Dados do Instituto Fogo Cruzado mostram que o queima-queima promovido por milicianos na Zona Oeste do Rio de Janeiro nesta segunda-feira (23/10) é a consequência pirotécnica da escalada da violência armada na Zona Oeste do municÃpio do Rio de Janeiro em 2023. O levantamento da entidade aponta que o número de mortos a tiros mais do que dobrou (127%) de 2022 para 2023. De janeiro a outubro deste ano foram 248 mortos, contra 109 no mesmo perÃodo de 2022.
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O número de tiroteios aumentou (55%): foram 475 tiroteios de janeiro a outubro de 2022, e 737 de janeiro a outubro de 2023. De acordo com os dados do Fogo Cruzado, instituto que usa tecnologia para produzir e divulgar dados abertos e colaborativos sobre violência armada, a ocorrência de chacinas também disparou. Foram quatro casos de chacinas entre janeiro e outubro de 2022 â elas deixaram 12 mortos. No mesmo perÃodo de 2023, foram oito casos, com 50 mortos. As chacinas policiais explodiram: houve apenas uma chacina em 2022, com três mortos. Já este ano foram oito chacinas policiais, com 28 mortos.
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Veja o que já enviamosTem disputa de milÃcia contra milÃcia e do tráfico contra as milÃcias. Agora, traficantes estão cobrando taxas e milicianos estão traficando, ou seja, eles estão com atividades ainda mais abrangentes
Na segunda-feira, a morte por policiais civis do miliciano Matheus da Silva Resende, considerado o segundo na hierarquia da milÃcia na zona oeste e sobrinho de LuÃs Antônio da Silva Braga, o Zinho, apontado como chefe da maior milÃcia do estado, desencadeou uma série de atentados na Zona Oeste da cidade, área com maior controle dessas entidades paramilitares: mais de 35 ônibus foram queimados, além de terem sido registrados ataques a estações do BRTs e da linha férrea. Diretora-executiva do Instituto Fogo Cruzado, a jornalista CecÃlia Olliveira disse que os atentados não podem ser vistos como surpresa. “O Rio está sendo disputado palmo a palmo desde a morte do miliciano Ecko, em 2021. O irmão, Zinho, disputa com Tandera, ex-comparsa, o espólio da milÃcia. O Comando Vermelho viu nesse racha uma oportunidade”, escreveu no Twitter.
Em entrevista à CBN, a diretora do Fogo Cruzado lembrou que, desde então, o conflito se acirrou na Zona Oeste como mostram os dados do instituto. “Tem disputa de milÃcia contra milÃcia e do tráfico contra as milÃcias. Agora, traficantes estão cobrando taxas e milicianos estão traficando, ou seja, eles estão com atividades ainda mais abrangentes”, explicou, lembrando que áreas dominadas pelas milÃcias cresceram 387% em 16 anos, de acordo com levantamento do Fogo Cruzado e do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos, da Universidade Federal Fluminense (Geni-UFF).
Já tivemos intervenção federal, ação da força nacional, ocupação militar, tudo isso – mas sem um planejamento especÃfico e ignorando pontos importantes, que, é de fato, o combate à corrupção. Não adianta a gente ignorar que a corrupção que cria as milÃcias vem de dentro do estado
CecÃlia Olliveira, pós-graduada em Criminalidade e Segurança Pública pela UFMG, disse que não ter expectativas de que a situação melhore: “Cláudio Castro é um governador absolutamente ilustrativo. Ele está fragilizado, sua base aliada está rachadÃssima. Quem realmente está tomando decisões sobre a segurança pública é a Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro). A gente tem essa questão muito central, porque o Castro escolheu um secretário de PolÃcia Civil que não durou três semanas no cargo. Isso que o Castro vem falando são apenas frases soltas, bravatas de quem não tem nenhuma gerência sobre a segurança pública no Rio”, afirmou durante a entrevista à CBN
Diante do queima-queima promovido pelos milicianos, o governador Cláudio Castro prometeu mais policiamento e inteligência e defendeu endurecimento de penas, em entrevista na manhã de ontem. Ele admitiu que a polÃcia foi surpreendida porque “a reação dos criminosos foi fora do padrão”. O governador pediu um esforço conjunto contra o crime. âEssas armas e drogas não estão sendo produzidas aqui. Estão entrando pelas estradas federais, por portos e aeroportos. Só com integração a gente consegue resolverâ, afirmou.
Sobre a atuação de órgãos nacionais no Rio, CecÃlia Olliveira afirmou que neste momento só será possÃvel âamenizarâ a situação, já que não houve ações de combate à s raÃzes do problema. “A segurança pública no Rio de Janeiro é tratada com negacionismo. A gente não chegou até aqui à toa. A atuação não pode ser cosmética, pontual. à preciso planejamento. Já tivemos intervenção federal, ação da força nacional, ocupação militar, tudo isso – mas sem um planejamento especÃfico e ignorando pontos importantes, que, é de fato, o combate à corrupção. Não adianta a gente ignorar que a corrupção que cria as milÃcias vem de dentro do estado”, afirmou a diretora do Fogo Cruzado.
Território de milicianos e traficantes
O estudo Novo Mapa dos Grupos Armados, divulgado em setembro, mostrou que as áreas de influência das milÃcias na Região Metropolitana do Rio de Janeiro se expandiram de tal modo que, das áreas dominadas por algum grupo armado no Grande Rio, metade está nas mãos das milÃcias (49,9%). Até 2008, milicianos ocupavam 23,7% dessas áreas. A área da Região Metropolitana do Rio de Janeiro controlada por grupos armados cresceu 131%, mas as milÃcias hoje dominam território maior do que as facções do tráfico de drogas.
De acordo com o Mapa dos Conflitos Armados, na Capital, a evolução dos domÃnios dos diferentes grupos armados difere da observada na Baixada (disputa entre duas facções de traficantes e as milÃcias) e no Leste Metropolitano (hegemonia do Comando Vermelho). No municÃpio do Rio, as milÃcias assumiram a primeira posição como maior grupo armado e nunca mais deixaram de ser hegemônicos. As milÃcias controlam 74,2% das áreas ocupadas por grupos armados na capital; 29,8% da cidade do Rio de Janeiro hoje é dominada por algum grupo armado; 3 em cada 4 áreas controladas por criminosos no municÃpio está sob o domÃnio da milÃcia.
O levantamento do Fogo Cruzado e do Geni/UFF, a hegemonia das milÃcias na capital concentra-se quase que exclusivamente na Zona Oeste da cidade, conhecido reduto das milÃcias. A Zona Norte aparece em segundo lugar em importância para as milÃcias na capital, e é também a sub-região onde, em quase toda a série histórica, as milÃcias aparecem como a segunda força com mais espaços dominados. Por sua vez, na Zona Sul e no Centro, as áreas dominadas são muito pouco expressivas e tendem a zero.
