Em mais um ataque na escalada de violência contra povos indÃgenas, uma Casa de Reza da etnia Guarani Kaiowá, em Mato Grosso do Sul, foi incendiada e destruÃda na virada do ano. Em seguida, de acordo com relatos do Centro Indigenista Missionário (Cimi) no estado, homens não identificados atacaram os indÃgenas da comunidade Laranjeira Nhanderu – localizado no municÃpio de Rio Brilhante – a tiros e invadiram algumas casas esvaziadas pela fuga de seus moradores na madrugada desta quinta-feira (02/01).
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Veja o que já enviamosA gente tem que se proteger. Não dá pra ficar esperando pra ver se dá pra saber quem é. Hoje estamos preparados porque a gente acredita que vem de novo. Querem acabar com a gente, matar. Entram nas casas, vasculham estrada. Estamos de guarda aqui para ver o que fazer se aparecer de novo
[/g1_quote]Integrantes do Cimi em Mato Grosso do Sul conversaram com uma liderança Guarani Kaiowá, da Aty Guasu, principal organização polÃtica da etina, que esteve em Laranjeira durante o dia, conversou com os indÃgenas da comunidade, e rechaçou as notÃcias da participação de outros indÃgenas nos ataques. âEstão dizendo que tem Ãndio Guarani Kaiowá envolvido com a queima da Casa de Reza. à notÃcia falsa, denúncia errada. Ninguém sabe quem foi que colocou fogo. Vimos aqui foi capanga, que a gente chama de pistoleiro, não indÃgena. Isso machuca e revolta a gente porque vivemos todo dia o genocÃdio, a violência, o racismo e sempre procuram um jeito de dizer que isso é culpa da gente mesmoâ, disse ao Cimi essa liderança indÃgena que preferiu não se identificar por temer represálias. âA Casa de Reza é um sÃmbolo para o nosso povo, é muito importante para a gente, nossos rezadores, nossa vida espiritual e aqui na terra. Não é a primeira vez que incendeiam uma Casa de Reza nossaâ, acrescentou.
De acordo com o relato de um casal da comunidade Laranjeira Nhanderu, eles acordaram de madrugada com barulho e o indÃgena chegou a ver um homem – não indÃgena – caminhando em direção à Casa de Reza que o ameaçou quando ele perguntou onde ia e se estava perdido. O indÃgena disse achar que o homem estava armado: voltou para casa, pegou a mulher e fugiu para o milharal próximo, onde viram o inÃcio do incêndio. “A gente tem que se proteger. Não dá pra ficar esperando pra ver se dá pra saber quem é. Hoje estamos preparados porque a gente acredita que vem de novo. Querem acabar com a gente, matar. Entram nas casas, vasculham estrada. Estamos de guarda aqui para ver o que fazer se aparecer de novoâ, contou a mulher indÃgena, de acordo com o Cimi. Os indÃgenas de Laranjeira Nhanderu acreditam que pelo menos quatro homens atearam foto na Casa de Reza.
No caso do ataque a tiros no dia seguinte, a indÃgena Guarani Kaiowá contou que homens andaram entre os barracos de madrugada e gritavam para que eles deixassem o local e ameaçavam de morte. Gritaram também xingamentos racistas enquanto atiravam. âNossa preocupação maior é com as crianças e os idosos. Estamos cansados de viver nessa situação. Queremos que as autoridades tomem alguma decisão a nosso favor. Vamos fazer documento na Casa de Reza e denunciar o que o Guarani Kaiowá tem passado aqui em Laranjeira Nhanderuâ, disse a indÃgena ao Cimi.
O Conselho Indigenista Missionário informou que a comunidade Laranjeira Nhanderu, onde os ataques ocorreram, é uma área retomada pelos indÃgenas no mês de outubro de 2018, na sede da Fazenda Santo Antônio da Nova Esperança, que já está sob a posse dos Guarani Kaiowá desde 2007, quando disputas de terra no local e na Justiça tiveram inÃcio. Pouco mais de 30 famÃlias indÃgenas vivem na comunidade.
Histórico de conflitos
Parte do extenso território que lhes foi subtraÃdo pelas polÃticas de colonização da região e confinamento dos indÃgenas ao longo do século XX, a demarcação da comunidade Laranjeira Nhanderu é reivindicada pelos Guarani Kaiowá há mais de uma década, quando a área foi incluÃda no Termo de Ajustamento de Condutas (TAC) firmado entre o Ministério Público Federal (MPF) e a Funai em 2007. O Grupo de Trabalho para identificação e delimitação da Terra IndÃgena Brilhantepegua, que abrange a Laranjeira Nhanderu, foi criado em julho de 2008, mas o trabalho não foi concluÃdo.
A primeira vez que a porção do território incidente sobre a Fazenda Santo Antônio foi retomada pelos Guarani Kaiowá foi em 2008. Dois anos depois, eles acabaram sendo despejados por decisão judicial. Os indÃgenas passaram, então, a viver acampados à s margens de uma das estradas que ligam as fazendas da região à BR-163, onde sofreram com a falta de condições básicas de vida, inundações e, ao menos, três mortes por atropelamento.
Segundo o Cimi, eles voltaram para a área da fazendo em 2011 e a Justiça garantiu sua permanência ali. Os dois acessos ao acampamento indÃgena ficaram, entretando, bloqueados pelo proprietário da fazenda vizinha, impedindo a prestação de serviços essenciais como atendimento médico, distribuição de remédios e alimentos, apoio policial e até mesmo o transporte escolar. Em 2013, o MPF conseguiu, na Justiça, assegurar a entrada de órgãos assistenciais na comunidade.
O proprietário da fazenda – que está arrendada a terceiros para criação de gado – vem tentando a reintegração de posse. Mas, desde 2015, os indÃgenas ocupam a reserva florestal da fazenda, garantidos por ordem judicial, até o fim do processo. No final de 2018, os Guarani Kaiowá ocuparam a área em torno da sede da fazenda. Houve nova ação contra o avanço da retomada e a a 2ª Vara Federal de Dourados chegou a determinar a reintegração de posse, que acabou suspensa pelo  Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF3), em abril.
Ao determinar a suspensão, o TRF3 levou em consideração laudo antropológico produzido pela própria Justiça, o qual concluiu que âo imóvel possui todas as caracterÃsticas de terras indÃgenas, pois existe uma forte relação social e cultural da comunidade indÃgena com as terras questionadas. Todas as conclusões deste laudo podem ser resumidas em: a comunidade de Laranjeira Ãanderu é proveniente desta área em conflito e, desde há muito, vem tentando retomar seu tekoha (Terra Sagrada), de onde foram persistentemente expulsos. A Fazenda Santo Antônio está inserida nos limites da área reivindicada pela comunidade Laranjeira Ãanderúâ.
