Em 2016, mais de 11 milhões de documentos foram analisados e esmiuçados por 370 jornalistas de 76 paÃses. Conhecida como âThe Panama Papersâ, a investigação ajudou a revelar a indústria das empresas de fachada no mundo, que envolvia chefes de Estado, ministros e parlamentares em dezenas de paÃses. Em 2018, o Consórcio Internacional de Jornalismo Investigativo (ICIJ) mobilizou um grupo de 250 jornalistas de 58 veÃculos para criar o âImplant Filesâ, uma base de dados confiável com informações sobre dispositivos médicos com defeito ou perigosos para a saúde que salvaram a vida de um monte de gente. No Brasil, em 2019, a operação “Vaza Jato” reuniu dados e áudios, obtidos pelo Intercept Brasil e divulgados por mais seis veÃculos, que puseram em xeque os métodos utilizados pelo MPF e pelo juiz Sérgio Moro para investigar casos de corrupção no paÃs.
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Essa lista de trabalhos colaborativos, envolvendo jornalistas e veÃculos de comunicação, é enorme e cresce cada vez mais. Hoje, além das duas redes mundiais, a ICIJ e a OCCRP (Organized Crime and Corruption Reporting Project), existem movimentos regionais de colaboração na Europa, no Sudeste Asiático e na América Latina. Nos paÃses, iniciativas desse tipo brotam pelos mais diferentes motivos. O Verificado, no México, o ReVerso, na Argentina, e o Comprova, no Brasil, foram criados para checar os movimentos de desinformação durante as eleições. O Editors for Safety, no Paquistão, trabalha para proteger a liberdade informação. A Alianza Rebelde, na Venezuela, tenta resistir à s condições muito adversas por que passa o jornalismo no paÃs.
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Para a diretora do Centro Latino-Americano de Investigação JornalÃstica, Maria Teresa Ronderos, que é uma das atrações do Festival 3i ((Inovador, Independente e Inspirador) de jornalismo, a colaboração jornalÃstica não é uma moda passageira, nem uma tendência, mas uma necessidade cada vez mais forte e que veio para ficar.  Para ela, três forças empurram esse movimento de colaboração no mundo: âo advento das novas tecnologias de comunicação, mais rápidas e baratas; a crise no modelo de negócio dos veÃculos tradicionais, e o extraordinário crescimento dos ataques à liberdade de informação em diversas partes do mundoâ.
[g1_quote author_name=”Maria Teresa Ronderos” author_description=”Diretora da Centro Latino-Americano de Investigação JornalÃstica” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]A competição não é mais entre jornalistas e veÃculos, mas é contra o oceano de informação de baixa qualidade que circula nas redes sociais, a desinformação robotizada e a velha propaganda oficial
[/g1_quote]Maria Teresa Ronderos tem uma visão curiosa sobre a exclusividade jornalÃstica, o chamado âfuroâ, que mobilizou gerações de jornalistas no Brasil e no mundo. Ela acredita que isso tende a virar peça de museu e que não faz mais tanto sentido: âEsse é um conceito antigo, dos tempos em que a informação era mais escassa. Hoje as pessoas se informam pelo WhatsApp e não estão preocupadas com o ‘furo jornalÃstico’. A competição não é mais entre jornalistas e veÃculos, mas é contra o oceano de informação de baixa qualidade que circula nas redes sociais, a desinformação robotizada e a velha propaganda oficialâ, garante.
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Eleita a jornalista do ano de 2014, na Colômbia, Ronderos faz uma lista dos ganhos de qualidade que uma cobertura colaborativa pode trazer para os veÃculos: âAs apurações, obviamente, são mais ricas, mais diversas e profundas. A probabilidade de erro diminui quando usamos os conhecimentos das reportagens locais e mais especializadas. Além disso, a repercussão da cobertura é maior e a segurança do jornalista aumenta. Sem contar, claro, que sai mais barato para todo mundoâ, explica.
E as desvantagens? Bem, a jornalista colombiana prefere falar em dificuldades. A começar pela própria comunicação, que exige tempo de paciência. Ela recomenda que antes de se começar um trabalho colaborativo de jornalismo se tenha clareza sobre os objetivos e o processo de apuração: âà preciso também ter espÃrito de solidariedade para incluir os veÃculos menores, mais frágeis e com menos recursos. Eles têm uma contribuição grande a darâ.
Maria Teresa conta que, neste momento, o Centro Latino-Americano de Jornalismo Investigativo (Clip) trabalha com três iniciativas de colaboração novas, envolvendo 20 veÃculos de comunicação de vários paÃses, dos Estados Unidos até o Brasil. Mas a ideia é fortalecer ainda mais o Clip para garantir que meios médios e pequenos possam fazer também os seus trabalhos de investigação: âQueremos que o cidadão, que está cansado dos abusos de poder públicos e privados na América Latina, encontre no jornalismo sério um aliado forte para enfrentar essa situaçãoâ.

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