Elas sempre estiveram na resistência. Ana, Esperança, Inês são alguns dos nomes de mulheres indÃgenas que, no século 18, foram à luta contra a escravidão na cidade de São LuÃs. Já naquela época, denunciavam o cativeiro a que estavam submetidas na capitania do Maranhão. Depois vieram Carmelita Tuxá, Tuyra, Hilda e tantas outras indÃgenas que romperam e continuam derrubando barreiras, enfrentando estereótipos, confrontando o machismo estrutural dentro e fora das aldeias.
O mapeamento poderá contribuir com o fortalecimento das redes de mulheres, indicando possÃveis caminhos de articulação polÃtica e ação
O protagonismo feminino vem sendo contabilizado em números e o Mapa das Organizações das Mulheres IndÃgenas no Brasil 2024 mostrou que o crescimento é expressivo, o movimento de organização feminina se interiorizou e está espalhado por todo o paÃs. Ao todo, 241 organizações de mulheres indÃgenas: 174 locais, 48 regionais, 14 estaduais e cinco nacionais. Elas estão agrupadas em coletivos, movimentos, departamentos e outros tipos de organizações. Ao menos, 233 povos indÃgenas têm organizações de mulheres.
Leu essa? https://projetocolabora.com.br/ods5/mulheres-indigenas-guardias-guerreiras-ancestrais-e-lideres/
O Coletivo de Mulheres Fág Jãre Fag é a caçula das organizações de indÃgenas mapeadas no levantamento. Nasceu justamente após as enchentes no Rio Grande do Sul, em maio deste ano. As organizações veteranas surgiram nos anos 1980, quando começaram a pipocar os primeiros grupos criados por mulheres indÃgenas e muitos deles como resultado de assembleias indÃgenas e outros processos de mobilização de décadas anteriores.
Gostando do conteúdo? Nossas notÃcias também podem chegar no seu e-mail.
Veja o que já enviamosà medida que a mobilização das mulheres indÃgenas foi crescendo, ganhando corpo e conquistando visibilidade foi mudando, paralelamente, a cara do movimento indÃgena, que inicialmente fora protagonizado por homens. Hoje, mulheres indÃgenas transitam no mundo institucional da polÃtica, ocupando cargos importantes como a ministra Sonia Guajajara, no Ministério dos Povos IndÃgenas, e Joênia Wapichana, na Fundação Nacional dos Povos IndÃgenas (Funai).
âTodos os estados brasileiros têm um número expressivo de organizações de mulheres indÃgenasâ, comemora Lucimara Patté, do povo Xokleng, cofundadora da Articulação Nacional das Mulheres IndÃgenas Guerreiras da Ancestralidade (Anmiga). O mapeamento constatou, por exemplo, que nos Xokleng existem quatro diferentes organizações de mulheres â uma realidade que está espalhada pelo paÃs, onde se encontra grupos de indÃgenas LGBT+, escritoras, esportistas, artesãs, ceramistas, brigadistas, jornalistas.
Crescimento nas bases
Em 2019, esse movimento já se fazia notar. Em abril, mais de 500 mulheres conquistaram, pela primeira vez, uma plenária exclusiva no Acampamento Terra Livre (ATL). Em agosto do mesmo ano, elas colocaram na rua a 1ª Marcha das Mulheres IndÃgenas. Na esteira dessa mobilização, foi lançada a 1ª edição do Mapa das Organizações de Mulheres IndÃgenas, em fevereiro de 2020. Em 2021, as mulheres bioma fundaram a Anmiga, que articula nacionalmente mulheres indÃgenas e suas organizações.
O primeiro mapa foi lançado em 2020 e, à época, levantou-se 85 organizações de mulheres indÃgenas e sete organizações indÃgenas que possuem departamentos de mulheres, num total de 92 organizações espalhadas por 21 estados do paÃs. Quatro anos depois, foi registrado um crescimento no número de organizações da ordem de duas vezes e meia. A cerimônia de lançamento do mapa foi na primeira das sete etapas da Conferência das Mulheres IndÃgenas 2024/ 2025, que foi acolhida pela assembleia das mulheres Kaiowá e Guarani, na última semana de novembro, no Mato Grosso do Sul.
Por mais que as mulheres estejam organizadas, ainda sofremos muito com a tentativa de invisibilizar as nossas lutas
âO mapeamento poderá contribuir com o fortalecimento das redes de mulheres, indicando possÃveis caminhos de articulação polÃtica e açãoâ, analisa Luma Prado, pesquisadora do Instituto Socioambiental (ISA), uma das organizadoras da publicação, feita em parceria com a Anmiga. Outra função do mapa, explica, é servir como uma espécie de ferramenta para identificação de zonas de concentração de organizações e possÃveis lacunas do associativismo de mulheres indÃgenas.
A defesa do território, como fazem as Guerreiras da Floresta (ou Tenetehar Kuzá Gwer Wá na lÃngua guajajara), uma articulação de Guardiães da Floresta, luta pela proteção da Terra IndÃgena Araribóia (MA). Outras pautas são o enfrentamento à s violências contra as mulheres, a valorização da alimentação tradicional e de seus modos de vida, além de saúde e educação diferenciadas. Invisibilizadas e silenciadas das lutas por liberdade, autonomia, direitos e conquistas territoriais fazem parte do passado. As lideranças femininas indÃgenas querem ter voz dentro e fora dos territórios.
Enfrentar o machismo estrutural é uma batalha diária. âAinda é muito difÃcil sermos convidadas para participar dos encontrosâ, conta Patté, comentando que romper a desigualdade de gênero nos espaços de poder, dentro e fora da aldeia, só mesmo com muita cobrança. âPor mais que as mulheres estejam organizadas, ainda sofremos muito com a tentativa de invisibilizar as nossas lutasâ, pontua.
Em março de 2025, o movimento vai realizar a 1ª Conferência das Mulheres IndÃgenas, depois da realização das sete etapas previstas para ocorrer até a data do encontro, entre os dias 6 e 10 de março. Paralelamente a conferência, vai ocorrer a 4ª Marcha das Mulheres IndÃgenas, que vai ocorrer no dia 8 de Março. A expectativa de Prado é que numa próxima atualização do mapa, se o associativismo das mulheres mantiver esse ritmo de crescimento, será necessário fazer um atlas, porque o mapa não será suficiente.
