“Para que preciso de um milhão de dólares? Eu e minha famÃlia temos educação e saúde gratuita a vida toda, não precisamos juntar dinheiro”. Com orgulhosa simplicidade, Tony, engenheiro de 70 anos, decifra a lógica anticapitalista de Cuba, em defesa empolgada do regime instalado desde a revolução que viu eclodir ainda criança, em Havana. Mas o tempo passou – e ele e a mulher, Mary, alugam para turistas um quarto da casa confortável numa rua de calçamento precário de El Vedado, bairro da capital. à preciso aumentar a renda.
“O que adianta ser arquiteto formado e precisar trabalhar como motorista profissional para turistas?”, questiona MartÃn, pouco mais de 30 anos, enquanto toureia um Lada que ameaça se desfazer em plena via, e só consegue parar com o reforço do freio de mão. âNão usamos o que aprendemos na universidade, porque o mercado paga muito pouco, ou não existeâ, resume, enquanto busca… aumentar a renda.
O motorista/arquiteto acalenta sonhos modestos. âQuero entrar no Facebook, mas aqui não podeâ, lamenta, referindo-se à rede social dominante no mundo além das fronteiras da ilha, naquele inÃcio de 2017. Por lá, a internet era precária e carÃssima. Um voucher com alguns minutos de conexão ficava no fim de fila morosa em poucas lojas â e depois ainda precisava achar o ponto onde houvesse sinal.
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Veja o que já enviamosA cruzada produzia cenas ridÃculas em algumas poucas praças de Havana: várias pessoas vagando com o celular diante do rosto, na busca por firmar a conexão. Mas a navegação se limitava a poucos sites â entrar nas redes sociais sonhadas por MartÃn era virtualmente impossÃvel.
A Cuba de Toni estava bem ali do lado, na ausência da miséria obscena, que grassa pelas grandes cidades brasileiras (e de diversos paÃses do mundo capitalista). Tampouco se via crianças nas ruas, a não ser uniformizadas, em ordeiro ir e vir da escola.
Outro aspecto caro aos brasileiros é a inexistência de violência urbana. Os turistas circulam por qualquer lugar, dia e noite, sem ameaça visÃvel, numa lição que desconecta pobreza de marginalidade.
As histórias heroicas da revolução e o corajoso enfrentamento à crueldade do bloqueio econômico americano estão tatuados na paisagem de cidades e estradas. Mas frases de Fidel, retratos de Camilo Cienfuegos, bordões, pensamentos e imagens do maior Ãcone de todos, Che Guevara, são quadros cada vez mais amarelados, pregados em parede exposta à incessante corrosão do tempo.
O pensamento se alimenta da pressa tÃpica de jovens como MartÃn, o arquiteto/motorista: de que adiantam saúde, educação, estrutura social, se não há como usar, se o mundo lá fora segue proibido? A censura e o bloqueio digital não vedam o paÃs das notÃcias externas. E as possibilidades criadas pela tecnologia atiçam a cobiça de quem planeja outras construções de vida. Cuba, hoje, oferece muito pouco, quase nada.
A abertura para o turismo fincou resorts em balneários como Varadero, Rio de Oro, Cayo Coco. Bandeiras internacionais â europeias, quase todas â se sucedem num cenário tão luxuoso como artificial. As espetaculares praias caribenhas ganham serviço opulento para os hóspedes, em viagens caras (preços regulam temporadas na Europa ou nos EUA), mas basta conversar com garçom ou camareira para desvendar a pobreza que assola o povo.
Em cidades como Matanzas, a precariedade se apresenta explÃcita nas prateleiras de mercados com espaço de sobra entre poucos produtos. O atendimento aos turistas é gentil, mas envergonhado, porque a principal atração continua sendo o âlugar parado no tempoâ, dos carros antigos que ainda funcionam, das notas com a cara do Che, do romantismo com a utopia da revolução. Faz cada vez menos sentido para os jovens.
São eles que estão nas ruas agora, desafiando a repressão do governo antidemocrático, fragilizado pela crise do turismo com a pandemia e a explosão tardia da covid-19. No inÃcio, Cuba conseguiu controlar a ameaça sanitária, mas agora casos e mortes começam a se multiplicar, e o paÃs hoje está entre os piores da América Latina, nas contas proporcionais à população. Ainda paira a suspeita de subnotificação, devido à pesada censura vigente.
A consequência econômica do isolamento deu tons apocalÃpticos ao cenário de dureza que perdura desde o desmantelamento do bloco comunista. A abertura cautelosa, implementada pelo governo de Miguel DÃaz-Canel, turbinou a inflação e acentuou a pobreza. “Não há comida, não há remédio, não há liberdade. O governo não nos deixa viver. Já estamos cansados”, resumiu, por telefone, um cubano chamado Alejandro, à BBC News Mundo, serviço de notÃcias da BBC em espanhol. Ele participou do protesto em Pinar del RÃo, provÃncia que aderiu à revolta iniciada em San Antonio de los Baños, a sudoeste de Havana. A comunicação entre os rebelados se dá pelas redes sociais, mais acessadas pela mesma flexibilização adotada na economia.
A princÃpio pacÃficas, as aglomerações provocaram reação da polÃcia, que prendeu manifestantes e tentou dispersar grupos mais numerosos. Em vÃdeo postado em rede social – descreve o DW.com -, é possÃvel ver uma mulher gritar que “o povo está morrendo de fome”. Outro exibe manifestantes virando um carro da polÃcia em Cardenas, a cem quilômetros de Havana. Na capital, aliás, houve confrontos entre opositores e militantes do governo, no Parque da Fraternidade, que reuniu mais de mil pessoas. Muitas foram presas.
Um grupo conseguiu escapar do cerco e avançar pela avenida Paseo del Prado, uma das principais da cidade, em direção ao Malecón (cartão postal cubano), aos gritos de “liberdade”, “pátria e vida” e “ditadores”. De outro lado, grupos organizados de apoiadores do governo respondiam com “Eu sou Fidel” ou “Canel, meu amigo, o povo está contigo”, em alusão ao presidente Miguel DÃaz-Canel.
Manifestações contra e a favor do governo revolucionário repetiram-se em vários paÃses, da Venezuela a Miami, da República Dominicana à Espanha, do México a Colômbia. Miguel Diaz-Canel tenta sufocar a insatisfação com discurso vencido para um paÃs ainda sob censura. Convocou os ârevolucionáriosâ â muitos foram à s ruas, defender a situação – e culpou, de novo, o bloqueio dos EUA pelos problemas (após anos de distensão, a superpotência apertou as amarras novamente na recém-encerrada gestão Trump). Com número crescente de cubanos, jovens sobretudo, não cola mais. Os ideais revolucionários moram no exÃlio da memória dos veteranos.
O conflito de gerações invadiu a casa de Toni. Seu primogênito emigrara para a Flórida, aproveitando-se da polÃtica âpés secos, pés molhadosâ, que garantia residência aos cubanos, se eles conseguissem chegar à terra firme nos Estados Unidos. (Barack Obama extinguiu a legislação em 2017, dentro do projeto de normalização das relações entre os dois paÃses.) O sorriso do engenheiro â orgulhoso integrante do exército cubano que lutou na revolução em Angola â se apagava ao lembrar do filho, em âterritório inimigoâ.
Os sentimentos antagônicos vão habitar a ilha mÃtica â fetiche igualmente anacrônico dos grupos de extrema-direita mundo afora, Brasil muito incluÃdo â ao sabor da passagem das gerações. A trajetória de luta, a resistência do povo determinado, a coerência de lÃderes como Fidel e Che continuarão admiráveis, mas serão cada vez mais peças de museu.
Cuba está obrigada a encarar novas ondas, que despontam no seu horizonte.

Muito bom texto, fico feliz com a honestidade intelectual do autor.
Um texto muito imparcial e confuso, o jornalista deve explicar melhor o embargo feito a CUBA pelo império e realmente quais os efeitos sociais e econômicos causados para os Cubanos e ao mundo.