(Ana Lucia Montel*) Boa Vista (RR) â No fim da tarde de quinta-feira (14), acabaram-se as últimas esperanças de encontrar com vida as duas crianças Yanomami sugadas e cuspidas para o meio do rio por uma balsa que operava ilegalmente na região do Parima, municÃpio de Alto Alegre. O corpo de um menino de 7 anos foi encontrado pelo Corpo de Bombeiros após dois dias de buscas. Um dia antes, os moradores da comunidade Makuxi Yano já haviam localizado o corpo do outro desaparecido, um menino de 5 anos.
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Não foi um acidente, mas mais um assassinato cometido pelo garimpo ilegal na Terra IndÃgena Yanomami. Vice-presidente da Hutukara Associação Yanomami (HAY), Dário Kopenawa Yanomami informou à Amazônia Real que não houve operação da PolÃcia Federal ou do Exército nesta região. âNós recebemos a informação através das lideranças da comunidade. Nessa região, o garimpo é muito antigo, de muitos anos, e a operação da PolÃcia Federal e do Exército não foi lá; não fizeram nenhuma fiscalização. Nada, nada”, afirmou.
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Veja o que já enviamosO uso de draga pelos garimpos é uma ameaça permanente aos povos indÃgenas. “A situação nessa comunidade é ainda mais complicada porque os garimpeiros usam draga. Lá na comunidade, depois de 300 metros, já é draga, onde o cano puxa o petróleo dentro do rio. A correnteza levou as crianças e elas entraram na mangueira que está puxando o petróleoâ, afirmou Dário Kopenawa.
Na quarta-feira (13), a HAY enviou ofÃcio à s autoridades comunicando o ocorrido e pedindo, mais uma vez, providências. âAcionamos os órgãos públicos para chamar a atenção das autoridades locais. Pedimos do Ministério Público, PolÃcia Federal, o próprio governo federal. Não é de hoje que pedimos a retirada do garimpo, a violência, o agravamento do nosso território que está muito ameaçado, por isso enviamos esse ofÃcio à s autoridades e pedimos que a Amazônia Real divulgue para chamar atenção da imprensa local e nacional para chamar atenção das autoridades brasileiraâ, disse Dário.
No final da tarde de quarta-feira (13), mergulhadores do Corpo de Bombeiros se deslocaram até a região em uma aeronave disponibilizada pelo Dsei-Y. âA Corporação de Bombeiros Militar de Roraima preparou uma equipe com quatro mergulhadores, devido à distância e à dificuldade de acesso, o CBMRR ficou aguardando a disponibilização de uma aeronave pela autoridade indÃgena solicitante, os mergulhadores estão no local realizando as buscas desde as primeiras horas desta quinta-feira, dia 14â, diz a nota do CBMRR enviada à imprensa.
Procurado, o Ministério Público Federal (MPF) de Roraima informou à Amazônia Real que está apurando os acontecimentos para que providências sejam tomadas. Segundo o MPF, estão sendo investigadas âa eventual responsabilidade de invasores da terra indÃgena e a possÃvel omissão dos órgãos responsáveis pela proteção das comunidades em questãoâ. O MPF informou ainda que possui ações judiciais em andamento exigindo proteção territorial aos Yanomami e apurações sobre violações de direitos desse povo indÃgena.
Deputada protesta: âgarimpo é crimeâ
A deputada federal Joênia Wapichana (Rede-RR), em um encontro virtual para debater o marco temporal, citou o caso do assassinato das crianças Yanomami. âIsso não pode acontecer, porque garimpo é crime e, mesmo assim, não há uma resposta à altura por parte do governo brasileiro”, afirmou.
A deputada indÃgena lamentou a tragédia e definiu a quinta-feira, quando houve a confirmação das duas mortes, como um dia muito pesado e que há uma ação deliberada para aumentar as invasões sobre as terras indÃgenas. “E ainda há um incentivo muito grande, tanto em defender o marco temporal, mas também como encorajar invasões, porque abre possibilidades de revisões de direitos constitucionais. Então o marco temporal ameaça a vida dos próprios povos indÃgenasâ, acrescentou Joênia Wapichana no encontro promovido pela Ashoka e que contou com a participação da jornalista e co-fundadora da Amazônia Real, Kátia Brasil, e de Ednei Arapiun, lÃder indÃgena juvenil na região do Tapajós e coordenador do Conselho IndÃgena Tapajós Arapiuns.
O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) manifestou sua âprofunda dorâ pela das duas crianças Yanomami. âTambém expressamos nossa indignação diante da permanência e o aumento expressivo do garimpo na Terra IndÃgena Yanomami, sustentados pela inação do Estado brasileiro, omisso a suas responsabilidades constitucionais e à s decisões da Justiça, bem como evidenciada ineficácia das operações pontuais dos últimos anos. à absolutamente imprescindÃvel que o Estado brasileiro cumpra com sua obrigação constitucional de proteção das terras indÃgenas. Basta de mortes e de violência contra os povos indÃgenas!â, afirmou em nota.
A Fundação Nacional do Ãndio (Funai) enviou uma resposta curta à reportagem dizendo apenas que âpor meio da Frente de Proteção Etnoambiental Yanomami e YeâKwana, acompanha o caso junto aos órgãos de saúde e segurança pública competentes e está à disposição para colaborar com o trabalho das autoridadesâ.
A Frente de Proteção Yanomami e Ye´Kwana é uma das entidades das estruturas da Funai que atua junto aos povos indÃgenas isolados. A Funai, contudo, não informou por que está atuando por essa frente, já que possui uma Coordenação Regional que atua no território Yanomami e não se tratam de povos isolados. O órgão limitou-se a repassar informações gerais sobre sua atuação nas terras indÃgenas e na TI Yanomami.
âSó a área indÃgena Yanomami conta atualmente com quatro Bases de Proteção Etnoambiental (Bapes) da Funai: Serra da Estrutura, Walo Pali, Xexena e Ajarani. Todas essas unidades são responsáveis por ações permanentes e contÃnuas de proteção, fiscalização e vigilância territorial, além de coibição de ilÃcitos, controle de acesso, acompanhamento de ações de saúde, entre outras atividadesâ, informou a Funai na nota.
Cobrança por ação mais firme
Dário Kopenawa, vice-presidente da Hutukara Associação Yanomami, cobrou uma atuação contÃnua e rÃgida por parte da Funai. âSó ter postos de fiscalização não resolve. Porque, mesmo assim, os garimpeiros entram e saem quando bem querem. Tem alguma coisa errada nessa fiscalização. Não adianta só fiscalizar. Tem que tomar providências, tirar os garimpeiros, acabar com essa atividade que todos sabem que é ilegal, mas nada tem sido feitoâ, disse ele.
As crianças têm sido uma das principais vÃtimas da presença cada vez mais agressiva e violenta de garimpeiros na TI Yanomami. Desde maio, os indÃgenas relatam que as intimidações e agressões são cada vez mais constantes nas aldeias. No ataque de garimpeiros e de invasores ligados à facção PCC na aldeia Palimiu, ocorrido no dia 10 de maio, duas crianças, assustadas, correram e tentaram se proteger no mato. Elas se perderam e acabaram morrendo afogadas.
Além destas mortes em condições trágicas, os indÃgenas relataram que, devido à atividade ilegal do garimpo no território, aumentou o número de casos de desnutrição causada pela contaminação dos rios e da principal fonte de alimentação dos indÃgenas (peixe e carne de caça), e de bebês com má formação.
Garimpo avança na Terra Yanomami
Em setembro, o Fórum de Lideranças da TI Yanomami se reuniu para trazer a voz da floresta, e apresentaram alertas à s autoridades. âO aumento da atividade garimpeira ilegal na Terra IndÃgena Yanomami está se refletindo em mais insegurança, violência, doenças, e morte para os Yanomami e Yeâkwana. As autoridades brasileiras precisam continuar atuando para proteger a Terra-Floresta, e impedir que o garimpo ilegal continue ameaçando nossas vidasâ, disse documento elaborado pelas lideranças.
Conforme a HAY, até setembro de 2021, a área de floresta destruÃda pelo garimpo ilegal na TI Yanomami superou a marca de 3 mil hectares, um aumento de 44% em relação a dezembro de 2020.
Somente na região do Parima, onde está localizada a comunidade de Macuxi Yano e uma das mais afetadas pela atividade ilegal, foi atingido um total de 118,96 hectares de floresta degradada, um aumento de 53% sobre dezembro de 2020. Além das regiões já altamente impactadas, como Waikás, Aracaçá, e Kayanau, o garimpo avança sobre novas regiões, em Xitei e Homoxi, a atividade teve um aumento de 1000% entre dezembro e setembro de 2021.
Por causa do garimpo, crianças estão nascendo com má formação. Algumas mães são obrigadas a enterrar as que não sobrevivem, enquanto outras têm de lidar com a interrupção da gestação. Os filhos sobreviventes correm o risco de sofrer com a desnutrição, ou morrem de doenças como malária, diarreia e pneumonia. A água dos rios está suja de mercúrio, contaminando os peixes e as caças.
Para Dário Kopenawa, o futuro do povo Yanomami está morrendo a cada dia. âNão foram só duas crianças que morreram, foram o futuro do nosso povo, é o nosso futuro que está acabando, estou muito triste, nada é feito, até quando tem morte não é feito nada, não é de hoje que estamos cobrando providências, o governo federal não faz nada, além de destruir a natureza estão matando nosso futuroâ, lamentou.
*Ana Lucia Montel é comunicadora popular, estudante de jornalismo e fundadora da Resistir Produções Roraima
** Colaborou Leanderson Leal
