O Brasil registrou, em 2020, 182 assassinatos de indÃgenas, número 61% maior do que em 2019, quando foram 113 casos de homicÃdio. O Ãndice de violência contra a vida é apenas um dos que mostram o ano trágico para os povos originários sob o governo Bolsonaro revelado pelo relatório ‘Violência Contra os Povos IndÃgenas do Brasil â dados de 2020’, publicado anualmente pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi). “São informações que trazem tristeza e vergonha para o nosso paÃs”, lamentou o presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Walmor Oliveira de Azevedo, no evento virtual de lançamento do relatório.
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Os estados com o maior número de assassinatos de indÃgenas, segundo os dados da Secretaria Especial de Saúde IndÃgena (Sesai) e das secretarias estaduais de saúde, foram Roraima (66), Amazonas (41) e Mato Grosso do Sul (34). O Cimi destaca dois casos com envolvimento de policiais: o Massacre dos Abacaxis, conflito causado por turistas que ingressaram ilegalmente no território de indÃgenas e ribeirinhos – na região dos rios Abacaxis e Marimar, no Amazonas – que teve como consequência uma ação da PM com a morte de dois indÃgenas do povo Munduruku e de pelo menos quatro ribeirinhos; e a morte de quatro indÃgenas do povo Chiquitano, que estavam caçando perto de sua aldeia, por policiais do Grupo Especial de Fronteira (Gefron) de Mato Grosso.
[g1_quote author_name=”Dário Kopenawa Yanomami ” author_description=”Dirigente da Hutukara Associação Yanomami” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Estamos vivendo uma situação muito grave. Hoje, estamos ameaçados de morte, a terra está ameaçada, toda a comunidade Yanomami está ameaçada. A violência estão crescendo, fora de controle. Até os garimpeiros estão brigando entre eles e se matando dentro da Terra Yanomami
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Veja o que já enviamosAlém dos 182 homicÃdios, o relatório aponta outros crimes no capÃtulo de violência contra a pessoa: 16 casos de homicÃdio culposo, 14 de abuso de poder, 13 tentativas de assassinato, 17 ameaça de morte, 34 ameaças várias, oito casos de lesão corporal dolosa, 15 de racismo e discriminação étnico cultural e cinco de violência sexual. “Não podemos ser um paÃs que fique indiferente a violência mostrada no relatório. A democracia só vai ser consolidada no paÃs quando houver proteção à vida, respeito e verdade nas informações”, disse dom Joel Portella, secretário-geral da CNBB.
O relatório destaca ainda tipos de violência contra o patrimônio indÃgena. Os casos de âinvasões possessórias, exploração ilegal de recursos e danos ao patrimônioâ subiram em relação ao número – já alarmante – que havia sido registrado no primeiro ano do governo Bolsonaro. Foram 263 casos do tipo registrados em 2020 â um pequeno acréscimo em relação a 2019, quando foram contabilizados 256 casos, mas um aumento de 137% em relação a 2018, quando haviam sido identificados 111 casos.
Foi o quinto aumento consecutivo registrado nos casos do invasões e explorações ilegais, que, em 2020, atingiram pelo menos 201 terras indÃgenas, de 145 povos, em 19 estados. “A grave crise sanitária provocada pela pandemia do coronavÃrus não impediu que grileiros, garimpeiros, madeireiros e outros invasores intensificassem ainda mais suas investidas sobre as terras indÃgenas, estimuladas pelo próprio governo”, afirmou o presidente do Cimi e arcebispo de Porto Velho, dom Roque Paloschi.
Dom Roque lembrou a célebre frase do ex-ministro Ricardo Salles – sugerindo “passar a boiada” para desregulamentar a proteção das áreas de conservação, inclusive dos indÃgenas – para destacar os ataques do governo aos indÃgenas. “à terrÃvel que lideranças do Executivo disseminem um discurso de ódio e preconceitos contra os povos originários. Tornaram-se rotina as agressões à vida, ao ambiente e aos territórios indÃgenas”, disse o presidente do Cimi.
[g1_quote author_name=”Antonio Eduardo de Oliveira” author_description=”Secretário-Geral do Cimi” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Infelizmente temos que dizer que o governo é a principal causa dessa dor, dessas violências contra os povos indÃgenas
[/g1_quote]Dirigente da Hutukara Associação Yanomami, Dário Kopenawa Yanomami também participou do lançamento virtual para denunciar a grave situação da terra indÃgena de Roraima, onde, calcula-se, está ocupada por 20 mil garimpeiros. “Estamos vivendo uma situação muito grave. Fizemos muitas denúncias e encaminhamos para autoridades. Hoje, estamos ameaçados de morte, a terra está ameaçada, toda a comunidade Yanomami está ameaçada. A violência estão crescendo, fora de controle. Até os garimpeiros estão brigando entre eles e se matando dentro da Terra Yanomami”, afirmou.
O relatório destaca ainda outro tipo de violência contra o patrimônio: os âconflitos relativos a direitos territoriaisâ mais do que dobraram em 202o, em relação ao ano anterior: foram 96 casos, 174% a mais do que os 35 identificados em 2019. O secretário executivo do Cimi, Antônio Eduardo de Oliveira, frisou as dificuldades enfrentadas pelos indÃgenas em 2020, listando o Projeto de Lei (PL) 191 – apresentado pelo governo Bolsonaro ao Congresso em fevereiro prevendo a abertura das terras indÃgenas para a mineração, a exploração de gás e petróleo e a construção de hidrelétricas – e a Instrução Normativa (IN) 09, publicada pela Fundação Nacional do Ãndio (Funai), em abril, que permite a certificação de propriedades privadas sobre terras indÃgenas não homologadas. “Infelizmente temos que dizer que o governo é a principal causa dessa dor, dessas violências contra os povos indÃgenas”, apontou Antonio Eduardo.
O trabalho do Cimi relativo a 2020 contém ainda um capÃtulo sobre âviolência por omissão do poder públicoâ que ficou em patamar pouco abaixo de 2019, quando houve uma disparada de casos em relação a 2018. Com base na Lei de Acesso à Informação (LAI), o Cimi também obteve da Sesai dados parciais de suicÃdio e mortalidade na infância indÃgena. Em 2020, foram registrados 110 suicÃdios de indÃgenas em todo o paÃs – foram 133 em 2019, 101 em 2018. Foram registrados ainda 776 óbitos de crianças de 0 a 5 anos em 2020; no ano anterior, o total foi de 825; em 2018, foram 526 mortes.
A professora Ernestina Macuxi, liderança IndÃgena, da comunidade Willimon, da Terra IndÃgena Raposa Serra do Sol afirmou que todos os povos indÃgenas vem sofrendo demais com o governo Bolsonaro e o sofrimento foi agravado pela disseminação do coronavÃrus. “Em meio à pandemia, aumentaram muito as invasões e os casos de violência contra os povos indÃgenas e o meio ambiente”, disse Ernestina. “Tudo que está no relatório é verdade. Nós estamos pedindo socorro”, acrescentou.
O relatório também reúne três artigos sobre os impactos da pandemia entre os povos indÃgenas e também os dados sobre mortes de casos de covid-19 nas comunidades. O relatório aponta que faltou apoio para a instalação de barreiras sanitárias e houve interrupção no fornecimento de cestas básicas e de materiais de higiene necessários para garantir condições básicas de prevenção contra a Covid-19 nos territórios indÃgenas. De acordo com dados da Apib (Associação dos Povos IndÃgenas do Brasil), morreram pela covid-19 1.223 indÃgenas: houve mais de 60 mil casos que afetaram 162 povos no paÃs.
