‘Povo preto não é mercadoria’

Manifestantes protestam contra a morte violenta do jovem congolês Moïse Mugenyi Kabagambe em um quiosque na Barra da Tijuca (Foto Fabio Teixeira / Anadolu Agency via AFP / 5-2-2022)

Indignação e revolta marcam as manifestações contra a morte de imigrante congolês brutalmente assassinado no Rio de Janeiro

Por Alexandre dos Santos | ODS 16 • Publicada em 6 de fevereiro de 2022 - 09:36 • Atualizada em 16 de março de 2022 - 08:06

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Manifestantes protestam contra a morte violenta do jovem congolês Moïse Mugenyi Kabagambe em um quiosque na Barra da Tijuca (Foto Fabio Teixeira / Anadolu Agency via AFP / 5-2-2022)

Antes das 10h da manhã, horário previsto para o início das manifestações que lamentavam a morte do imigrante congolês Moïse Mugenyi Kabagambe, uma pequena multidão já exibia cartazes feitos à mão com os dizeres “Queremos justiça!”, “Até quando?”, “Justiça por Moïse” e até um cartaz bilíngue onde se lia “Luto pela vida do Moise Mugenyi” e “Nous voulons la justice” (“Nós queremos justiça” em francês).

Enquanto as pessoas se reuniam em frente aos quiosques conjugados Biruta e Tropicália, onde Moïse foi espancado até a morte na noite do dia 24 de janeiro de 2022, à espera dos representantes das 260 entidades previstas para participar da manifestação, uma pequena caixa de som acoplada a um microfone foi deixada à disposição de quem quisesse falar. Timidamente, algumas pessoas se revezavam pedindo justiça para Moïse e lembrando o assassinato de Durval Teófilo, alvejado três vezes ao se aproximar do portão de casa, oito dias depois da morte do jovem congolês.

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A uma distância de dois metros um homem com a camisa onde se lia “Vende-se carne negra, tel: 190”, em referência ao número de emergência da Polícia Militar, ouvia com atenção, mas movia a cabeça discretamente em desacordo. André Constantine, presidente do Movimento Nacional das Favelas e Periferias, deixou bem claro que a manifestação é sempre importante, mas que “nunca dá em nada”.

“O que aconteceu não é exceção, a gente fica aqui olhando com cara de espanto, mas o que aconteceu é regra. Aqui o preto é espancado até a morte por cobrar pelo que é seu por direito, leva três tiros na barriga tentando entrar em casa… Tudo isso mostra a falência das nossas instituições. Eu defendo, desde 2003, que a gente crie comissões e grupos de autodefesa, que nem fizeram os Panteras Negras. Só assim, forçando a barra, é que a gente vai mudar alguma coisa.”

Enquanto conversávamos, mais pessoas chegavam com cartazes e um grupo de jovens passava distribuindo adesivos para serem colados nas camisas: “Justiça por Moïse”, “Vidas negras importam”, “Não ao racismo” e, claro, “Fora Bolsonaro!”

Claudia Vitorino, presidente da Unegro-RJ (União de Negras e Negros pela Igualdade) e integrante da Frente Nacional Antirracista, tomou o microfone e evocou nomes de algumas das pessoas pretas assassinadas de forma violenta no Rio de Janeiro:

“Marielle! Presente. Moïse! Presente. Durval! Presente. Ághata ! Presente. Kathlen! Presente. Marcus Vinícius! Presente.”

Conversamos antes de ela subir no carro de som, que já se aproximava pela pista da Avenida Lúcio Costa, na Barra da Tijuca, bairro de classe média alta na Zona Sul do Rio de Janeiro. “Responder violência com violência nunca nos leva a lugar nenhum”, ela responde quando cito a argumentação de André Constantine. “Mas uma coisa é certa”, ela continua, “as pessoas pretas são executadas a cada 12 minutos aqui no Brasil. E são executadas justamente por serem pretas. Porque o racismo está tão entranhado – aqui e em todos os lugares do mundo – que o negro é percebido e tratado como sinônimo de bandido. Em todo lugar! A gente chegou a tal ponto que o racista não se envergonha mais de mostrar a cara. Comete o crime e depois pede desculpa dizendo que não era intenção de matar. Era intensão de quê, então?”, diz ela se referindo tanto ao caso de Moïse quando de Durval Teófilo. “Essas pessoas que buscam refúgio aqui no Brasil são contratadas em subempregos, alguns até em trabalhos análogos à escravidão. Quando exigem respeito e os seus direitos, são tratados com violência. Quando não são mortos.”

Jovens protestam contra o assassinato do imigrante congolês (Foto Fabio Teixeira / Anadolu Agency via AFP / 5-2-2022)

Eram 10h50m e Claudia foi chamada para subir no carro de som. A manifestação começava de fato naquele momento, sob um sol de 32 graus C. Lá do alto, um aviso importante: “Vamos dar as boas-vindas aos congoleses que acabaram de chegar e uma salva de palmas para a mãe de Moïse e a toda a família dele”. As palmas que se seguiram foram interrompidas pelo barulho de socos e pontapés nas estruturas de madeira do quiosque Tropicália. Eu estava abrigado do sol sob a marquise do quiosque e o que vi ali não foi violência gratuita, foi um desabafo, quase uma catarse, de vários amigos de Moïse contra a estrutura de madeira que representava o local do assassinato do jovem congolês.

Abriu-se um clarão para dar espaço aos jovens que choravam, gritavam, chutavam e socavam as janelas de madeira. Assim como se abriu, o clarão se fechou de novo, seguido por câmeras de vídeo, celulares e máquinas fotográficas disputando espaço para registrar as imagens da indignação.

Uma parte dos manifestantes gritou em coro: “Queima! Queima! Queima!”. Um braço arrancou o letreiro Tropicália e o devolveu, partido ao meio, para o telhado do quiosque. O coro se intensificou enquanto, do alto do carro do som, os organizadores pediam calma: “Pessoal, não vamos perder a razão”.

A mãe de Moïse, Lotsove Lavy Ivone, acalmou os ânimos ao agradecer o apoio de todos e pedir que a justiça fosse feita, com todos os culpados sendo identificados e punidos. Ela agradeceu também à prefeitura do Rio de Janeiro, que ofereceu à família a concessão do quiosque onde o filho foi morto e a proposta de transformar o lugar em uma espécie de memorial em homenagem à cultura dos imigrantes vindos do continente africano.

À frente do carro de som, um desfile de faixas e cartazes pedindo justiça para Moïse e as vítimas do racismo, contra o genocídio negro e a intolerância. Grupos de capoeira e de maracatu puxavam a procissão que seguiu por uma das pistas da Avenida Lúcio Costa fez o retorno 200 metros à frente e retornou pela outra pista até o ponto de partida. Na sombra das árvores, no canteiro entre as pistas, o presidente da comunidade congolesa do Rio de Janeiro, Daniel Dowo, descansava muito emocionado e passando mal por causa do calor. Sem condições de conversar disse que sentia muito pelo Brasil e pelos brasileiros que uma tragédia como essa tenha acontecido: “Nenhum dos dois povos merece isso. A gente vem para trabalhar, para ajudar, não para brigar. A gente quer deixar as brigas lá no Congo”.

Foi o secretário de Dowo, Botamba Hervé, quem continuou a conversa: “Somos 4.600 congoleses estabelecidos aqui no Rio de Janeiro. Sabemos que é difícil para todo mundo arrumar trabalho no Brasil. Mas nenhum de nós vem preparado para sofrer racismo quando chega aqui. Muitos chegam como mão de obra qualificada, mas não têm chance. Só se for para ser garçom, pedreiro ou servente”.

Hervé conta que há pelo menos 20 anos a comunidade congolesa – que está espalhada entre os bairros de Barros Filho, Brás de Pina, Madureira e Irajá – está organizada e pronta para ajudar quem chega ao Rio. As famílias se cotizam para ajudar no ensino do “português brasileiro” e se comunicam usando basicamente o lingala (idioma banto usado como língua franca) e o francês, a língua imposta pela Bélgica, o ex-ocupante colonial.

Os refugiados vindos da República Democrática do Congo (RDC) começaram a chegar ao Brasil com mais frequência no final da Segunda Guerra do Congo (na virada do milênio), época em que se multiplicava o número de grupos armados nas regiões central e interior do país, em decorrência dos conflitos entre a RDC e os países vizinhos, principalmente Ruanda e Uganda. O fim da guerra oficial, em 2003, foi o estopim de vários outros conflitos armados que acontecem até hoje. Um deles, o conflito na província de Ituri, na região nordeste da RDC, foi o motivo pelo qual Lotsove Lavy Ivone percorreu quase três mil quilômetros com os filhos até a capital Kinshasa em busca de uma rota para sair do país. As tensões ancestrais entre os lendu (descendentes dos agricultores) e os hema (descendentes dos pastores) – etnia da família de Moïse – se agravaram quando grupos armados de cada uma das etnias entraram em uma espiral de violência que ainda não terminou.

“Kinshasa é uma metrópole, todo mundo vai para lá para fugir da guerra e muita gente também sai de lá para outros países. Alguns aqui para o Brasil”, explica Hervé. De acordo com os dados da Pares Cáritas RJ, instituição ligada à Arquidiocese do Rio de Janeiro e responsável pelo Programa de Atendimento a Refugiados e Solicitantes de Refúgio, de 2017 para cá o número de congoleses que chegam ao Rio só é menor do que os imigrantes vindos da Venezuela.

O Rio de Janeiro conta com várias organizações que representam cidadãos vindos de outros países do continente africano. Além dos congoleses, estavam presentes na manifestação os angolanos, os cabo-verdianos e os senegaleses. Na Avenida Lúcio Costa havia pessoas de todas as regiões e bairros da cidade e do Estado do Rio. Muitos curiosos se agregavam aos manifestantes assim como muitos assistiam à procissão do conforto de suas janelas e varandas. De lá puderam acompanhar de camarote os coros que se sucediam no asfalto:

“A nossa luta / É todo dia / O povo preto não é mercadoria”

“Marielle perguntou / Eu também vou perguntar/ Quantos mais têm morrer / Pra essa guerra acabar?”

“Ô hipocrisia / Morre um Moïse aqui no Rio todo dia”.

Alexandre dos Santos

Jornalista formado pela Uerj em 1996 e mestre em Relações Internacionais pela PUC-Rio. Trabalhou como repórter em jornal impresso e em TV. É professor de História da África no curso de Relações Internacionais da PUC-Rio. Carioca de muitas ascendências: camaronesa, angolana, portuguesa e espanhola. E-mail: alexandredossantos@me.com. Instagram: @alsantos72

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