(Vivianny Matos, Leanderson Lima e ElaÃze Farias*) – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou nesta quinta-feira (29) a criação do inédito Ministério dos Povos IndÃgenas e confirmou o nome de Sonia Guajajara (do PSOL) como a primeira ministra do órgão, durante a coletiva na sede da transição do novo governo no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), em BrasÃlia. A indicação de Sonia foi marcada por crÃticas negativas por parte de lideranças do movimento indÃgena nacional. A principal é que ela deixará a luta no parlamento da chamada âbancada do cocarâ, para onde foi eleita com mais de 150 mil votos em São Paulo, A bancará será representada pela colega de partido Célia Xakriabá, que se elegeu por Minas Gerais, e de Juliana Cardoso (PT/SP).
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âDepois de muito trabalho, depois de muita tensão, depois de muita conversa, depois de muito ajuste, nós terminamos de montar o primeiro escalão do governo. (â¦) Eu estou feliz porque nunca na história do Brasil teve tantas mulheres ministras. Eu estou feliz porque nunca na história do Brasil nós tivemos uma indÃgena ministra. Ontem (28) eu falei com a Sonia que é uma experiência nova que todos nós temos que trabalhar para ajudar. Eu ainda tenho que escolher quem vai ser o presidente da Funai, será uma indÃgena ou indÃgena, o presidente da área de Saúde [Sesai], e também será uma pessoa indÃgena porque eles já estão mais do que preparados para tomar conta dos seus problemas. Eu acho que isso vai ser importante porque vai melhorar tudo aquilo que a gente tenta fazer para demarcar as terras indÃgenasâ, disse o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que assume o governo pela terceira vez, no próximo dia 1o. de janeiro, após dois mandatos (entre 1.º de janeiro de 2003 e 1.º de janeiro de 2011), e nunca ter nomeado um indÃgena ao cargo de ministro de estado.
O nome de Sonia Guajajara no governo é também representativo após os quatro anos do governo de Jair Bolsonaro, que não demarcou um centÃmetro de terra indÃgena e desmontou as polÃticas de demarcação dos territórios, do meio ambiente e ameaçou a preservação da Floresta Amazônica e de seus povos.
Com muita honra assumo esse desafio disposta a trabalhar pela reparação histórica das injustiças e violências cometidas contra nós povos indÃgenas há 522 anos
Além do Ministério dos Povos IndÃgenas, Lula anunciou na coletiva outros 15 ministérios e confirmou os nomes de Marina Silva (Meio Ambiente) e Simone Tebet (Planejamento). Serão no total 11 mulheres e 26 homens na chefia de ministérios. Com os mais 21 já definidos, o governo terá um total de 37 ministros, entre eles, Alexandre Silveira (Minas e Energia), Fernando Haddad (Fazenda), Aniele Franco (Igualdade Racial), Margareth Menezes (Cultura), SÃlvio Almeida (Direitos Humanos), NÃsia Trindade (Saúde), Luciana Santos (Ciência e Tecnologia), Cida Gonçalves (Mulher) e Flávio Dino (Justiça).
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Veja o que já enviamosO nome de Sonia Guajajara fazia parte de uma âlista trÃpliceâ de indicações da Articulação dos Povos IndÃgenas do Brasil (Apib) e do Conselho Terena, mas não tinha apoio de grandes lideranças do movimento. Também indicada ao ministério, a deputada federal Joenia Wapichana (REDE/RR) recebeu apoio de Davi Yanomami, Raoni e Ailton Krenak. O terceiro indicado era o vereador Weibe Tapeba, do PT do municÃpio de Caucaia (CE).
Algumas organizações regionais de peso, como a Coordenação das Organizações IndÃgenas Brasileira (Coiab) e a Federação dos Povos IndÃgenas do Alto Rio Negro (Foirn), divulgaram cartas públicas apoiando Joenia, que perdeu a reeleição nas eleições de outubro. A Articulação Nacional das Mulheres IndÃgenas Guerreiras da Ancestralidade (Anmiga) divulgou apoio para as duas mulheres.
Após o anúncio do nome de Sonia para o Ministério de Povos IndÃgenas, lideranças e apoiadores da causa indÃgena foram à s redes sociais se manifestar. O escritor Daniel Munduruku, no Twitter, foi categórico: âAcho um tiro no pé do movimento indÃgena a nomeação de @GuajajaraSonia para ministra. Acho que o Brasil indÃgena ganharia mais com seu jeito aguerrido de ser na Câmara Federal. De qualquer forma, torço por seu sucesso. Em tempo: preferia @JoeniaWapichinaâ.
Avelin Kambiwá resumiu: âDesfalca a bancada do cocar!â. Ivaneide Bandeira Cardozo, a Neidinha SuruÃ, indigenista e protagonista do documentário O Território, parabenizou Sonia, questionou: âAgora gostaria de saber se seu ou sua suplente é um/a indÃgena?â Não é. Yura NiâNawavo Marubo escreveu nem sua rede social: âA escolha não foi adequada (â¦) Contudo, prevaleceu outros entendimentos, que fogem da seara indÃgenaâ. O suplente da ministra na Câmara Federal é o deputado Ivan Valente (PSOL/SP).
A promessa de um Ministério dos Povos IndÃgenas foi feita por Lula no Acampamento Terra Livre, em abril deste ano. Na ocasião, a centenas de indÃgenas e ao lado de Sonia Guajajara, ele disse: âPreparem-se, pois alguém terá que assumir um ministério que vai tratar das questões indÃgenasâ. Passados oito meses, a promessa foi cobrada pelos indÃgenas, que não abriram mão da pasta de ministério. Nas últimas semanas, chegou a circular a informação de que a pasta seria transformada em secretaria, alternativa rechaçada pelas lideranças indÃgenas.
Nesta quinta-feira pela manhã, antes de Lula confirmou seu nome na coletiva, Sonia fez uma postagem nas redes sociais dizendo que aceitou ser ministra: âCom muita honra assumo esse desafio disposta a trabalhar pela reparação histórica das injustiças e violências cometidas contra nós povos indÃgenas há 522 anosâ, disse a ministra dos Povos IndÃgenas.
Um mulher influente
Sonia Bone de Souza Silva Santos, mais conhecida como Sonia Guajajara, nasceu em 1974 na Terra IndÃgena Araribóia, no Maranhão, e pertence ao povo Guajajara/Tentehar.
Liderança indÃgena na defesa ambiental, foi reconhecida como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo em 2022, segundo a revista norte-americana Time. Antes de atuar nas áreas da saúde, como auxiliar de enfermagem, e da educação, enquanto professora, foi babá e empregada doméstica. Tem graduação e pós-graduação em Letras, na área de Educação Especial, pela Universidade Estadual do Maranhão (Uema).
As ações de criação de polÃticas públicas indigenistas precisam vir das bases, a partir de diálogos com os povos indÃgenas, respeitando as peculiaridades e necessidades de cada um
Na militância pelos direitos dos povos indÃgenas, entre 2001 a 2007, integrou a coordenação da Coordenação das Articulações dos Povos IndÃgenas do Maranhão (Coapima). Participou do primeiro evento nacional indÃgena, a pós-conferência da Marcha IndÃgena, para discutir o Estatuto dos Povos IndÃgenas em Luziânia, no estado de Goiás. Em 2008, participou do Fórum Permanente da ONU para Questões IndÃgenas, em New York. Já em 2009, Sônia Guajajara foi eleita vice-coordenadora da Coiab.
Em 2012, coordenou a organização do Acampamento Terra Livre na Cúpula dos Povos. No ano seguinte estava à frente da Semana dos Povos IndÃgenas e de ocupações no plenário da Câmara e no Palácio do Planalto.
No ano de 2013, assumiu a coordenação-executiva da Apib. Sonia passou a ter reconhecimento internacional pelas denúncias que fez sobre as violações dos direitos dos povos indÃgenas nos últimos anos.
Em 2018, Sonia Guajajara foi a primeira indÃgena a disputar as eleições para a Presidência da República, em 2018.
Repercussão positiva
O lÃder indÃgena Adriano Karipuna, apesar da alegria da conquista de Sônia Guajajara, alertou que é preciso âmuita atençãoâ para a execução das polÃticas públicas aplicadas aos povos indÃgenas. âAs ações de criação de polÃticas públicas indigenistas precisam vir das bases, a partir de diálogos com os povos indÃgenas, respeitando as peculiaridades e necessidades de cada umâ, disse Adriano Karipuna à Amazônia Real. A TI Karipuna, por exemplo, é uma das mais impactadas pela grilagem, invasões, roubo de madeira e desmatamento em Rondônia.
Estamos preparados para assumir e desenvolver os trabalhos, junto aos territórios demarcados, assim também aos que estão em processo de demarcação, além de dar atenção à s populações indÃgenas em contexto urbano
Dúvidas não faltam sobre os papéis que ficarão a cargo do Ministério dos Povos IndÃgenas. Um deles é sobre o orçamento, já que por se tratar de uma nova pasta, ainda não se sabe quanto o futuro ministro poderá contar. Adriano Karipuna enfatiza que ações imediatas precisam ser adotadas, tais como a retirada de invasores das TIs, a fiscalização e vigilância dos territórios, proteção da integridade fÃsica dos indÃgenas (medida protetiva) e a ampliação das estratégias que fomentem a economia indÃgena agroecológica e de extrativismo e reativação de povos de vigilância.
Adriano Karipuna destaca que é preciso dar atenção à situação dos indÃgenas que vivem nas áreas urbanas e lembrou da saúde mental dos povos que estão em constante ameaça de morte em seus próprios territórios. âTambém precisam ser cancelados todos os projetos que são anti-ambientais e anti-indÃgenas. E quero ressaltar a importância de mais indÃgenas estarem ocupando as universidades. Com os cortes feitos na educação pelo governo Bolsonaro, também fomos afetadosâ, relembra.
Demarcação de territórios
O presidente da Federação dos Povos IndÃgenas do Alto Rio Negro (Foirn), Marivelton Baré, comenta sobre o entusiasmo com a criação do órgão, mas lembra que não basta ter uma pessoa indÃgena à frente do ministério. à preciso que o corpo técnico também seja formado por indÃgenas. âà importante e estamos preparados para assumir e desenvolver os trabalhos, junto aos territórios demarcados, assim também aos que estão em processo de demarcação, além de dar atenção à s populações indÃgenas em contexto urbanoâ, afirma.
Marivelton Baré avalia que o ministério cumprirá a efetivação dos direitos constitucionais aos povos indÃgenas, como nunca se teve antes na história do Brasil, além de recuperar e melhorar a polÃtica indÃgena do paÃs, que ele afirma ter sido âtotalmente acabada e inviabilizada pelo governo Bolsonaroâ.
A liderança indÃgena acredita que a Fundação Nacional do Ãndio (Funai) será parte integrante na sua totalidade deste ministério, que retomará os processo de demarcação no paÃs e também implementará a polÃtica nacional de gestão ambiental e territorial indÃgena, a partir do diálogo e a participação ativa e representativa do movimento indÃgena. Ele afirma que isso só será possÃvel com o movimento indÃgena organizado no Brasil.
Dentro das estruturas governamentais, a Funai faz parte do Ministério da Justiça. Até o momento desta publicação, não há uma definição sobre a transferência do órgão indigenista para outra pasta.
A Foirn teve representação no Grupo de Trabalho dos Povos Originários, criado pela equipe de transição do presidente eleito, e destacou como prioridades a retomada e continuidade dos processos de demarcação. Sobre as situações das TIâs, a Foirn informou à Amazônia Real que, no Alto Rio Negro tem uma terra para homologação, duas para demarcação fÃsica e posterior homologação e mais duas para a publicação do Relatório Circustanciado de Identificação e Delimitação (RCID), para que o processo tenha continuidade.
A expectativa é que, com o fortalecimento da Funai e a recriação das coordenações técnicas locais e lotação de profissionais, sejam ampliadas as equipes de trabalho, assim como ocorrerá a reestruturação dos Distritos Sanitários Especiais IndÃgenas.
âExiste a necessidade de infraestruturas adequadas, não só na ponta, mas também para que os trabalhos das equipes multidisciplinares possam atender o nosso povo, dentro do território. à o momento de reorganizar e isso é uma demanda nacional. à preciso implementar o Fundo IndÃgena para apoiar as ações de demandas dos planos de gestão ambiental e territorial das terras indÃgenas, que já foram criadosâ, lembra Marivelton Baré.
âO narcotráfico e o garimpo ilegal têm tomado conta e segue em uma omissão do Estado, sem contenção nenhuma ou mesmo ação integrada para coibir essas atividadesâ, diz o lÃder Baré. Ele afirma ser necessário que o movimento indÃgena possa fazer indicações de aliados em órgãos federais estratégicos, que somam forças e que os indÃgenas possam ter o protagonismo para fazer acontecer e reconstruÃrem a polÃtica indÃgena do Brasil. (Colaborou Kátia Brasil, de BrasÃlia)
*ElaÃze Farias é jornalista e editora de conteúdo da Amazônia Real; Leanderson Lima é jornalista com 18 anos de experiência profissional no Amazonas e vencedor do Prêmio Petrobras de Jornalismo de 2015; Vivianny Matos é paraense, graduada em Comunicação Social, habilitação Jornalismo, com MBA em Gestão Estratégica de Marketing e Comunicação Digital

Em termos de representatividade, a Câmara Federal, Historicamente tem “cumprido essa função” e desde que o parlamentar seja inerente a causa! A criação do Ministério deverá enfraquecer ainda mais a FUNAI, como se esperava com a sua criação: Representar os IndÃgenas! E abre “brecha” para que Congressos vizinhos se animem a “avançar” com a causa indigena pela nossa Amazônia (Amazônia Legal assim chamada) e, como Povo Autônomo que IndÃgenas na prática é, venha a ser postulado no Congresso Brasileiro a ampliação da área localizada em PaÃses vizinhos, incluindo a Guiana Francesa que não por acaso Macron se interessa pela Amazônia, “ora” Brasileira!!!