Vladimir Putin costuma dizer que o fim da União Soviética, em 1991, foi o maior acontecimento geopolÃtico do século XX. Faz sentido, especialmente no caso dele: foi esse divisor de águas que o levou à liderança da Rússia, segunda maior potência nuclear – mas não econômica – do mundo. No momento em que ele se torna o grande agressor ao invadir a Ucrânia, pondo a Europa de novo à beira de uma guerra em grande escala, sob outro prisma pode-se dizer que o lÃder russo joga uma cartada decisiva para manter o que resta da influência dos tempos da então poderosa URSS.
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Se a questão pode ser entendida, não pode ser justificada. A população civil ucraniana já está sofrendo os horrores da guerra. Assim como sofreram os iraquianos nas duas Guerras do Golfo – a primeira deflagrada pelos EUA em 1991, com apoio da comunidade internacional, para livrar o Kuwait da invasão do Iraque; a segunda em 2003, por um capricho do presidente americano George W. Bush, cujas alegações para a invasão se provaram falsas. Assim como sofreram os afegãos, tanto na invasão soviética de 1979, que durou dez anos, quanto nas duas dos EUA, em 2001, para caçar Osama bin Laden e a al-Quaeda após os atentados à s Torres Gêmeas, e em 2021, para destruir a organização radical Estado Islâmico.
Apesar de todo o poderio acumulado internamente, Putin viu, mesmo antes de sua ascensão à liderança russa, todo o arcabouço em que se sustentava a superpotência soviética ruir rapidamente. A chamada Cortina de Ferro, nome dado pelo Ocidente aos paÃses da Europa Oriental que caÃram em poder da URSS após a Segunda Guerra Mundial, era unida militarmente pelo Pacto de Varsóvia (uma espécie de versão soviética da Otan, a aliança militar ocidental). Dela faziam parte, além da própria URSS (com suas 15 repúblicas), Alemanha Oriental, Polônia, Tchecoslováquia, Hungria, Bulgária, Romênia e Albânia.
Com a queda do Muro de Berlim e a reunificação alemã, as sucessivas proclamações de independência dos paÃses-membros do Pacto e o fim da URSS (26 de dezembro de 1991), a situação mudou drasticamente para a Rússia. Dos 27 paÃses que compõem atualmente a União Europeia, nada menos do que 11 (Bulgária, Estônia, Hungria, Croácia, Letônia, Lituânia, Polônia, Romênia, Eslovênia, Eslováquia e República Tcheca) estavam sob o guarda-chuva de Moscou. Dos cinco paÃses âna filaâ para entrar na UE, quatro (Sérvia, Albânia, Macedônia do Norte e Montenegro) eram aliados da URSS. Os mesmos 11 que aderiram à UE estão hoje entre os 28 membros da Otan.
O fim da Guerra Fria (entre os EUA e a URSS) significou, então, uma enorme redução da área de influência russa. Do antigo colar de proteção a Moscou, sobraram apenas Ucrânia, Belarus e Moldávia. Dos três, a Ucrânia é obviamente a mais importante, tanto em território (segundo maior da Europa, atrás apenas da própria Rússia), população (44 milhões) e riquezas â maior reserva europeia de urânio e a segunda maior reserva do mundo em manganês – e grande produção agrÃcola, para citar alguns itens.
O declÃnio não aconteceu apenas na esfera geopolÃtica, mas também em termos econômicos. Em 1980, somente a Rússia (sem contar as outras repúblicas soviéticas) tinha o sexto maior Produto Interno Bruto (PIB) do mundo. Em 2021, o paÃs caiu para o 11o lugar, atrás do Brasil, em oitavo. Isso mostra a perda relativa da importância russa no cenário mundial. Ainda na Guerra Fria, a União Soviética sediou os Jogos OlÃmpicos de 1980, que se tornou emblemática por duas razões. O boicote liderado pelos EUA à competição e a figura da simpática mascote Misha – um urso, sÃmbolo informal do paÃs, reforçado nos tempos soviéticos. DifÃcil esquecer a cena do ursinho derramando uma lágrima no encerramento dos jogos, num efeito especial produzido por pessoas nas arquibancadas do estádio olÃmpico de Moscou
A Ucrânia começou a se inclinar para o Ocidente. Em julho de 2017, o Conselho da Europa aprovou a ratificação do acordo de associação do paÃs à UE. E o governo pró-ocidental do presidente Volodymyr Zelensky também deseja ser admitido na Otan. Evitar isso se tornou uma questão crucial para Vladimir Putin, que, há quase dez anos, incentiva o separatismo de áreas ucranianas na fronteira com a Rússia, na região de Donbass. Em 2014, Moscou anexou a PenÃnsula da Criméia e, à s vésperas da atual invasão da Ucrânia, reconheceu a República Popular de Donetsk e a República Popular de Luhansk, separatistas.
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Veja o que já enviamosMoscou alega que um eventual ingresso da Ucrânia na Otan significaria, para o Ocidente, a possibilidade de estacionar armamentos, como mÃsseis, a poucos quilômetros do território russo. à óbvio que Putin não poderia esperar que isso acontecesse para iniciar sua campanha militar contra o paÃs vizinho por conta da cláusula segundo a qual, se um paÃs da aliança atlântica for atacado, os demais devem socorrê-lo militarmente. O mundo estaria, então, à beira de um conflito nuclear.
Embora a Segunda Guerra da Ucrânia (a primeira foi em 2013/14, terminando com a anexação da PenÃnsula da Criméia) seja a maior intervenção militar russa em outra nação soberana na era pós-URSS, há uma série de conflitos em que o paÃs tomou parte nas últimas décadas para manter sua área de influência.
Destacam-se as guerras da Chechênia, república do Cáucaso russo que proclamou sua independência de fato em 1991. Após tolerar a situação durante três anos, Moscou se lançou numa aventura militar que encontrou forte resistência chechena, sofreu muitas baixas e se retirou em 1996. Mas três anos depois, com Putin como primeiro-ministro e prestes a se tornar presidente, as forças russas entraram novamente no território após atentados na Rússia atribuÃdos a separatistas chechenos. Em 2000, Moscou retomou o controle da capital chechena, Grozny, arrasada pela artilharia e aviação russas. Houve dezenas de milhares de mortos dos dois lados e, desde então, um tÃtere apontado por Putin mantém a república rebelde sob controle.
A Geórgia (terra natal de Stálin) foi outro paÃs a sofrer uma invasão russa, em 2008, em apoio à Ossétia do Sul, que se rebelou contra o governo georgiano e teve o apoio de Moscou. Em cinco dias, a Rússia infligiu uma derrota esmagadora à Geórgia e, no processo, reconheceu a independência da Ossétia do Sul e da Abkházia, outra república separatista. Desde então, mantém forte presença militar na região.
A Rússia tem também papel decisivo na Guerra Civil na SÃria, que se arrasta desde os protestos contra o presidente Bashar Assad, em 2011. Moscou tem grande interesse estratégico no paÃs, onde tem sua única base naval no Mediterrâneo, na cidade de Tartus. A partir de 2015, Putin ordenou ataques aéreos e navais contra o grupo terrorista Estado Islâmico, que lutava para derrubar o governo Assad. O conflito sÃrio é muito complexo, também tem intervenção dos EUA e muitos grupos polÃtico-militares, jihadistas ou não, que se posicionam a favor do (com apoio russo) e contra o (com apoio americano) ditador Assad.
Em todos esses conflitos, há obviamente muitas baixas militares em todos os lados envolvidos. Mas é a população civil indefesa que sofre os horrores dos bombardeios, das buscas casa-a-casa, dos franco-atiradores, das balas dos tanques e da artilharia. Homens morrem nas frentes de batalha, mulheres, crianças e idosos nos bombardeios e ataques. A guerra move o enorme complexo industrial-militar que fabrica armamentos cujo custo poderia acabar com a fome e, em grande parte, com a pobreza no mundo. E traz como subproduto a triste procissão de refugiados em fuga das zonas de batalha, seja para outras regiões de seu paÃs, seja para o exterior. Ao final de 2021, o total de deslocados e refugiados no mundo ultrapassou os 82 milhões de pessoas, segundo o Acnur, organismo da ONU encarregado de dar-lhes assistência.

Muito esclarecedor este artigo do Trajano de Moraes. Todos ganham com a volta dele.
Obrigado.
Petronio Rodrigues – à comum dizer aqui no Brasil que um paÃs sem memória é um paÃs que não cultiva a sua história e a sua cultura polÃtica. Um exemplo é perguntar para muitas pessoas se ouvem o programa A voz do Brasil. Muitas irão dizer que não porque não é interessante, é um programa chato, etc.Nos EUA, que até há pouco tempo era um paÃs bem mais democrático que muitos , 40% da população ouviam o in-
formativo do governo na década de 1990. Isto demonstra que a cultura polÃtica de um paÃs acontece devi
do ao interesse de muitos de seus habitantes em acompanhar como a polÃtica se desenrola e ocorre den-
tro de suas fronteiras (e obviamente também fora).O Ãndice de ignorantes da polÃtica é pior do que o Ãndi
ce de analfabetismo, porque o analfabetismo é resultado da falta de polÃticas efetivas de educação, e esta
decorre da falta de participação polÃtica que reflete o Ãndice de desconhecimento da(s) polÃtica(s)aplicadas
por um paÃs como um todo, e isto resulta em caos social,econômico e por fim, no caos polÃtico, o pior de
todos, e que tem por resultado, em muitos casos e conhecidos em vários paÃses, principalmente nos pa-
Ãses africanos, em guerra(s) civil(is).O historiador (falecido em 2013) inglês Eric Hobsbaum em seu livro (es
gotado) “Bandidos” que houve, em vários paÃses, indivÃduos que revoltaram-se contra a ordem social e po
lÃtica estabelecida, tais como Robin Hood, Pancho Villa, Lampião e Billy the Kid.Neste seu livro ele deixa es
clarecido que não é a falta de ser esclarecido culturalmente (saber bem ler e escrever) que faz o ser huma
no ser um ser,um ente ativo e esclarecido para tentar mudar a realidade humana que não aceita. Não se
muda uma realidade complexa e contraditória em nenhum paÃs do mundo se a sua população não fizer a
sua parte, que para mudar, é preciso rejeitar um domÃnio abusivo, intolerante e injusto por parte de seus
governos . Um grande exemplo foi (e é) a Revolução Francesa.