Quando a primeira morte de um indÃgena pela covid-19 foi registrada pela Sesai (Secretaria Especial de Saúde IndÃgena), no dia 10 de abril, já havia pelo menos três óbitos apontados pelas entidades com base na Amazônia. Desde então, esses números jamais se encontraram: no boletim desta sexta-feira, a Sesai, que nunca deixou de fazer balanços diários mesmo quando houve o apagão de números no Ministério da Saúde, contava 5.412 casos e 132 mortes; a Apib (Articulação dos Povos IndÃgenas do Brasil) registrava até o levantamento do dia 24/06, 8.066 casos (49% a mais) e 359 óbitos, quase três vezes (172% a mais). O avanço da covid-19 entre os indÃgenas – pelas contas da Apib – chega a 112 etnias (111 brasileiras, mais a etnia Warao, venezuelanos refugiados em nosso paÃs): eram apenas 44 atingidas um mês atrás.
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A diferença tem como explicação principal o fato de a Sesai só considerar os indÃgenas aldeados, que vivem em territórios atendidos pels Dseis (Distritos Sanitários Especiais de Saúde IndÃgena. Nas contas da Apib e do Comitê Nacional pela Vida e Memória IndÃgena, formado por várias entidades, entram também vÃtimas que vivem em áreas urbanas e foram atendidas diretamente pelo SUS. Os indÃgenas, suas entidades e especialistas alertam para a falta de ações emergenciais do governo para evitar que povos sejam dizimados. São os caciques e outras lideranças que vem estabelecendo restrições de circulação e outras medidas para tentar evitar o contágio, principalmente na Amazônia. Neste ponto, Sesai e Apib concordam: a Região Amazônica concentra a maioria dos casos de covid-19 entre os indÃgenas brasileiros.
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Os números da Sesai estão divididos por número de casos pelos seus distritos sanitários. A área com maior número de casos é o Alto Rio Solimões, com 600 infectados: o distrito atende sete municÃpios do Amazonas onde vivem 70 mil indÃgenas, de 27 etnias. Na sequência, em número de casos de covid-19, estão os DSEIs Maranhão, com 540; Rio Tapajós, no Pará, com 466, e Guamá-Tocantins, tabém no Pará, com 442. Os dados sobre óbitos mostram a mesma concentração no Alto Rio Solimões onde a Sesai conta 24 vÃtimas fatais: seguem-se registros de mortes nos DSEIs Leste Roraima (11), Alto Rio Negro (10), Guamá-Tocantins (10), Maranhão (10) e Rio Tapajós (10). Os dados da Apib são separados por estados: são 152 mortes registradas no Amazonas, 67 no Pará, e 41 em Roraima. De acordo com levantamento junto à s secretarias estaduais, 19 unidades da federação já registram casos de covid-19 entre indÃgenas.
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Letalidade em  alta na Amazônia
Os números alarmantes na Região Amazônica levaram o IPAM (Instituto de Pesquisa da Amazônia) a realizar uma pesquisa , em parceria com a Coiab (Coordenação das Organizações IndÃgenas da Amazônia Brasileira), constatando que a taxa de infecção pela doença por 100 mil habitantes entre os indÃgenas é 84% mais alta do que a taxa do Brasil. Já a taxa de mortes por 100 mil habitantes revela um cenário ainda mais preocupante: de acordo com o IPAM, a taxa é 150% mais alta que a média do Brasil e supera em 20% a incidência de falecimentos por conta da doença na Região Norte do paÃs. A taxa de letalidade (número de óbitos pelo número de casos confirmados) foi de 6,8% entre os indÃgenas na Amazônia, expressivamente alta frente aquelas registradas para o Brasil (5%) e para a região Norte (4,5%).
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A pesquisa – concluÃda com números até 14 de junho e divulgada esta semana – aponta que casos de covid-19 aumentaram consideravelmente entre a população indÃgena da Amazônia. Desde o primeiro caso oficialmente notificado, no começo de abril, a Sesai registrou 2.219 casos, enquanto o levantamento da Coiab contabilizou 1.443 adicionais, totalizando 3.662 casos confirmados: o que indicaria uma subnotificação oficial de 39%. “Esta subnotificação no número de óbitos é consequência, não só, mas também do protocolo oficial que exclui indÃgenas residentes, mesmo que temporariamente, nas cidades. Neste caso, a SESAI reportou 65% (86) do total dos 249 falecimentos apurados pela Coiab até o dia 14 de junho de 2020”, destaca nota técnica, divulgada pelos pesquisadores do IPAM.
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Só no Amazonas, de acordo com dados da Fundação de Vigilância em Saúde (FVS), 1034 indÃgenas foram diagnosticados com a covid-19. Além dos casos registrados nos sete distritos sanitários da Sesai no estado, a FVS registrou 204 casos e sete mortos em Manaus. De acordo com reportagem da BBC Brasil, no sudeste do Pará, a covid-19 matou 22 indÃgenas nas últimas semanas, além de ter infectado pelo menos 638 outros integrantes de 12 povos. Ações locais exemplificam a discrepância de dados: há duas semanas, a Prefeitura de Marabá realizou testes rápidos na TI Sororó, da etnia Aikewara, e identificou 134 pessoas com coronavÃrus; na mesma época, a Sesai havia identificado somente oito casos de covid-19 na TI Sororó. Em Guajará-Mirim, onde está a maior população indÃgena de Rondônia com seis mil pessoas, será aberto semana que vem um hospital de campanha após o registro de 54 casos em nove aldeias. DeÂ
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Vó Bernal, idosa indÃgena que morreu de covid-19 em Roraima: taxa de letalidade entre indÃgenas é maior que a do paÃs e da região (Foto: Apib)
Pelos registros das entidades indÃgenas, a última morte foi registrada no Hospital Geral de Roraima, na quarta-feira à noite: Bernaldina Macuxi, de 75 anos, conhecida como Vó Bernal, da comunidade indÃgena Maturuca, da terra indÃgena Raposa Serra do Sol. Na véspera, o Conselho Indigenista de Roraima comunicou a morte do lÃder da etnia taurepang João Luis Nazareno Lima, de 62 anos. De acordo com dados da Coiab, 42 indÃgenas já morreram no estado.
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VÃtimas de norte a sul do paÃs
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Pelos dados da Sesai, atualizados na noite de quinta-feira, o último óbito foi de um indÃgena de 82 anos, da etnia Kaingang, no Rio Grande do Sul. Morador de aldeia do municÃpio de Planalto, no noroeste do estado, o ancião passou mais de um mês internado antes de morrer no fim de semana passado. Os dois registros anteriores de morte feitos pela secretaria indÃgena do Ministério da Saúde eram da mesma etnia: duas mulheres – uma de 96 anos, a outra de 76 anos, ambas moradoras de aldeia no municÃpio catarinense de Ipuaçu. No Paraná, a aldeia indÃgena Avá-Guarani Tekoha Ocoy, no municÃpio de São Miguel do Iguaçu, no oeste do estado, 13 indÃgenas testaram positivo para a Covid-19 – a aldeia, que tem 210 moradores, está isolada e equipe do governo estadual fizeram desinfecção de casas, escolas, postos de saúde e espaços de convivência.
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No Rio de Janeiro, o cacique Domingos da Aldeia Sapukai, em Angra dos Reis, no sul do estado, está internado com covid-19 na UTI do Hospital da Santa Casa: seu estado é grave. Outros três indÃgenas da mesma aldeia também estão internados no hospital. De acordo com a secretaria municipal de Saúde, há mais de 40 registros do novo coronavÃrus na comunidade indÃgena. Em São Paulo, a Comissão Pró-Ãndio afirma que o estado tem mais de 300 casos; são pelo menos sete mortos pelos registros da Apib . MunicÃpio com maior número de casos de covid-19 em Mato Grosso do Sul, Dourados registra 131 casos na reserva indÃgena – com maioria da etnia guarani-kaiowá. Um indÃgena já morreu.
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A população indÃgena brasileira é de quase 800 mil pessoas distribuÃdas em quase 6 mil aldeias -são 308 etnias. A Secretaria Especial de Saúde IndÃgena é a responsável pela atenção primária a estas comunidades por meio de 34 Distritos Sanitários Especiais IndÃgenas (DSEI), com 14 mil profissionais distribuÃdos em 367 Polos Bases, 67 CASAIs (Casa de Saúde IndÃgena) e 1199 UBSI (Unidade Básica de Saúde IndÃgena).
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E na vizinhança também
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De acordo com levantamento da Coica (Coordinadora de las Organizaciones IndÃgenas de la Cuenca Amazónica – Coordenadora das Organizações IndÃgenas da Bacia Amazônica), foram registrados casos de covid-19 em todos os paÃses amazônicos: além do Brasil, já haviam sido registrados BolÃvia, Colômbia, Venezuela, Guiana, Guiana Francesa, Peru, Equador e Suriname. Os dados do boletim semanal da Coica do dia 24 de junho apontavam para um total de 11.375 casos e 780 mortes entre as populações indÃgenas. Pelo menos, 147 povos indÃgenas registraram infectados pelo novo coronavÃrus. Em uma semana, houve um aumento de 2.642 casos e 84 mortos.
Levantamento da Coica – Coordenação das Organizações IndÃgenas da Bacia Amazônia) – mostra o avanço da covid-19 entre indÃgenas em todos os paÃses amazônicos
O Peru tem o maior número de mortes indÃgenas (369), com 3.169 casos no total. Na Amazônia peruana, a maioria dos casos de covid-19 foi registrada entre os povos indÃgenas, segundo dados da Coica. Em todo o paÃs, as mortes indÃgenas de covid-19 representam 4% de todos os óbitos. Depois de Brasil e Peru, a Colômbia tinha o maior número de infectados entre os povos indÃgenas: 2.208 casos – número alto já que o paÃs está as nações sul-americana pandemia com relativamente sucesso. A Coica aponta 25 mortes de indÃgenas, a maioria no municÃpio de LetÃcia, na fronteira amazônica com Brasil e Peru, que registrou, pelo menos, 12 óbitos em comunidades indÃgenas colombianas. Na BolÃvia, a Coica registrou 155 e 57 mortes – o que significaria de taxa de mortalidade de 35%. No Equador, foram diagnosticados 649 casos de covid-19 entre indÃgenas, com 33 óbitos – uma taxa de mortalidade de 5,5%.Â
Frase do dia 27 de maio
“Se o homem continuar a destruir a terra, os ventos voltarão com mais força, não somente uma vez, mas várias vezes, cedo ou tarde. Esses ventos vão nos destruir”
Raoni Metuktire – cacique caiapó em entrevista na Conexão Planeta
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