Izabel Santos*
Manaus (AM) â Valéria Paye relata que contar as vÃtimas da Covid-19 tem sido o trabalho mais doloroso da sua vida. âSó eu sei o que estou passandoâ¦â desabafa, por telefone, na entrevista à Amazônia Real. Depois, após oito segundos de silêncio, ela dá um suspiro: âà difÃcil falar; é dificÃlimo falar dissoâ, admite, em lágrimas, a assessora polÃtica da a Coordenação das Organizações IndÃgenas da Amazônia Brasileira.
Desde março, a Coiab se organizou para buscar informações sobre a pandemia do novo coronavÃrus de distintas formas e passou a publicar um boletim com os dados captados pela rede coordenada por Valéria Paye. âEu nunca deixo de pensar como essa doença trouxe tanta dor, tantas perdas. Acompanhar a evolução da doença, entre nossas lideranças, professores e pessoas que foram referência para o movimento indÃgena é muito dolorosoâ, relata a assessora da Coiab. âEu sofro até hoje, porque não consigo relaxar e não pensar em como essa doença chegou tão agressiva, principalmente na Amazônia brasileira. Se a gente compara com outras regiões do Brasil, nós vemos que não estávamos preparadosâ.
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Veja o que já enviamosNão é só mais um número, são pessoas que fizeram a diferença na caminhada do movimento indÃgena. Eu me apego à s boas lembranças e ao legado que essas pessoas deixaram quando passaram aqui para continuar com esse trabalho
[/g1_quote]O informativo âCovid-19 e Povos IndÃgenas da Amazônia Brasileiraâ, divulgado semanalmente nas redes sociais da organização, é um contraponto à s informações fornecidas pela Secretaria Especial de Saúde IndÃgena (Sesai), do Ministério da Saúde. Normalmente, Coiab e Sesai divergem na contagem de infectados e mortos, já que o órgão federal não inclui na contagem indÃgenas de contexto urbano. Mas, mais que números, os dados representam vidas perdidas. “à muito difÃcil perder pessoas que você conhece a história e, de repente, vão embora assim. Mesmo passados seis meses eu não consigo falar sobre isso sem as memórias. Dói demaisâ, desabafa Valéria Paye, indÃgena do povo Katxuyana, da Aldeia Missão Tiriyó, na região do Tumucumaque, no Amapá.
O boletim da Coiab de 28 de setembro registra 24.866 casos confirmados em 132 povos da Amazônia; já morreram na região 667 indÃgenas de 98 etnias. O Amazonas, primeiro epicentro da doença no Brasil, tem o maior número de indÃgenas atingidos pela covid-19: 5.781 pessoas confirmadas e 200 mortos. âNão é só mais um número, são pessoas que fizeram a diferença na caminhada do movimento indÃgena. Por isso que arrancamos força, não sei de onde, para fazer esse processo e contribuir para melhorar o atendimento em saúde no futuroâ, destaca Valéria.
Lideranças indÃgenas históricas, como Aritana Yawalapiti, Fernando Makari e Sergio Xexewa Wai Wai e Dionito Souza Macuxi, e anciões detentores dos saberes da floresta, como Cidaneri Xavante, foram vÃtimas da pandemia. âEu me apego à s boas lembranças e ao legado que essas pessoas deixaram quando passaram aqui para continuar com esse trabalhoâ, afirma a assessora da Coiab, que diariamente entra em contato com lideranças, representantes de organizações da rede da Coiab e servidores da saúde indÃgenas para receber informações sobre casos que não entram no boletim atualizado diariamente pelo site da Sesai.
De BrasÃlia, Valéria Paye conversa com indÃgenas que moram em terras, comunidades e cidades para mapear os povos atingidos nos estados. Ela lembra que, desde o inÃcio da pandemia, a Coiab vem tentando dialogar, em vão, com o governo. âHá um descuido da polÃtica, como um todo, em relação à saúde. Não houve por parte das instituições uma atuação para o esclarecimento da doença. Eu falo isso porque entrei de cabeça na produção de materiais de informação enviados para as aldeiasâ, conta.
De acordo com a assessora da Coiab, a falta de ação governamental provocou embates entre as organizações indÃgenas e dirigentes da Funai e da Sesai. “Antes de a situação chegar ao estágio que está, com muitos casos positivos, em Mato Grosso, Tocantins, Rondônia e Acre, quando ainda não tinha nenhum caso nesses estados, já falávamos âvamos construir, fazer uma parceria, um trabalho preventivo, para quando a doença chegar a gente não ter um grande impactoâ. Mas nada foi feitoâ, recorda Valéria, afirmando que a Sesai foi negligente. âEla faz um trabalho muito mais de burocracia, do tipo âa gente fez isso, orientou isso, fez o documento talâ. Sim, mas para efetivação, o que que foi feito?â
[g1_quote author_name=”Aguinilson Tikuna” author_description=”LÃder da comunidade Tikuna Wotchimaücü, em Manaus” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Os moradores aqui da comunidade têm vergonha de ir ao hospital, à UBS. Eles dizem âninguém lá me entende, ninguém me escutaâ, porque temos a nossa cultura, a nossa maneira de falar. Ãs vezes, a pessoa não entende o que a gente fala
[/g1_quote]A primeira morte entre indÃgenas do Brasil também foi registrada oficialmente na Amazônia: um estudante Yanomami, de 15 anos, que morreu em 9 de abril por complicações de uma infecção no pulmão devido à covid-19. Ele apresentou os primeiros sintomas em 18 de março, passou por diversos atendimentos, e chegou a receber alta médica. Como não melhorava, foi testado para a covid-19, mas só em 6 de abril. Três dias depois, ele morreu no Hospital Geral de Roraima, em Boa Vista.
O jovem Yanomami era da Comunidade Helepe, na Terra IndÃgena Yanomami, mas estudava o ensino fundamental em uma escola da Comunidade Boqueirão, na Terra IndÃgena Boqueirão, dos povos Macuxi e Wapichana, no municÃpio de Alto Alegre, no norte de Roraima. O local registra grande presença de garimpeiros. Esses foram os primeiros episódios do que viria a seguir, traduzida em uma disseminação devastadora da doença sobre os povos indÃgenas da Amazônia.
Na discrepância entre números, o descaso com indÃgenas fora das aldeias
De acordo com dados da Sesai, até terça-feira (29/09), eram 28.286 casos confirmados de covid-19 e 443 mortes entre os indÃgenas no Brasil. Na Amazônia, a Sesai contabilizava 21.021 casos confirmados de Covid-10 e 328 óbitos. Na contagem da Coiab, são 24.866 casos confirmados da doença e 667 óbitos apenas entre os povos indÃgenas da Amazônia.
Por trás desta diferença entre dados e suas fontes, Sesai e Coiab, reside um problema de outra natureza. Valéria Paye lembra que, durante a pandemia, muitos indÃgenas que buscaram atendimento em unidades de saúde fora de seus territórios foram registrados como pardos. âIsso faz parte dessa polÃtica genocida e preconceituosa. A negação da identidade indÃgena é uma parte do racismo, do preconceito estrutural. Os relatos são muitÃssimo fortes. Esses parentes tiveram a identidade indÃgena retiradaâ, explica a assessora da Coiab.
Antes da morte do jovem Yanomami, já havia ocorrido um primeiro óbito de indÃgena por covid-19, que havia ficado de fora dos registros da Sesai. Em 19 março, em Alter do Chão, no municÃpio de Santarém, no Pará., Donaâ âLusia dos Santos Lobato, de 87 anos, morreu vÃtima da doença: era uma âliderançaâ âindÃgena do povo âBorari, muito respeitada na Amazônia. A sua morte chocou os moradores da região. Mas, como ela não morava em aldeia, mas em área urbana, o caso foi tratado como sendo o de uma pessoa não-indÃgena.
Como os hospitais estavam registrando o nosso povo como pardo, tivemos muitas brigas para fazer ressalvas e nos registrar como indÃgenas do povo Kokama. Muitos indÃgenas da área urbana de Tabatinga abriram mão, negaram a identidade, porque o sistema [SUS] não aceita a identificação como indÃgena, só como pardo
[/g1_quote]A situação dos indÃgenas em contexto urbano, aqueles que vivem nas cidades e fora das terras indÃgenas homologadas pela Funai, é preocupante. Eles não têm atendimento de saúde diferenciado e, se não puderem dispor de um plano de saúde, entram na fila do SUS como não-indÃgenas. O problema nesse atendimento é a diferenciação cultural. âOs moradores aqui da comunidade têm vergonha de ir ao hospital, à UBS. Eles dizem âninguém lá me entende, ninguém me escutaâ, porque temos a nossa cultura, a nossa maneira de falar. Ãs vezes, a pessoa não entende o que a gente falaâ, contou Aguinilson Tikuna, liderança e morador da comunidade Tikuna Wotchimaücü, localizada em Manaus.
No inÃcio da pandemia, essa comunidade perdeu o seu vice-cacique Aldenor Tikuna. Ele morreu a caminho do hospital e seu corpo esperou por horas até ser recolhido pelo SOS Funeral. âApós a morte do Aldenor, recebemos visitas, atendimento e formação. Mas precisamos de acompanhamento. Aqui não temos nenhum agente de saúde indÃgena contratado pela prefeitura ou por alguma ONG, e essa é uma necessidade de todas as comunidades indÃgenas em Manausâ, protestou Aguinilson.
Identidade apagada na hora da morte
Cacique do povo Kokama, Edney da Cunha Samias mora no municÃpio de Tabatinga, na região do Alto Solimões, no Amazonas, e é funcionário da secretaria municipal de Saúde. Ele perdeu 17 parentes por causa da covid-19 e contou que indÃgenas da sua etnia sofreram discriminação racial ao buscar atendimento no Hospital de Guarnição de Tabatinga, mantido pelo Exército. âComo os hospitais estavam registrando o nosso povo como pardo, tivemos muitas brigas para fazer ressalvas e nos registrar como indÃgenas do povo Kokama. Muitos indÃgenas da área urbana de Tabatinga abriram mão, negaram a identidade, porque o sistema [SUS] não aceita a identificação como indÃgena, só como pardoâ, contou Samias à Amazônia Real. âNo momento de dor, muitas pessoas não queriam ficar brigando para corrigir a identificação. No hospital militar de Tabatinga, os médicos e outros profissionais de saúde tratavam os Kokama como pardos ou brancos, mas não como indÃgenasâ, acrescentou Samias.
Segundo levantamento realizado pela Open Knowledge Brasil, divulgado no último dia 22, 82% dos estados brasileiros são transparentes com relação ao quesito raça e cor, mas para os da região amazônica esse percentual cai para 78%. Nas capitais do Brasil, esse número é 58% e nas amazônicas, de 44%. No Amazonas, o Ministério Público Federal recomendou ao Ministério da Saúde adotar medidas para tornar obrigatório o preenchimento por autodeclaração do campo raça e cor. Isso significa implementar, com obrigatoriedade de preenchimento por autodeclaração, o campo etnia nos sistemas e-SUS Notifica (e-SUS-VE) e no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan).
[g1_quote author_name=”Mário Nicácio” author_description=”Vice-coordenador da Coiab” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Ainda vai demorar um pouco para a gente pensar, porque temos outras lideranças tradicionais que resistiram como Euclides, Raoni, Davi, Clóvis, Nara. Mas, por conta do nosso luto, é difÃcil prever o que vamos passar amanhã
[/g1_quote]A medida foi tomada como efetiva pela Coiab, que está dialogando com os órgãos ministeriais de outros estados da Amazônia brasileira para adoção da mesma iniciativa. A ideia é que a identificação da raça e da etnia seja incorporado no sistema SUS. No Amazonas, por conta da recomendação do MPF, essa medida está mais próxima de se tornar realidade.
Com o atendimento em saúde precarizado em todo o PaÃs, muitos indÃgenas resgataram costumes tradicionais como o uso de plantas medicinais e benzimentos para tratamento da Covid-19. Chá de alho, jambu e defumações foram algumas das matéria-primas usadas por populações da Amazônia para tentar evitar a doença ou se recuperar mais rapidamente, em caso de infecção. Os indÃgenas encontraram soluções entre seu próprio conhecimento ancestral.
âEm muitos locais, tivemos que retomar a medicina tradicional. à como tivesse caÃdo a ficha de que estávamos muito dependentes da medicina ocidental. Quando a doença chegou, e não tÃnhamos remédio, para onde recorremos? Para os nossos conhecimentos, para a medicina tradicional, os benzimentos, ao fortalecimento da relação espiritual. Isso foi muito forte para a genteâ, contou Valéria Paye. âà mais uma lição para que a gente reflita sobre a medicina tradicional. Na falha do sistema, estamos recorrendo aos nossos saberes e isso que está fazendo a diferençaâ, acrescentou. A Associação das Mulheres IndÃgenas do Médio Solimões e Afluentes (Amimsa) relatou à  Amazônia Real que o atendimento em saúde e o combate à covid-19 na região continua precário, mesmo depois de seis meses do inÃcio da pandemia.
O vice-coordenador da Coiab, Mário Nicácio, faz um apelo para que a sociedade se una na luta por assistência em saúde permanente para os indÃgenas. âTem muita gente boa no PaÃs e essas pessoas precisam unir forças com a gente, porque o povo é maior que o governo. O governo não é dono do nosso PaÃs. A sensibilização que fazemos todos os dias com a sociedade é para o bem viver dessa geração, dos filhos e netos das pessoasâ, diz Nicácio.
A região amazônica vive um momento de declÃnio nas taxas de contágio e mortes do novo coronavÃrus, mas a ameaça deixada pela pandemia persistirá por muito tempo. E a ela se somam outros riscos enfrentados pelas comunidades indÃgenas. âEnquanto tentamos salvar as comunidades da Covid-19 já estamos perdendo outras vidas também pela violência, pelas queimadas. Tem vários parentes perdendo suas casas, seus bens na Amazôniaâ, afirma Nicácio.
àAmazônia Real, Nicácio afirma que é cedo para medir o impacto da pandemia entre os povos indÃgenas. âAinda vai demorar um pouco para a gente pensar, porque temos outras lideranças tradicionais que resistiram como Euclides, Raoni, Davi, Clóvis, Nara. Mas, por conta do nosso luto, é difÃcil prever o que vamos passar amanhãâ. (Colaborou ElaÃze Farias)
*Amazônia Real
