Grupo de guerreiros excepcionais, os Lanceiros Negros lutaram em busca da liberdade na Revolução Farroupilha, revolta gaúcha contra o Império do Brasil, mas foram traÃdos e mortos no âMassacre dos Porongosâ, em 1844. Em janeiro de 2024, 180 anos depois, uma lei sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva reconheceu os Lanceiros Negros no Livro dos Heróis e HeroÃnas da Pátria. Durante muitos anos, a história oficial da guerra civil mais longa da história do paÃs manteve em silêncio a participação e o protagonismo dos soldados, negros escravizados em sua maioria, que compunham a vanguarda das tropas farroupilhas.
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A Revolução Farroupilha, também conhecida como Revolta dos Farrapos, teve inÃcio em 1835, a partir da indignação de elites do Rio Grande do Sul com os altos impostos e com a preferência dada pelo Império do Brasil para a compra do charque (carne salgada e seca ao sol) estrangeiro, em detrimento do que era produzido no estado. Para poder fazer frente à s tropas imperiais, as elites republicanas gaúchas, que deflagraram o movimento, recrutaram negros escravizados para lutar com a promessa de liberdade após o final do conflito.
Tardou, mas já é um reconhecimento da verdadeira história do povo negro
De acordo com o professor João Heitor Silva Macedo, doutor em História pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), a busca pela liberdade levou os Lanceiros Negros a lutar de forma ávida e serem temidos pelos adversários. âIsso fez com que os lanceiros negros tivessem um destaque bélico muito importante, pois, dentro desse contexto de Revolução Farroupilha, eram a vanguarda do exército. Eram eles que vinham na frente e que conseguiam as principais vitóriasâ, destaca João Heitor, também arqueólogo e pesquisador de relações étnico-raciais do Clube Social Negro Três de Maio, em Santa Maria.
O contingente de Lanceiros Negros começou com 30 membros, variando no final entre 120 e 200 soldados. Embora adotassem ideais republicanos, as elites sul-riograndenses também eram escravocratas e dependiam da manutenção do regime no Brasil. Ao final da guerra, os lÃderes farroupilhas foram ao Rio de Janeiro tratar do que fazer com os guerreiros negros, a decisão foi entregar o grupo à s tropas imperiais. Com isso, na madrugada do dia 14 de novembro de 1844, cerca de 100 negros foram emboscados e assassinados no episódio que ficou conhecido como âMassacre dos Porongosâ.
Muitos membros dos Lanceiros Negros, sobreviventes da chacina, foram novamente escravizados. âO acordo era libertar os negros, mas por que não foram libertos? Porque estava em jogo a questão dos escravos no Brasil. Se libertassem aqueles negros, duas centenas de negros, isso seria como um pavio de pólvora em todo o Brasil, exigindo-se a libertação de todos os negros. E os escravocratas da época, entendendo isso, não concordaramâ, afirmou o senador Paulo Paim (PT), relator do projeto que reconheceu os guerreiros como heróis nacionais, em discurso no plenário do Senado.
Escritor, jornalista e advogado, Antônio Carlos Côrtes, um dos principais nomes do movimento negro no Rio Grande do Sul, acredita que o reconhecimento dos Lanceiros negros é um caminho para a “terceira abolição” no paÃs. âA primeira abolição de direito foi em 13 de maio de 1888, mas de fato negros continuaram escravizados e jogados na rua da amargura. A segunda veio com leis que deveriam assegurar penalmente sua cidadania, aduzo com polÃticas afirmativas. A terceira será quando o capitalismo existir de fato diminuindo a desigualdade social e o trabalho escravo em VinÃcolas e outras atividades no interior do Brasil não mais existirâ, explica Côrtes, que foi presidente da Sociedade Beneficente Floresta Aurora â clube negro mais antigo do paÃs, localizado em Porto Alegre – e, em 2023 se tornou o terceiro negro a chegar à Academia Rio-Grandense de Letras.
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Veja o que já enviamosEm seu livro âAlma do Carnaval no Espelho: Pesquisa PsicanalÃticaâ, Antônio Carlos escreve sobre o protagonismo dos Lanceiros Negros e a luta pela preservação dessas história também através da arte. Sobre a lei aprovada pelo Senado e sancionada por Lula, o escritor e advogado é categórico: âTardou, mas já é um reconhecimento da verdadeira história do povo negroâ, afirma o escritor, de 75 anos, mais de 60 com atuação em favor do povo negro brasileiro, principalmente no combate ao trabalho análogo à escravidão em vinÃcolas do Rio Grande do Sul.
Apagamento e silenciamento da presença negra
âEu me formei em uma licenciatura em História e nunca tive nenhuma formação que falasse sobre a presença negra no Rio Grande do Sulâ, afirma João Heitor. O depoimento do professor e pesquisador não é algo exclusivo. A história dos lanceiros negros e da própria presença de pessoas pretas no Rio Grande do Sul foi durante muito anos silenciada. âExistia até um mito, que vigorou durante mais de um século, que praticamente não existia negros no estado, ou que a escravidão no Rio Grande do Sul tinha sido brancaâ. Segundo João Heitor, isso começou a mudar a partir de pesquisas nos anos 80 e, principalmente, depois da aprovação da lei 10.639 de 2003, que regulamentou o ensino da história e cultura africana nas escolas do paÃs e consequentemente do Rio Grande do Sul.
Nós passamos por uma história do Rio Grande do Sul que durante mais de um século silenciou a presença negra. Manteve mitos de desigualdade e de discriminação e, a partir desse momento que os Lanceiros Negros são reconhecidos, eu acho que tem outras coisas que devem ser reconhecidas no Rio Grande do Sul
âNão lembro de ter ouvido sobre os Lanceiros Negros na escolaâ, relembra o policial penal Kirion Lopes Martins. Formado em Geografia, ele é o idealizador do Movimento Black RS, perfil no Instagram criado com o objetivo de desconstruir o racismo. âResgatar a história é fundamental para que possamos ressignificar os nossos sÃmbolos. Quem são os heróis do Brasil? A escola ensinava de uma forma. Homens e mulheres negras tiveram protagonismo na construção da história desse paÃsâ, acrescenta Kirion.
Na visão de Kirion, é necessário que a geração atual continue enfrentando o racismo e o apagamento da ancestralidade dos povos afro-brasileiros e indÃgenas do Rio Grande do Sul. âEstamos em um perÃodo de ressignificação da nossa história. Aqui no sul, os Movimentos de Tradições Gaúchas por muitos anos contaram a história do estado inivisibilizando o negro e os indÃgenasâ. Durante todos os anos no estado, as celebrações do aniversário da Revolução Farroupilha reúnem diversas pessoas em desfiles e bailes durante a semana que antecede o dia 20 de setembro.
Apenas recentemente a lembrança dos Lanceiros Negros começou a fazer parte dessas celebrações, o que tem refletido numa mudança de postura do próprio Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG). âNos eventos como o Enarte ou nos festivais de dança farroupilha, a gente já tem visto, nos últimos anos, sempre a presença dos lanceiros negros e uma homenagem à questão de porongosâ, explica João Heitor. Agora, com o reconhecimento no Panteão dos Heróis e HeroÃnas Nacionais, o pesquisador acredita que essa história possa se espalhar e ajude a quebrar uma visão de que o Rio Grande do Sul é a Europa do Brasil.
Fotógrafo e videomaker, Jaderson Peixoto Correa, 39 anos, conheceu a história do Massacre de Porongos através da música âManifesto Porongosâ, do rapper Rafael Rafuagi. Nascido e criado no Passo das Pedras, na zona norte de Porto Alegre, Jader Pxoto, como é conhecido, resolveu criar um projeto fotográfico para resgatar a história dos Lanceiros Negros e difundÃ-la.
Através da iniciativa, Jader divulga a história dos guerreiros em escolas e cobra por mais espaço para estes heróis nas lembranças das celebrações farroupilhas. âVisitei algumas escolas com o projeto fotográfico neste perÃodo de 2019 a 2023. Reparei um movimento de professores para que esta história seja contada, além dos costumes tradicionaisâ. De acordo com o fotógrafo, a educação é o principal caminho para combater a invisibilidade que ainda existe sobre o papel dos Lanceiros Negros na história do RS.
Caminho para o reconhecimento da cultura afro-gaúcha
O professor e pesquisador João Heitor destaca que âcom esse reconhecimento que vem a partir dos Lanceiros Negros, várias portas estão se abrindo para outros capÃtulos da história do Rio Grande do Sulâ. Entre os exemplos da riqueza da cultura negra no estado, o arqueólogo cita as comunidades quilombolas, os Clubes Sociais Negros e o âsopapoâ, instrumento de percussão de origem africana tÃpico da cultura afro-gaúcha. âNós passamos por uma história do Rio Grande do Sul que durante mais de um século silenciou a presença negra. Manteve mitos de desigualdade e de discriminação e, a partir desse momento que os Lanceiros Negros são reconhecidos, eu acho que tem outras coisas que devem ser reconhecidas no Rio Grande do Sulâ, complementa João Heitor.
Kirion Lopes tem opinião semelhante, para ele, as iniciativas de ensino da cultura africana ainda são exceções nos ambientes escolares do estado, mas podem servir para aproximar os mais jovens dessa história. âEsse reconhecimento é importante para que a população negra olhe para o passado com orgulho dos seus ancestrais, que lutaram pela liberdade. E foi por conta deles (Lanceiros Negros) terem resistido que nós tivemos a chance de existirâ, ressalta o policial penal e ativista do movimento negro.
Jader Pxoto acrescenta a esse papel das escolas, a força da cultura e da arte, seja nas celebrações farroupilhas, no carnaval ou em outros locais. âAtravés de diversas artes culturais, mencionamos está traição, exaltando a bravura de quem lutou pra libertar seu povo e famÃlia da escravidãoâ. Segundo o fotógrafo, os Lanceiros Negros devem servir como uma inspiração diária e como exemplos de resistência diante das desigualdades. Não por acaso uma das principais frases utilizadas pelo movimento negro gaúcho e citada por Jader é: âEles combinaram de nos matar. Nós de não morrer”.
