Há exatamente um ano, em 23 de janeiro de 2020, a cidade chinesa de Wuhan era submetida a um lockdown para tentar conter a pandemia do novo coronavÃrus. Naqueles dias, Donald Trump e seus seguidores, como Jair Bolsonaro, procuravam colar na testa da China a culpa pela pandemia. Mas hoje, após a potência oriental ter conseguido controlar a doença (embora novos casos tenham aparecido por lá), a disputa é: quem vai salvar o mundo emergente e pobre?
Poucos paÃses têm condições de disputar a condição de âsalvador da pátriaâ. Três deles são do Brics: China, Ãndia e Rússia, todos produzindo suas vacinas. Com a desastrosa polÃtica externa de Bolsonaro, o B do acrônimo encolheu. O Brasil se viu, na última semana, na humilhante posição de implorar pressa na entrega de vacinas e insumos para os dois paÃses asiáticos milenares e rivais.
Enquanto os outros grandes emergentes investiam tudo em seus cientistas e se posicionavam positivamente na diplomacia da vacina, o Brasil estava ocupado demais em negar a ciência e empurrar à sua população âtratamentos precocesâ inúteis com remédios como cloroquina. Como se não bastasse isso, o paÃs cometeu barbaridades diplomáticas contra a China em nome do amor de Bolsonaro a Trump, contrariando interesses nacionais e econômicos.
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Veja o que já enviamosEsse é o pano de fundo que resultou na confusão dos últimos dias, com o atraso dos insumos da China e a venda para o Brasil dos dois milhões de doses de vacinas da Oxford/Astrazenca fabricadas na Ãndia. As relações entre Ãndia e Brasil são boas e havia o interesse indiano de ser a mão amiga, no momento em que a China faz jogo duro no envio de insumos.
Mas a parte brasileira foi açodada e inconveniente. Há 10 dias, mesmo sem o o sinal verde das autoridades indianas, houve o anúncio espalhafatoso de que um avião da Azul decolaria em direção a Mumbai para pegar as vacinas e voltar no domingo, 17. A aeronave estava adesivada com o slogan âBrasil imunizado: somos uma só naçãoâ e a imagem do Zé Gotinha.
A Ãndia anunciou, é claro, que não poderia vender doses antes de começar a vacinar a sua população (1.3 bilhão de humanos), o que começou a ocorrer no sábado, 16. A primeira fase do programa de imunização da Ãndia â o maior do mundo â planeja vacinar 300 milhões de habitantes até meados do ano.
Em segundo lugar, no planejamento estratégico indiano da diplomacia da vacina estava a chamada âPolÃtica Primeiro os Vizinhosâ. A doação dos imunizantes começou na quarta-feira, 20. No dia seguinte a encomenda do Brasil foi embarcada.
O paÃs, que mantém e pretende reforçar uma posição de liderança regional, não mandaria as vacinas antes de enviar, por exemplo, para o Nepal e outros vizinhos, que vêm sendo cortejados pela rival China com investimentos em infraestrutura. As duas potências asiáticas têm sérios problemas de fronteira que resultaram em uma guerra em 1962 e em um sério conflito ano passado, causador da morte de 20 soldados indianos nas montanhas geladas dos Himalaias, 4 mil metros acima do nÃvel do mar.
A diplomacia indiana mantém independência do chefe de Estado, defendendo interesses estratégicos e de segurança, conceitos esquecidos na gestão do ministro Ernesto Araújo, que segue o comando de Eduardo Bolsonaro, presidente da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara dos Deputados. O primeiro-ministro indiano Narendra Modi, um lÃder de direita, é pragmático e cumprimentou Joe Biden no dia seguinte à sua vitória. Agora, o imunologista Anthony Fauci, à frente do combate à covid-19, anuncia que a parceria com a Ãndia na guerra contra o vÃrus é fundamental.
Nessa disputa, os chineses, por sua vez, já anunciaram que vão enviar âde presenteâ meio milhão de doses de vacinas para o Paquistão até o fim de janeiro. Pequim vai doar vacinas também a Myanmar, Camboja e Filipinas. A rivalidade indo-chinesa está escancarada. O jornal chinês “Global Times”, por exemplo, publicou, neste sábado, 23, reportagem sobre as movimentações de indianos na China, em relação à vacina.
O dramalhão do envio das vacinas da Ãndia ao Brasil terminou no fim da tarde da sexta-feira, 22, com a chegada do avião trazendo as doses, encomendadas para a foto que o ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello tanto sonhava fazer antes do governador de São Paulo, João Dória. Mas quem ficou bem na foto mesmo foi Modi. à só espiar a conta do governante indiano, no poder desde 2014, no Twitter (rede social na qual ele é pioneiro): está lá uma procissão de agradecimentos dos chefes de Estado dos paÃses vizinhos e pobres, como Nepal, Sri Lanka e Maldivas. Esses e outros, como Bangladesh, Butão e Myanmar, receberam, antes do Brasil, 3,2 milhões de doses como presente da Ãndia. O paÃs vai doar e vender para vizinhos mais 17 milhões de doses nas próximas semanas.
Bolsonaro se uniu a esses chefes de Estado na fila de agradecimentos online. Antes mesmo de o avião com as doses chegar ao Brasil, o presidente brasileiro agradeceu a Modi: âNamaskar, primeiro ministro. O Brasil sente-se honrado em ter um grande parceiro para superar um obstáculo global. Obrigado por nos auxiliar com as exportações de vacinas da Ãndia para o Brasilâ, diz o tuÃte.
O post que acompanha essas palavras é ilustrado com uma imagem calculada para derreter o coração de qualquer hindu: o desenho de um triunfante Hanuman, uma das divindades mais populares da Ãndia do século 21. O Deus macaco é um verdadeiro herói em um dos épicos milenares mais importantes da Ãndia, o  Ramayana: Hanuman representa a força e o poder.
Na imagem postada por Bolsonaro, um Hanuman triunfante voa da Ãndia para o Brasil, carregando as vacinas. à uma referência a um trecho do Ramayana. Nele, Hanuman, que é um general macaco, voou para os Himalaias para colher ervas milagrosas com o objetivo de salvar Lakshmana, irmão do prÃncipe-herói Rama, na batalha contra demônio Ravana em Lanka (o atual Sri Lanka).
âA honra é nossa, presidente Jair Bolsonaro, por ser um parceiro de confiança do Brasil na luta conjunta contra a pandemia da covid-19. Nós continuaremos a fortalecer nossa cooperação na área da saúdeâ, replicou Modi, na rede social.
O ministro indiano das Relações Exteriores, S. Jaishankar, foi direto ao assunto, também no Twitter: âConfie na Farmácia do Mundo. Vacinas feitas na Ãndia chegam ao Brasilâ. O Instituto Serum, de onde vieram as vacinas da Oxford/AstraZeneca, é o maior fabricante de vacinas do mundo. A Ãndia criou até uma hashtag para a sua diplomacia da vacina: #vaccineMaitri. Maitri, do Hindi, significa amizade.
A Ãndia é o maior produtor de remédios genéricos do mundo (20% da produção global) e produz mais de 60% das vacinas do planeta. Há muitos anos, o paÃs tem estratégia contÃnua nessa área e vem defendendo de forma consistente a suspensão de direitos de propriedade intelectual das vacinas contra a Covid 19. O Brasil foi contra essa posição indiana, que hoje o beneficiaria. Dessa maneira, não tinha como o Brasil aparecer bem na foto.
