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Pau, pedra, faca, bandeira de candidato, um caminhão, garrafa, muitas balas e até explosivos. Essas foram algumas das armas usadas para agredir eleitores e candidatos durante a última quinzena da campanha para as eleições municipais de 2020, marcadas por uma onda de violência sem precedentes â e de diferentes tipos.
Um levantamento inédito realizado por uma coalizão de nove veÃculos jornalÃsticos contabilizou 114 casos de violência relacionados à eleição â incluindo ameaças, ofensas, agressões, tentativas de homicÃdio e assassinatos â ocorridos desde o começo de novembro. Isso significa que houve, em média, um episódio de violência polÃtica a cada 3 horas nos primeiros 15 dias de novembro.
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Veja o que já enviamosO número é 60% maior do que a quantidade de ataques registrada na véspera das eleições de 2018, quando a polarização da disputa presidencial entre Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT) deu o tom das agressões, com 50 delas partindo de bolsonaristas. Este ano, tanto vÃtimas quanto agressores eram de todo o espectro polÃtico.
O advogado Fernando Neisser, especializado em legislação eleitoral, explica que casos de violência geralmente não são investigados como crimes eleitorais. Ele diz, ainda, que é importante observar as diferenças entre um pleito nacional, como foi o de 2018, e um municipal, como o de 2020. âAs nossas eleições municipais sempre foram muito mais tumultuadas do que as eleições geraisâ. Entretanto, ele avalia que âem paralelo, nós temos esse movimento de ascensão de um populismo extremista, de um discurso de ódio que eu não tenho dúvida que tem a capacidade de gerar mais atos de violênciaâ, diz. Neisser acrescenta que talvez seja hora de se âponderar se atos violentos com finalidade eleitoral devem vir pro guarda-chuva da justiça eleitoral como crimes eleitorais.â
Desta vez, os dados indicam que a violência foi mais difusa e variada. Mas o discurso do ódio esteve presente e fez vÃtimas. âQuando ele pegou o santinho, acho que ele viu a foto do candidato a prefeito que o partido apoiaâ, relata. O Cidadania apoiou a candidatura de Rubens Júnior, do PCdoB, nas eleições deste ano. âEle começou a gritar que não votava em comunista, que o governador do Maranhão era bandido, que ele era bolsonarista, e saiu me agredindo. Eu sou cego. Ele saiu me batendo, me chutando, quebrou a minha bengalaâ, relata.
Ele diz ter levado socos no olho esquerdo e na boca, que causaram uma série de cortes nos lábios, por isso a dificuldade de falar. âEle dizia: âCego? Do lado de comunista?â Ele me chutou, pegou mais na bengala do que na minha perna. Com a força do chute, eu caÃâ. O caso de lesão corporal dolosa está sendo investigado, mas ainda não se sabe quem foi o agressor. âEu tô com a boca toda quebrada, meu jovem. Desde o outro sábado, eu tô bastante machucadoâ disse, por telefone, Etevaldo Santos, ainda com dificuldade para falar.
Havia menos de dez dias que ele fora agredido fisicamente na periferia de São LuÃs, capital do Maranhão. Etevaldo é cego e candidatou-se a vereador da cidade, sem sucesso, pelo partido Cidadania. Na véspera do primeiro turno das eleições municipais, ele fazia panfletagem em um ponto de ônibus no bairro de São Raimundo quando um homem se aproximou. âO meu partido nem é um partido comunista, é o Cidadaniaâ, diz o ex-candidato. âEu acho que a gente tá perdendo nosso direito de democracia, as pessoas sendo agredidas por causa de polÃticaâ, lamenta.
Os casos envolvendo ataques a polÃticos não ficaram apenas na base dos xingamentos, socos e empurrões. Também houve ocorrências graves: pelo menos 41 atentados ou tentativas de homicÃdio e 1 assassinato motivados por disputas polÃticas. Um dos mais chocantes foi em 7 de novembro e envolveu explosivos deixados na entrada da residência de Paulo Coradini, que disputou pelo PSB uma vaga à prefeitura de Governador Lindenberg, no EspÃrito Santo.
MilÃcias sob suspeita no Rio
O Sudeste foi a região com mais tentativas de homicÃdio relacionadas a polÃtica (15) e o Rio de Janeiro, o estado recordista nesse tipo de violência, somando 6 casos apenas durante os primeiros 15 dias de novembro. Em pelo menos um deles, fica claro o envolvimento da disputa de poder ligado à s milÃcias, que têm avançado no estado.
No dia 2 de novembro, o candidato à reeleição para o cargo de vereador do Rio de Janeiro, Jair Barbosa Tavares (Podemos), conhecido como Zico Bacana, foi atingido por um tiro de raspão na cabeça enquanto fazia campanha em um bar, no bairro de Ricardo Albuquerque, zona norte da cidade. Na ocorrência, outras quatro pessoas foram baleadas; duas morreram no local e outras duas foram internadas, segundo a Secretaria de Estado de PolÃcia Militar.
Zico Bacana é policial militar e foi citado no relatório final da CPI das MilÃcias da Assembléia Legislativa do Rio em 2008, sendo apontado como lÃder de uma milÃcia que atuava em Guadalupe, também na zona norte da capital. O caso está sendo investigado pela Delegacia de HomicÃdios do Rio de Janeiro. Zico Bacana não foi reeleito.
As tentativas de homicÃdio também ocorreram em muitas cidades do Nordeste (13 casos) e do Norte (7 casos) do paÃs.
Na noite de 9 de novembro, por exemplo, o prefeito e candidato à reeleição em Castanheiras, Rondônia, Alcides Zacarias Sobrinho (PSD), teve que se esgueirar na mata para salvar a própria vida. âChegando na sede do municÃpio, a moto se aproximou e vi que eles estavam armadosâ, relatou à reportagem Genivaldo Japão (DEM), candidato a vereador que estava no banco do carona, acompanhando o prefeito.
âEu falei [para Alcides:] âeles tão armadosâ. Ele acelerou, ele colocou o carro na contramão, ficou na margem de uma capoeira, e embicou no mato. Rapidamente a gente desceu do carroâ, relata. âEstávamos nos arrastando, era muito cipó, muito espinho. E começamos a escutar os tiros, contra o carro e contra a genteâ, relembra Japão. Ele diz que, depois de se arrastarem por cerca de 20 metros, ouviram o barulho da moto acelerando em fuga.
Segundo Japão, por volta das 22h eles acenderam seus celulares e conseguiram andar em direção à sede de uma fazenda. Lá, ligaram para a PolÃcia Militar. Posteriormente, registraram um boletim de ocorrência na delegacia da cidade. O caso está sob investigação e tramita em sigilo, segundo a PolÃcia Civil de Rondônia.
Concorrendo nas urnas como âAlcides do Somâ, o candidato perdeu a disputa eleitoral. Ele ficou conhecido quando fez uma série de denúncias ao Ministério Público que resultaram na deflagração da Operação Hipólito, montada pelo MP estadual para combater esquemas de corrupção em Castanheiras e que motivou a prisão de cinco vereadores do municÃpio em 2018. âPara mim, é um crime de motivação polÃtica. Eles temiam que Alcides fosse reeleito e continuasse esse trabalho. Ele já vinha sendo ameaçadoâ, afirma Japão.
O pesquisador Pablo Nunes, coordenador do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), tem acompanhado os casos de violência contra polÃticos desde o inÃcio de 2020. Até o primeiro turno da eleição, havia contabilizado 84 mortes e 111 agressões em 22 estados brasileiros. Pernambuco foi o que registrou maior número de mortes (13), seguido por Minas Gerais (9) e Rio de Janeiro (8).
Nunes conta que, durante seu levantamento, passou a perceber padrões nos atentados, como o uso de bombas caseiras, ou mesmo a estratégia de encurralar as vÃtimas com carros ou motos. O pesquisador ressalta que é um modo de ação semelhante ao que culminou no assassinato da vereadora Marielle Franco, também no Rio, há 982 dias sem solução.
Apenas nos primeiros 15 dias de novembro, pelo menos 14 candidatos em todo o Brasil foram alvo de atentados a tiro em que os disparos vieram de carros ou motos. A empresária Simone Sartório (Patriota), candidata à Câmara Municipal da capital fuminense, teve o carro atingido por um tiro, em Rocha Miranda, na zona norte da cidade, em 3 de novembro. Ela voltava para o comitê eleitoral quando percebeu que estava sendo seguida. Na hora em que abandonou seu carro para se refugiar em uma casa, atiraram contra ele. Simone Sartório, que não foi eleita, conseguiu sair do veÃculo antes dele ser atingido.
âA minha sorte é que o vidro não estava abaixadoâ, disse o policial militar Kleyson Sodré (PSL). que candidatou-se a vereador de Magé, na Baixada Fluminense. Ele contou à reportagem que estava voltando para casa com um amigo depois de um dia cheio de campanha quando parou em um posto de gasolina para abastecer o carro. Segundo Kleyson, um Corolla emparelhou do lado do motorista, onde ele estava, e atirou contra o veÃculo. âQuando eu vi a mão do cara saindo, eu me deiteiâ, lembra. O atentado ocorreu no dia 12 de novembro, por volta das 23h.
Poucos minutos antes, por volta das 22h30 do mesmo dia, Tom Viana (PSL), candidato à prefeitura de Búzios, na região do Lagos, sofreu um ataque a tiros na rodovia RJ-102, altura do bairro Campos Novos. Os disparos atingiram a porta e o vidro blindado â ninguém ficou ferido.
Já no interior e em estados do Norte e Nordeste, motos são mais utilizadas, em uma âdinâmica de dois caras em uma moto efetuando os disparos contra o polÃticoâ, explica Pablo Nunes.
Para o pesquisador, o assassinato de um representante polÃtico âataca o centro da democraciaâ e representa uma âinterferência violenta em um dos pilares da democracia, que é exatamente a possibilidade de votar e ser votadoâ.
âSe um parlamentar ou um candidato não está seguro, nenhum de nós estáâ, alerta.
Mulheres na mira
Dentre os mais de cem casos levantados, chama a atenção a maneira como mulheres foram alvo de violência de gênero â ou seja, elas sofreram violência por serem mulheres em pelo menos 8 ocasiões.
Candidata pela segunda vez, a vereadora Elizangela Altoé (PT), de Cachoeiro de Itapemirim (ES), foi agredida pelo empresário Robson Salles Gratival, dono da loja de motos ZeroKm, enquanto cumpria agenda de campanha na sexta-feira, 13 de novembro. O empresário teria a agredido verbalmente, jogado uma lata de cerveja na candidata e ainda a teria derrubado no chão. Ela registrou um boletim de ocorrência na 7º Delegacia Regional da PolÃcia Civil da cidade, que investiga o caso.
Em vÃdeo que circula pelas redes sociais, é possÃvel ouvir o empresário chamando Elizangela de âputaâ. Ela contou que âdesde esse dia, eu parei de fazer campanhaâ, conforme relatou à reportagem. âFui levada para o hospital porque fiquei tonta ao bater a cabeça no chão. Não cheguei a perder todos os sentidos, não sei se foi por cair ao chão ou por todas as agressões. Quando eu estava no chão, o agressor me segurava pelo cabelo, tive machucados na mão e no braço. Fui agredida por ser mulher e por ser de esquerda, do PTâ, disse.
[g1_quote author_name=”Sandra Carvalho” author_description=”Coordenadora da ONG Justiça Global” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Pelo que a gente documentou até agora, tudo indica que, com o maior número de mulheres e pessoas trans ocupando cargos polÃticos, essas pessoas estão mais vulneráveis. E a gente entende que o Brasil não tem ainda uma estrutura [para lidar com isso] â nem os partidos polÃticos, nem as instâncias que teriam alguma responsabilidade sobre a apuração ou medidas de prevenção estão mobilizadas nesse sentido
[/g1_quote]A agressão presencial à candidata Manuela DâÃvila, que concorre à prefeitura de Porto Alegre pelo PCdoB, é ainda mais chocante porque ocorreu em pleno debate de candidatos, e presencialmente. Seu ex-noivo, Rodrigo Maroni, do PROS, que também foi candidato a prefeito da cidade, além de ofendê-la, ameaçou expor fatos de sua vida pessoal ao público. âTu é patricinha mimada, poderia estar comprando bolsa no shopping. Se eu fosse abrir a boca, eu não acabaria com a carreira, mas com tua vida, Manuelaâ. Nesse contexto, a fala pode ser considerada uma ameaça de violação da intimidade feminina, crime previsto no artigo 7º da Lei Maria da Penha. Em vÃdeo, Manuela chamou o caso de âviolência polÃtica de gêneroâ e âviolência psicológicaâ.
Como é praxe no Brasil, a violência contra a mulher também se somou ao racismo em pelo menos uma situação. Em um evento de campanha no dia 7 de novembro em Cariacica (ES), a candidata à vice-prefeitura Edilamara Rangel e a candidata a vereadora Kelly Kuster, ambas da Rede, foram chamadas de âcriolasâ por um homem não identificado depois de terem pedido que ele lhes desse passagem para subirem no carro de som. âEle fez isso de forma gratuita, porque viu mulheres negras em cima do carro de som e achou que poderia falar qualquer coisa. Um absurdo, situações como essa não podemos aceitar. Temos que repudiar com veemência os ataques de injúria racialâ, disse Edilamara em entrevista.
Em outro momento da atividade, outro homem teria gritado questionando âse não teriam roupa para lavar?â. Dois dias depois, as candidatas registraram boletim de ocorrência por injúria racial na Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher.
Sandra Carvalho, coordenadora da ONG Justiça Global, alerta que é preciso prestar especial atenção aos casos de violência polÃtica cujos alvos são mulheres e pessoas LGBTs. âPelo que a gente documentou até agora, tudo indica que, com o maior número de mulheres e pessoas trans ocupando cargos polÃticos, essas pessoas estão mais vulneráveis. E a gente entende que o Brasil não tem ainda uma estrutura [para lidar com isso] â nem os partidos polÃticos, nem as instâncias que teriam alguma responsabilidade sobre a apuração ou medidas de prevenção estão mobilizadas nesse sentidoâ, destaca. No fim de setembro, a Justiça Global, em parceria com a ONG Terra de Direitos, lançou um levantamento de casos de violência polÃtica no Brasil entre janeiro de 2016 e setembro deste ano.
Represália por cumprir a lei eleitoral
Houve ainda quem tenha sido alvo de ataque porque estava tentando fazer cumprir a lei e defendendo a democracia. Foi o caso de um delegado de partido do PMN na cidadezinha de Tanque DâArca, em Alagoas. José CÃcero Fernandes, que acompanhava o pleito eleitoral na única seção da cidade, no Centro de Educação Infantil Dulce Ferreira Gomes, levou um tapa do atual prefeito, Will Valença (PSD). CÃcero queria evitar que o prefeito fizesse boca de urna e foi agredido. Registrou um boletim de ocorrência no Centro Integrado de Segurança Pública (Cisp) de Taquarana e um escrivão da delegacia confirmou que o prefeito vai ser intimado à delegacia.
José CÃcero acredita que a causa do ataque foi polÃtica. âEu sou oposição ao prefeito, tenho me manifestado na internet. Tenho feito vÃdeos com crÃticas. E no dia da eleição eu estava trabalhando como delegado pela minha coligaçãoâ, afirmou à reportagem.
Houve também 4 casos de violência contra agentes públicos, como mesários e fiscais do Tribunal Regional Eleitoral. No dia da eleição em Nova Iguaçu (RJ), um mesário voluntário chamou a atenção do candidato a vereador Felipinho Ravis, do PSC, por suspeita de boca de urna, e acabou agredido com socos e chutes por dois homens que acompanhavam o polÃtico.
Jornalistas atacados
Outro caso que choca é o espancamento a um profissional de imprensa â apenas um dos 7 casos registrados pelo consórcio de veÃculos jornalÃsticos. Na sexta-feira anterior à eleição, dia 13 de novembro, o jornalista da TV Record Marcos Guedes foi espancado e ameaçado durante a apuração de uma reportagem sobre notÃcias falsas na disputa eleitoral de Valinhos, municÃpio localizado a 96 km de São Paulo. O motorista que o acompanhava também sofreu agressões.
Segundo o delegado João Alves Netto, responsável pelo inquérito sobre o caso, os principais agressores do jornalista são o policial militar Welton Rodrigo Manchila do Amaral, o Cabo Amaral (PSD), eleito suplente de vereador em Valinhos no domingo (15/11), e Marcio Xavier Filho, que trabalhava para a campanha da então candidata Capitã Lucimara (PSD), policial militar que acaba de conquistar o cargo de prefeita da cidade.
âQuando tomei conhecimento da situação e me deparei com ele, [o jornalista] tinha acabado de ser agredido, estava com o rosto até meio deformado de tanto inchaço na região dos olhos, estava machucadoâ, relatou à reportagem o delegado. Tanto o jornalista como o motorista passaram por exames de corpo de delito.
Todos os envolvidos estão sendo investigados por ameaça e lesão corporal. Entidades como as associações brasileiras de Rádio e Televisão (Abratel) e de Jornalismo Investigativo (Abraji) e a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) manifestaram repúdio contra a agressão sofrida por Guedes e seu motorista.
Nordeste lidera ranking
De acordo com o levantamento, o Nordeste foi a região mais violenta, em termos absolutos, na reta final das eleições municipais: um em cada três casos de violência polÃtica ocorreram lá. Com 8 casos, a Bahia foi o estado nordestino com maior número de ocorrências, seguida por Pernambuco e ParaÃba, com 6 casos cada.
O candidato eleito à prefeitura de Santa Teresinha, na ParaÃba, José Arimateia Camboim (Republicanos), foi brutalmente espancado em sua fazenda, no dia 8 de novembro. Em relato postado nas redes sociais, ele conta que estava dormindo quando, por volta das 6h da manhã, escutou gritos de âPolÃcia Federalâ e batidas na porta. Quando atendeu ao chamado, quatro homens com armas na mão invadiram o quarto onde estava sua famÃlia e âcomeçaram a revirar tudoâ, de acordo com o polÃtico.
Arimateia lembra que, logo em seguida, os invasores começaram a espancá-lo e diziam a todo momento que queriam o dinheiro da campanha, que ele perderia a eleição e que estavam obedecendo ordens. âO alvo realmente naquele momento era euâ, afirmou. âEles bateram sem dó.â
Conforme reportagem do G1, dez pessoas que estavam na fazenda foram amarradas pelos homens, que levaram objetos pessoais e dinheiro. O caso foi registrado como roubo qualificado e como crime patrimonial na Delegacia de PolÃcia de Patos.
São Paulo com recorde de casos
A região Sudeste foi a segunda com maior número absoluto de casos: 32, que correspondem a 28% do total. Com 15 casos, o estado de São Paulo foi o mais violento e teve o maior número de agressões entre todos os estados do Brasil (8). No Rio de Janeiro, foi onde mais ocorreram tentativas de assassinato: foram 6 atentados de um total de 8 casos de violência.
O candidato a vereador de Guarulhos, Ricardo de Moura (PL), foi baleado à luz do dia enquanto gravava um vÃdeo para a sua campanha, no dia 9 de novembro. A gravação, divulgada por alguns jornais, mostra o exato momento do crime. Quando Ricardo afirma âpassou da hora de fazer a diferença aqui em Guarulhosâ, ele leva um tiro e cai no chão, assim como seu celular. A imagem da câmera fica direcionada para o céu, mas é possÃvel ouvir os tiros, o grito de dor e o pedido de socorro de Ricardo.
Segundo o presidente do Partido Liberal (PL) de Guarulhos, coronel Flammarion Ruiz, ele estava sozinho quando um homem de capuz e máscara fez os disparos e fugiu correndo para dentro de uma favela da região. âForam dois tirosâ, contou Ruiz à reportagem. Segundo ele, uma bala atingiu o braço, e a outra bala, a perna de Ricardo, mas nenhuma delas se alojou no corpo da vÃtima, que teve alta no mesmo dia depois de ser encaminhada ao Hospital Geral de Guarulhos.
âA gente não tem nenhuma pretensão de fazer alarde polÃtico, mas a gente pensa que alguma coisa diferente ocorreu, porque não levaram nem o celular, nem carteira, nem dinheiro, nem nadaâ, avaliou Ruiz, ao ser questionado sobre uma possÃvel motivação polÃtica do crime. Por meio de nota, a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo informou que o caso está sendo investigado pelo Setor de HomicÃdios e Proteção à Pessoa (SHPP) do municÃpio, que instaurou Inquérito Policial. As investigações correm sob sigilo. Ricardo de Moura não venceu a eleição.
Sete tentativas de homicÃdio na Região Norte
No Norte do paÃs, o destaque foram os atentados ou tentativas de assassinato, que corresponderam a 7 dos 15 casos de violência polÃtica contabilizados na região pelo consórcio de veÃculos. No Tocantins, ocorreram 5 casos de violência, no Pará, 4, e em Rondônia, também 4.
Na madrugada dia 7 de novembro, o vereador Anderson Santana de Oliveira (PDT) saiu de uma reunião e dirigia sua moto para buscar seu filho na casa de um amigo, no municÃpio de Alto ParaÃso (RO). O dia seguinte seria cheio: ele participaria de uma carreata em apoio a Marcos Froes (PP), candidato à prefeitura na cidade que acabou derrotado na eleição municipal do último domingo. No meio do trajeto, foi abordado por quatro homens armados e encapuzados em uma caminhonete.
âEles me abordaram e queriam que eu gravasse um vÃdeo dizendo que eu havia desistido de apoiar a candidatura do Marcos Froes, pois ele estava com dinheiro para compra de votos vindo de alguns empresáriosâ, disse o polÃtico em entrevista à reportagem. Ele se recusou a gravar o vÃdeo e foi vÃtima de uma sessão de tortura. Os homens o levaram até uma lavoura de soja na área rural da cidade e começaram a agredi-lo com socos, chutes e coronhadas de revólver. Também fizeram vários cortes em seu rosto e na cabeça com um facão.
Anderson conta que, em dado momento, sofreu uma pancada na cabeça e ficou desacordado. Foi deixado pelos agressores nas imediações do cemitério de Alto ParaÃso, onde foi encontrado e levado à Unidade de Saúde da cidade. Lá, prestou depoimento à s autoridades policiais. Membro do Movimento de Pequenos Agricultores (MPA), ele acredita que o crime teve motivações polÃticas. Diz também que ele e Froes representam pequenos agricultores e se opõem a grandes empresários do agronegócio local. Na semana do crime, ele já havia recebido em seu gabinete um bilhete com a mensagem: âVocê conhece a frase ânão cutuca o cão com vara curta?â.â A PolÃcia Civil de Rondônia informou à reportagem que o caso deve ser encaminhado para a PolÃcia Federal por ser tratado como crime de motivação eleitoral.
Atentados a candidatos a prefeito no Sul e Centro-Oeste
No Sul do paÃs foram registrados 16 casos de violência polÃtica na primeira quinzena de novembro. Rio Grande do Sul e Paraná tiveram 6 casos cada e Santa Catarina, 4. O candidato à prefeitura de Encruzilhada do Sul, no Rio Grande do Sul, Pedro Paulo dos Santos Soares (PTB), foi vÃtima de um ataque a tiros no dia 13 de novembro. Ele estava a trinta metros de sua residência quando um veÃculo que vinha na direção contrária começou a disparar contra a sua caminhonete.
âEu estava numa reunião partidária, na casa do meu vice. Estávamos em quatro ou cinco pessoas na coordenação. Jantamos, e, à meia noite, fomos para a casa. Eu moro numa chácara. A gente já vinha desconfiando, vinha sendo seguido, meus companheiros de coligação eram olhados com olhos muito carrancudos, como falamos na nossa linguagemâ, relatou Pedro Soares à reportagem.
O então candidato estava sozinho e disse que seus vizinhos ouviram os disparos. âForam três ou quatro tiros, ainda aguardamos a perÃcia para saberâ, disse, acrescentando que se deitou na hora. âSou um sujeito que não tem inimigos, não teria motivos para alguém me matar, a não ser polÃtico. Eu também denunciei um esquema polÃtico na câmara e na prefeituraâ, contou. O caso está sendo investigado pela polÃcia civil e a caminhonete passou por perÃcia.
No Centro-Oeste do paÃs, nosso levantamento identificou 13 casos de violência polÃtica. O estado com maior número de ocorrências é o Mato Grosso (6 casos), seguido por Mato Grosso do Sul (4 casos) e Goiás (3 casos).
A candidata à prefeitura de Ribas do Rio Pardo (MS) Fabiana Galvão (MDB) sofreu um atentado no dia 10 de novembro. Sua casa foi alvo de cinco tiros que acertaram o portão da garagem, o teto e o vidro traseiro do carro. âA sorte é que na hora em que começaram a atirar eu me joguei no chão. Foi tudo muito rápido. Os vizinhos escutaram e já chamaram a polÃcia, eu fiquei em choqueâ, relatou.
Segundo informações do boletim de ocorrência, os tiros foram disparados pelo passageiro do banco da frente de um carro sedan, que parou em frente à residência. Logo após fazer os disparos, o veÃculo foi embora. As imagens da câmera de segurança de um vizinho foram consultadas pela polÃcia, no entanto, ainda não há suspeitos e o carro não foi localizado. O caso foi registrado como ameaça e disparo de arma de fogo.
Em entrevista a um veÃculo local, o delegado responsável pelas investigações, Bruno Santacatharina, quando questionado se o atentado tem relação com a campanha eleitoral, respondeu que âtudo indica que simâ. De acordo com Fabiana, a polÃtica no municÃpio é âcomplicadaâ, com âmuita agressão em redes sociaisâ.
âTeve algumas pessoas que me agrediram de forma pessoal em que houve um atrito forte. E eu fiquei meio assim. Acho que juntou tudo, juntou pessoal com polÃtico. Foi pra me assustar. Eram seis candidatos e eu era a única mulher. Eu comecei a campanha muito bem nas pesquisas, em segundo e terceiro lugar, de repente, na última semana, acontece isso, e aà eu recueiâ, relata. Fabiana não foi eleita.
*O projeto Violência nas Eleições é realizado por uma equipe de jornalistas de nove veÃculos.
Reportagem: Alice Maciel, Anna Beatriz Anjos, Caroline Farah, Ciro Barros, Ethel Rudnitzki, José CÃcero da Silva, Julia Dolce, Laura Scofield, Mariama Correia, Rafael Oliveira, Raphaela Ribeiro e Rute Pina (Agência Pública), Gabriella Soares e Rogerio Galindo (Plural), Kátia Brasil e Nicoly Ambrozio (Amazônia Real), Inara Fonseca e Paula Guimarães (Portal Catarinas), Vitória Régia (Gênero e Número), Débora Britto (Marco Zero Conteúdo), Paulo Eduardo Dias (Ponte Jornalismo), Liana Melo (Projeto #Colabora) e Mirella Lopes e Rafael Duarte (Agência Saiba Mais).
Edição: Andrea DiP, Giulia Afiune, Marina Dias, Natalia Viana e Thiago Domenici (Agência Pública), Rogerio Galindo (Plural), Oscar Valporto (Projeto #Colabora), Rafael Duarte (Agência Saiba Mais), Amauri Gonzo (Ponte Jornalismo), Giulliana Bianconi (Gênero e Número), Paula Guimarães (Portal Catarinas) e Kátia Brasil (Amazônia Real).
Coordenação: Anna Beatriz Anjos e Giulia Afiune (Agência Pública)
Dados e infográficos: Bianca Muniz e Larissa Fernandes (Agência Pública)
Artes: Débora Britto (Marco Zero Conteúdo) e Ana Clara Moscatelli (Agência Pública)
