Ricardo Salles aproveitou o momento de tranquilidade, em que a imprensa só fala do escândalo da Covaxin, e pediu o boné. Ele não é mais o ministro do Meio Ambiente. Na verdade, para ser honesto, Ricardo de Aquino Salles nunca deixou de ser um advogado e, como tal, defendia os interesses do seu mais importante cliente: o Brasil? a biodiversidade? as florestas? o interesse público? Não, Jair Bolsonaro. O presidente que cunhou frases emblemáticas como âo Brasil é uma virgem que todo tarado querâ, âa questão ambiental só é importante para os veganosâ e âcompetente, sim, foi a cavalaria norte-americana, que dizimou os seus Ãndios”. Foi desempenhando esse papel sujo que Salles resumiu, em uma reunião ministerial, em abril de 2020, a sua estratégia para a pasta: âà preciso ter um esforço nosso aqui, enquanto estamos nesse momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa, porque só se fala de covid, e ir passando a boiada, e mudando todo o regramento (ambiental), e simplificando normasâ.
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Sallles deixa o cargo semanas após a abertura de duas investigações contra ele, uma por ligações com um caso de tráfico ilegal de madeira e outra por supostamente obstruir as investigações em um caso de desmatamento. Sua renúncia coincide também com novos recordes de desmatamento e extração ilegal de madeira da Amazônia, a maior floresta tropical do mundo. Ele é acusado de modificar regras com o objetivo de regularizar cargas apreendidas no exterior. As suspeitas da PolÃcia Federal incluem crimes de corrupção, advocacia administrativa, prevaricação e facilitação de contrabando, envolvendo agentes públicos e empresários do setor madeireiro. Acha pouco? O #Colabora fez uma lista com dez ações, falas ou pistas que ilustram bem a tragédia ambiental em que estamos envolvidos desde janeiro de 2019.
[g1_quote author_name=”Ricardo Salles” author_description=”Ex-ministro do Meio Ambiente” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]à preciso ter um esforço nosso aqui, enquanto estamos nesse momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa, porque só se fala de covid, e ir passando a boiada, e mudando todo o regramento (ambiental), e simplificando normas
[/g1_quote]Gostando do conteúdo? Nossas notÃcias também podem chegar no seu e-mail.
Veja o que já enviamos1 â Esvaziamento do Ibama e do ICMBio â Em maio de 2020, em meio à âtranquilidadeâ da maior pandemia dos últimos cem anos, o governo Bolsonaro publicou uma série de portarias que alteraram a gestão das unidades de conservação brasileiras. As mudanças enxugaram as chefias de parques, reservas, estações ecológicas, APAs, e as aglutinaram em comandos do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). O próprio instituto estimou gastar R$ 8.887.191,80 em ajuda de custo para os funcionários que deixaram suas antigas sedes e assumiram funções nos novos núcleos integrados. Em abril de 2019, numa feira do agronegócio em Ribeirão Preto, Bolsonaro já anunciava que ia fazer um âlimpa no Ibama e no ICMBioâ. As ações do presidente para esvaziar a fiscalização ambiental no paÃs provocaram um encontro inédito de sete ex-ministros do Meio Ambiente. “Nós temos nossas diferenças polÃticas e ideológicas, mas nenhum de nós ousou desmontar o ICMBio, o Ibama, propor a extinção de parques ou de terras indÃgenas já demarcadas e homologadas, ou até mesmo de voltar atrás nos avanços das gestões anteriores. Sempre reconhecemos os avanços das gestões anteriores e fomos adiante”, disse Sarney Filho em coletiva de imprensa após a reunião. Foi do presidente também a decisão de afastar o fiscal do Ibama José Augusto Morelli. Foi ele que flagrou o então deputado federal Jair Bolsonaro em um barco com varas de pescar e recipientes para peixes em uma área onde a pesca era proibida: a Estação Ecológica de Tamoios. Por mais de uma vez, Salles propôs, sem sucesso, a fusão entre o Ibama e o ICMBio.
2 – Destruição da Mata Atlântica â Em abril de 2020, Ricardo Salles recomendou, em despacho, aos órgãos ambientais (Ibama, ICMBio e Instituto de Pesquisas Jardim Botânico) que desconsiderassem a Lei da Mata Atlântica (nº 11.428/2006) e aplicassem regras mais brandas constantes do Código Florestal (Lei nº 12.651/2012) para áreas ditas consolidadas nas regiões de domÃnio da Mata Atlântica. No mesmo mês, o então ministro do Meio Ambiente enviou minuta de decreto à Casa Civil propondo a exclusão de alguns tipos de formações vegetais da regulamentação da Lei da Mata Atlântica e, também, dispensando a autorização prévia do Ibama para desmatamentos de áreas maiores do que o limite atual por órgãos ambientais. âà uma operação casada contra a Mata Atlântica e o meio ambienteâ, denunciou o diretor de PolÃtica Públicas da Fundação SOS Mata Atlântica, Mário Mantovani.
3 â A indústria das multas e as Unidades de Conservação â Assim que assumiu, o ministro Ricardo Salles anunciou a revisão de todas as Unidades de Conservação do paÃs, desde o tradicional Parque Nacional de Itatiaia, que tem quase cem anos, até o Parque do Boqueirão da Onça, criado na Bahia em 2018. Ao todo são 334. Segundo o ministro, as unidades haviam sido feitas “sem critério técnico” e deveriam ter os traçados revistos ou mesmo serem extintas. Já a cruzada contra a tal âindústria das multasâ sempre foi uma obsessão de Bolsonaro. Nessa batalha, vale até inventar números, como os R$ 15 bilhões anuais em multas que seriam aplicadas pelo Ibama e ICMBio. Os dados, fictÃcios, são 4 ou 5 vezes maiores do que a realidade: “Não vou mais admitir o Ibama sair multando a torto e a direito por aÃ, bem como o ICMbio. Essa festa vai acabar”, afirmou o presidente. Entre 2019 e 2020, houve uma redução de 43,5% na média anual de autos de infração contra a flora lavrados na Amazônia Legal em relação ao perÃodo de 2012 a 2018. Estudo da UFMG mostrou que, neste intervalo, foram lavrados, em média, 4.620 autos anuais. Já nos dois primeiros anos do governo Bolsonaro, foram apenas 2.610 autuações, apesar de aumento nas taxas de desmatamento em 2019 (10,1 mil km2) e 2020 (10,9 mil km2), a maior já registrada em 12 anos. Em diferentes situações, a fiscalização foi desautorizada pelo governo. A ponto de o ministro Ricardo Salles criticar publicamente os fiscais que destruÃram equipamentos usados por criminosos para retirar madeira ilegal de uma Unidade de Conservação no Pará. Vale lembrar que o procedimento está previsto em lei.
[g1_quote author_name=”Jair Bolsonaro” author_description=”Presidente do Brasil” author_description_format=”%link%” align=”right” size=”s” style=”simple” template=”01″]Não vou mais admitir o Ibama sair multando a torto e a direito por aÃ, bem como o ICMbio. Essa festa vai acabar
[/g1_quote]4 – Desmoralização das lutas indÃgenas â Essa é outra batalha antiga do presidente.  Bolsonaro garantiu que, sob a sua liderança, não haveria nem mais um centÃmetro de terra indÃgena demarcada. Mas, antes, ele já havia ido bem mais longe: âCompetente, sim, foi a cavalaria norte-americana, que dizimou seus Ãndiosâ, afirmou Bolsonaro, em pronunciamento na Câmara dos Deputados, em 1998. Em uma reunião com os governadores da Amazônia, que deveria tratar de soluções para as queimadas, o presidente atacou as reservas indÃgenas: âMuitas reservas têm o aspecto estratégico. Alguém programou isso. O Ãndio não faz lobby, não fala a nossa lÃngua e consegue hoje em dia ter 14% do território nacional. Uma das intenções é nos inviabilizarâ, afirmou. Aliás, na mesma reunião do dia 22 de abril, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, disse que odiava o termo âpovos indÃgenasâ.
5 – Recusa em sediar a COP 25 â A crise climática planetária, definitivamente, não faz e nunca fez parte das prioridades do governo. Mesmo que os impactos sobre o Brasil sejam graves, como preveem 9 em cada 10 cientistas. O Governo cortou 95% das verbas destinadas aos órgãos que acompanhavam o tema, e abriu mão de sediar a COP-25, maior encontro climático do mundo, que acabou sendo transferido para o Chile e depois para a Espanha. O então ministro do Meio Ambiente também chegou a anunciar o cancelamento da Semana do Clima da América Latina e Caribe (Climate Week), em Salvador. O argumento? Seria apenas uma “oportunidade” para se âfazer turismo em Salvadorâ e âcomer acarajéâ.  O prefeito de Salvador, ACM Netto (DEM), não gostou da interferência e bancou a realização do evento.
[g1_quote author_name=”Alexandre Moraes” author_description=”Ministro do STF” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Os depoimentos, os documentos e os dados coligidos sinalizam, em tese, para a existência de grave esquema de facilitação ao contrabando de produtos florestais, o qual teria o envolvimento de autoridade com prerrogativa de foro nessa Suprema Corte, no caso, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo de Aquino Salles; além de servidores públicos e de pessoas jurÃdicas
[/g1_quote]6 â Aliança com a ala mais atrasada do Agronegócio â O discurso do governo sobre o Meio Ambiente é simplista e equivocado. Quem diz isso não é um ambientalista radical, mas dois ilustres representantes do agronegócio: Katia Abreu e Blairo Maggi. Ambos temem que a retórica do presidente faça o Brasil perder mercado: âNão tem essa de que o mundo precisa do Brasil. Somos apenas um âplayerâ e, pior: substituÃvel. O mundo depende de nós agora, mas, daqui a pouco isso se inverte e ficamos chupando o dedoâ, disse Maggi, em entrevista ao Valor. âOs agricultores que estão alegres hoje vão chorar amanhãâ, completou Katia Abreu, ex-presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Para ela, a retórica âantiambientalâ de Bolsonaro, na verdade, é âantimercadoâ e representa o atraso.
7 â CrÃticas ao trabalho do INPE â âCom toda a devastação de que vocês nos acusam de estar fazendo e ter feito no passado, a Amazônia já teria se extinguidoâ, disse Bolsonaro em julho de 2019, durante um café da manhã com jornalistas estrangeiros. Repetindo a velha prática de culpar o termômetro pela febre do paciente. As crÃticas do presidente provocaram a queda do diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Ricardo Galvão. Um mês depois, dados de satélite coletados pelo INPE, órgão respeitado internacionalmente, confirmaram o crescimento das queimadas na região de Novo Progresso e Altamira, no Pará, onde produtores rurais organizaram o âDia do Fogoâ. Nos meses de janeiro, fevereiro e março de 2020 foram emitidos alertas para 796,08 km² da Amazônia, aumento de 51,45% em relação ao mesmo perÃodo de 2019, quando houve alerta para 525,63 km².
8 â Bombardeio ao Fundo Amazônia â Constrangimento, foi o que Ricardo Salles provocou ao convocar uma entrevista coletiva para criticar o modelo de gestão do Fundo Amazônia, que existe há mais de 10 anos, já beneficiou milhares de pessoas e é fundamental para a preservação da Amazônia. O Fundo é gerenciado pelo BNDES e cerca de 95% dos seus recursos, que somam mais de R$ 3 bilhões, vêm da Noruega e da Alemanha. Os dois paÃses não concordaram com as mudanças propostas pelo governo, disseram que o Brasil não vinha se esforçando para conter a subida do desmatamento, o crescimento das queimadas e decidiram interromper o fornecimento de recursos. Bolsonaro tem repetido que o governo está sem dinheiro e que os ministros fazem milagres, no entanto, recusou a ajuda dos paÃses do G7 e fez tudo para inviabilizar o Fundo Amazônia.
9 â Acusações sem provas contra as ONGs â Ao ser questionado sobre o crescimento das queimadas na Amazônia, o presidente Jair Bolsonaro respondeu: “O crime existe e nós temos que fazer o possÃvel para que não aumente, mas nós tiramos dinheiro de ONGs, repasses de fora, 40% ia para ONGs, não tem mais. De modo que esse pessoal está sentindo a falta de dinheiro. Pode estar havendo, não estou afirmando, a ação criminosa desses ‘ongueiros’ para chamar a atenção contra minha pessoa contra o governo do Brasil”. Prova? Nenhuma.
10 â Contrabando de madeira â Em maio deste ano, Salles e o presidente do Ibama, Eduardo Bim, foram alvos de uma operação que investigava a exportação ilegal de madeira para Estados Unidos e Europa. O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a quebra dos sigilos bancário e fiscal de Salles e o afastamento preventivo de Bim do comando do Ibama e o de outros nove agentes públicos que ocupavam cargos e funções de confiança nos órgãos. âOs depoimentos, os documentos e os dados coligidos sinalizam, em tese, para a existência de grave esquema de facilitação ao contrabando de produtos florestais, o qual teria o envolvimento de autoridade com prerrogativa de foro nessa Suprema Corte, no caso, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo de Aquino Salles; além de servidores públicos e de pessoas jurÃdicasâ, afirmou Moraes em sua decisão.
Na reunião ministerial de abril, Ricardo Salles ressaltou ainda que as mudanças pretendidas não precisavam ser editadas em formato de projeto de lei, evitando, assim, que passassem pelo Poder Legislativo: âNão precisamos de Congresso, porque coisa que precisa de Congresso também, nesse fuzuê que está aÃ, nós não vamos conseguir aprovar. Agora, tem um monte de coisa que é só parecer e canetaâ. Sem dúvida, o pior ministro do Meio Ambiente da história do Brasil. Em seu lugar, entra Joaquim Pereira Leite, secretário da Amazônia e Serviços Ambientais. Leite é próximo a Salles e, tudo indica, deve manter a boiada passando. Não custa lembrar, no entanto, que o comandante da destruição ambiental no paÃs segue no comando. E coerente com suas convicções. Nos primeiros dias do governo, o recém-eleito Jair Bolsonaro já prometia acabar com a pasta do Meio Ambiente. Não acabou, mas tem se esforçado bastante.
