A carta dos economistas, banqueiros e empresários, que Merval Pereira antecipou no âGloboâ de domingo e já conta com mais de 500 assinaturas, é alerta importante, não só ao presidente Jair Bolsonaro e ao ministro Paulo Guedes, mas também ao empresariado que, sabendo da gravidade da crise sanitária, silencia. Os signatários – ex-ministros Pedro Malan, Mailson da Nóbrega e Pedro Parente; o ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga; banqueiros Pedro Moreira Salles e Roberto Setubal; economistas Elena Landau, Monica De Bolle e Laura Carvalho, entre outros – se articularam como pessoas fÃsicas, mas corporações e marcas por trás de muitos deles deveriam também se manifestar. Com atos, além de palavras.
Há instituições de ensino, bancos, gestoras de recursos, grandes exportadoras à s quais esses profissionais estão ligados. O exemplo da Volkswagen – que, em acordo com sindicatos de trabalhadores, decidiu suspender a produção e evitar o deslocamento de seus 15 mil funcionários – mostra que é possÃvel ir além. A montadora, marca emblemática do setor, deveria servir como farol para seus pares, e atraÃ-los para iniciativas semelhantes.
Hoje, foi a vez de a Ambev anunciar a conversão de uma cervejaria em unidade de envasamento de cilindros de oxigênio para São Paulo, onde o total de internações bate recorde. No inÃcio do ano, assistimos com perplexidade à morte de brasileiros em Manaus por asfixia, em razão do desabastecimento. Ali, a logÃstica de distribuição enfrentava o desafio da longas distâncias, percorridas em balsas. De Belém a Manaus, de onde partiram cilindros, são sete dias de deslocamento fluvial.
São Paulo é o estado mais rico do paÃs, tem a capital mais estruturada. Ainda assim, não passa incólume pelo salto na demanda por oxigênio por pacientes de covid-19. As novas cepas do coronavÃrus que têm transmissão mais veloz e, por alcançar a população mais jovem, resultam em temporadas mais longas em hospitais e um consumo individual maior de oxigênio.
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Veja o que já enviamosA White Martins, principal fornecedora, quantificou a mudança. Desde a virada do ano, o consumo de oxigênio lÃquido por hospitais públicos e privados do estado de São Paulo saiu de 151 mil para 313 mil metros cúbicos diários. A demanda em dobro levou ao aumento de 51% na frequência de viagens de entrega. Na capital, foram 63% mais viagens para dar conta de necessidades diárias ampliadas de 75 mil para 166 mil metros cúbicos. Pelo agravamento da pandemia, a empresa informou que está com todas as unidades de produção do Brasil trabalhando 24 horas por dia, sete dias por semana.
O presidente da República já deu sinais suficientes de que não vai decretar ou apoiar lockdown. Pelo contrário, segue atacando governadores e prefeitos que, com o sistema de saúde em colapso, recorrem a medidas restritivas. Avança no radicalismo, faz ameaças, usa o Exército para intimidar Legislativo, Judiciário, opositores. Não perde uma oportunidade de se aglomerar. Domingo, festejou aniversário e entregou fatia de bolo a admiradores reunidos em frente à residência oficial. Cantaram parabéns sem se importar com os quase 30 óbitos por covid-19 registados nas 24 horas anteriores no Distrito Federal.
Governadores, prefeitos, ministros do Supremo Tribunal Federal, presidentes da Câmara (Arthur Lira) e do Senado (Rodrigo Pacheco), em maior ou menor intensidade, têm se articulado para combater a pandemia. Grandes empresas e instituições podem mostrar que têm responsabilidade social apoiando (ou se antecipando) à s lideranças locais, tornados protagonistas, ante o desgoverno federal. Parar, como fará a Volks a partir desta quarta, é uma alternativa. Mas também é possÃvel retomar/ampliar teletrabalho, estabelecer rodÃzios entre equipes para minimizar deslocamentos nas cidades.
à possÃvel manter trabalhadores domésticos e dos condomÃnios que os servem em casa, com remuneração. à possÃvel aderir à s iniciativas de doação de recursos para campanhas humanitárias que mantenham os mais pobres alimentados durante o isolamento. Isso foi feito no ano passado, nos meses iniciais da pandemia. Precisa ser retomado agora, quando a situação é ainda mais grave.
O empresariado comprometido com as recomendações da ciência, sensÃveis ao sofrimento do povo – tal como organizações sociais, associações comunitárias, universidades, lÃderes religiosos -, precisa se mobilizar pelo isolamento social, pela distribuição e uso de máscaras eficientes, pela reposição de medicamentos e insumos nos hospitais, pela vacinação urgente, urgentÃssima.
O Brasil virou o paÃs das cartas de alerta e repúdio. Desde 2019, lemos apelos de ex-ministros de Meio Ambiente, Saúde, Educação, Ciência e Tecnologia, Relações Exteriores, Cultura, Fazenda, ex-presidentes do Banco Central, do IBGE. Documentos que carregam simbolismo, mas não são suficientes para a gravidade do que estamos atravessando, um paÃs lançado à própria sorte, em colapso hospitalar e funerário, sem vacinas em quantidade suficiente, com a miséria galopante.
Não sairemos dessa tragédia em silêncio. à hora de transformar discurso em ação.
