em 2018, para 825 em 2019. Chamam atenção os registros de 248 casos no Amazonas, 133 em Roraima e 100 no Mato Grosso. Assim como os assassinatos, o relatório chama a atenção para o fato de que as informações da Sesai sobre os registros relativos a suicÃdio e mortalidade na infância são parciais e estão sujeitos a atualizações. Ou seja, os dados podem vir a ser ainda mais graves.
Há 27 anos, quando ocorreu o âMassacre de Haximuâ, em Roraima, quando 19 Yanomamis foram assassinados por garimpeiros que invadiram a terra indÃgena atrás de ouro, o Cimi e setores sociais simpáticos à causa indÃgena se perguntaram: âAté quando matarão indÃgenas para explorar suas terras?â, âAté quando matarão crianças, adultos e idosos indÃgenas para derrubas as florestas?â.
A pergunta continua atual e, o pior, sem resposta. Alvo de agressões, intolerância, racismo, omissão e negligência estatal, a atual polÃtica indÃgena do governo Bolsonaro tem apoio entre polÃticos e empresários. E, como lembra o presidente do Cimi referindo-se a matança dos Yanomamis, em 1993, âpor trás daquela invasão havia polÃticos, e alguns deles continua a exercer atividades parlamentares no paÃs ou exercem influência, até hoje, dentro das instituições públicasâ. A pergunta que não quer calar: até quando?
