O convite e um vÃdeo começaram a circular pelo WhatsApp na terça-feira (1 de outubro), véspera de feriado em Porto Velho, capital de Rondônia. No vÃdeo, o deputado federal Coronel Chrisóstomo (PSL/RO), proponente do evento, explica que a audiência tratará de âtudo sobre todos os tipos de minérios.â Disse também que tratarão âdesde o planejamento, da exploração, da comercialização, da exportação, de toda a organização dos minérios no Estado de Rondônia e na Amazôniaâ. Chrisóstomo ainda convidou todos os prefeitos interessados âprincipalmente de onde tem mineraçãoâ e estendeu o convite aos prefeitos que desejassem participar, vereadores e empresários da área que investem e querem investir em minério âseja no diamante, no nióbio, na cassiterita, no ouro.â Convidou também âaqueles que trabalham na mineraçãoâ. O Coronel destacou âum detalheâ: a presença do ministro das Minas e Energia, o Almirante Bento Albuquerque, além de órgãos federais da área para tratar âinclusive de mineração em terras indÃgenas.â
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Veja o que já enviamosNo entanto, a Comissão de Minas e Energia da Câmara âesqueceuâ de um outro detalhe: convidar os povos indÃgenas, os donos de grande parte das terras. Os analistas do ICM-Bio e os representantes de organizações ambientais também não foram lembrados. Quinze associações indÃgenas, entre elas a Wãypa e a do Povo Uru-eu-wau-wau, divulgaram ontem à noite uma nota de repúdio de três páginas em que dizem que receberam âcom profundo desgostoâ a informação da audiência na próxima sexta-feira, dia 4, em Porto Velho. A nota cita a legislação vigente, como o artigo 231 da Constituição, que reconhece os direitos dos povos originários sobre as terras que ocupam e responsabiliza a União pela demarcação das terras e proteção dos povos indÃgenas. A Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) sobre Povos IndÃgenas e Tribais, é de 1989. Em seu artigo 7º inciso 1º diz que âOs povos interessados deverão ter o direito de escolher suas próprias prioridades no que diz respeito ao processo de desenvolvimento, na medida em que ele afete as suas vidas, crenças, instituições e bem-estar espiritual, bem como as terras que ocupam ou utilizam de alguma forma [â¦]. Além disso, esses povos deverão participar da formulação, aplicação e avaliação dos planos e programas de desenvolvimento nacional e regional suscetÃveis de afetá-los diretamente.â As terras indÃgenas (ainda) mais afetadas seriam a Uru-Eu-Wau-Wau, Sete de Setembro, Roosevelt, Karipuna, Rio Guaporé e Igarapé Lourdes. Estas terras já vêm sofrendo com invasões, desmatamento, roubo de madeira e garimpo ilegal.
[g1_quote author_name=”Organização Internacional do Trabalho” author_description=”Convenção 169″ author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Os povos interessados deverão ter o direito de escolher suas próprias prioridades no que diz respeito ao processo de desenvolvimento, na medida em que ele afete as suas vidas, crenças, instituições e bem-estar espiritual, bem como as terras que ocupam ou utilizam de alguma forma
[/g1_quote]Até o Ministério Público Federal ficará de fora. Agora há pouco, a procuradora do Ministério Público Federal de Rondônia, Gisele Dias de Oliveira Bleggi Cunha, divulgou carta dirigida ao deputado federal Coronel Chrisóstomo, proponente da audiência, informando que o MPF decidiu não participar da mesa redonda depois de tomar conhecimento, através da nota de repúdio divulgada pelas associações indÃgenas, que estas entidades não tinham sido convidadas. Segundo a nota, o âobjeto de debate consiste em tema complexo e diretamente relacionado ao interesse de muitas etnias do Estado.â Na nota, o MPF solicita à Comissão de Minas e Energia da Câmara dos Deputados que âse outros eventos forem realizados sobre a temática em questão, exploração de minérios em Terras IndÃgenas, sejam amplamente divulgados e endereçados a todas as etnias do Estado de RO e associações indÃgenas respectivas [â¦]â. Em outro trecho, a procuradora destaca que âtodos os povos indÃgenas de Rondônia precisam ser provocados a se manifestarem, e suas falas deverão ser levadas em consideração na tomada de decisão governamental sobre a exploração mineral em Terras IndÃgenas.â
âEles podem convidar quem eles quiseremâ
O #Colabora procurou o Almirante Bento Albuquerque, ministro das Minas e Energia, que confirmou ter uma agenda extensa em Rondônia, na sexta-feira, mas sem qualquer compromisso marcado com os indÃgenas. Ele comentou sobre a mesa redonda da mineração e disse que se os indÃgenas quiserem falar com ele âé só agendarâ.
O senhor vai participar da audiência pública marcada para a próxima sexta-feira?
 Na realidade, tenho uma agenda extensa em Rondônia, quem vai participar da audiência é o Secretário de Geologia, Mineração e Transformação Mineral do ministério, Dr Alexandre Vidigal. Vou participar do encerramento.
 O senhor sabe que os indÃgenas não foram avisados e foram surpreendidos quando souberam da audiência pelo WhatsApp?
A audiência pública foi convocada pela Comissão de Minas e Energia da Câmara dos Deputados â instrumento jurÃdico previsto na Constituição. O ministério foi convidado e poderia ter sido convocado, também, para participar do evento.
E sobre os indÃgenas não terem sido convidados?
Sugiro que você faça a pergunta para quem convocou a audiência pública, no caso a Comissão de Minas e Energia da Câmara dos Deputados.
O senhor acha que o resultado de uma audiência pública em que os povos indÃgenas não são ouvidos deve ser considerado?
 Para informação â sugiro dar uma olhada no Regimento Interno da Câmara dos Deputados e na Constituição â audiências públicas não deliberam ou apresentam resultados. Servem para esclarecimento, discussão de temas ou assuntos de interesse do Congresso. Mais uma informação, quando a audiência pública é realizada fora da Câmara dos Deputados é chamada de Mesa Redonda. Eles podem convidar quem eles quiserem.
E a Convenção 169 da OIT?
Uma coisa não tem nada a ver com a outra.
Ministro, os indÃgenas não terem sido convidados é um fato, correto?
Não sei. Quem emitiu os convites foi a Comissão de Minas e Energia da Câmara
O senhor gostaria de conversar com os indÃgenas sobre mineração nas terras em que eles vivem?
Dois dos pilares da gestão do ministério são o diálogo e a transparência. Já conversamos com muitos indÃgenas sobre o assunto e continuaremos a conversar com quem nos solicitar.
Qual será a sua agenda na sexta-feira em Rondônia?
Tenho uma agenda extensa sobre diversos assuntos do Estado da esfera de competência do ministério com o governador, assembleia legislativa e também vou à hidrelétrica de Santo Antônio. Não terei tempo para acrescentar outro evento. Entretanto, poderemos fazer um agendamento aà [Rondônia] ou em BrasÃlia com eles [indÃgenas], só agendar.
