(Cidade do Cabo, Ãfrica do Sul) – O sábado (27/11) à noite foi de bares e restaurantes cheios na região central da Cidade do Cabo, uma das mais agitadas do destino turÃstico que atrai visitantes do mundo inteiro. Com termômetro registrando 17 graus e chuva leve, muita gente saiu de casa, mesmo com a notÃcia da descoberta de uma nova variante do coronavÃrus no paÃs correndo e preocupando o mundo. A minoria usava máscara dentro dos locais, autorizados a funcionar atualmente com metade da capacidade total e tendo que fechar as portas antes de meia-noite, quando começa o toque de recolher ainda em vigor na Ãfrica do Sul. Tinha local com fila de gente na porta.
[g1_quote author_name=”Tulio de Oliveira” author_description=”Virolotgista brasileiro, diretor do Centro para Resposta à Epidemias e Inovação da Ãfrica do Sul ” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]O mundo deve fornecer apoio à Ãfrica do Sul e à Ãfrica e não discriminá-la ou isolá-la
[/g1_quote]Nos lugares com pista de dança algumas pessoas se divertiam como se houvesse, sim, amanhã. E davam como certo que neste amanhã – domingo, no caso – seria o dia que provavelmente o presidente Cyril Ramaphosa endureceria as regras de circulação no paÃs que no ano passado implementou um dos confinamentos nacionais obrigatórios mais rÃgidos do mundo. Entre os que curtiam a noite na Cidade do Cabo estavam também muitos turistas, inclusive europeus. Nem todos estão a passeio. Certamente acreditando que a Ãfrica do Sul é um lugar seguro para se estar no momento, muitos vieram para cá nas últimas semanas fugindo das novas restrições de circulação implementadas em paÃses da Europa, atual epicentro da pandemia. São profissionais que trabalham remotamente e seguem a rotina de trabalho online, aproveitando as belezas locais e as atuais regras mais flexÃveis.
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Veja o que já enviamosEnquanto isso, brasileiros com passagem comprada não sabem o que vai acontecer nos próximos dias. A reportagem conversou com dois que tentaram embarcar na sexta-feira para o Brasil, mas não conseguiram. Já tinham até despachado as bagagens. Ambos não quiseram se identificar. Um deles contou que chegou até a porta do avião quando funcionários da companhia aérea o disseram para voltar. Eles estão em Johanesburgo sem saber quando embarcarão de volta para casa. Um diplomata contou que a embaixada do Brasil em Pretoria e o consulado brasileiro na Cidade do Cabo já estão sendo procurados por brasileiros em busca de orientações. Nos aeroportos de Johanesburgo e da Cidade do Cabo, estrangeiros tentam embarcar para paÃses que ainda não fecharam suas fronteiras para voos com procedência da Ãfrica do Sul.
Neste sábado, o presidente sul-africano Cyril Ramaphosa participou de uma reunião virtual com ministros e o cientista brasileiro Tulio de Oliveira, que vive na cidade de Durban. O brasileiro coordena uma equipe de dezenas de profissionais que fazem o sequenciamento genômico do coronavÃrus desde o inÃcio da pandemia. Ele participou da coletiva organizada pelo ministério da Saúde da Ãfrica do Sul, na última quinta-feira (25/11), para anunciar a descoberta da nova variante, que acabou sendo chamada de Ãmicron e motivo de preocupação pelo alto número de mutações, de acordo com a Organização Mundial da Saúde.
No paÃs o clima de indignação parece superar a preocupação. à visÃvel a sensação de que a Ãfrica do Sul está sendo punida por ter sido transparente e ter investido em pesquisa, tecnologia, no sequenciamento. âO mundo deve fornecer apoio à Ãfrica do Sul e à Ãfrica e não discriminá-la ou isolá-laâ, escreveu, no Twitter, o virologista Túlio de Oliveira, diretor do Centro para Resposta à Epidemias e Inovação da Ãfrica do Sul.
[g1_quote author_name=”Angelique Coetzee” author_description=”presidente da Associação Médica da Ãfrica do Sul” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Atualmente cerca de 1/3 dos profissionais de saúde não estão vacinados na Ãfrica do Sul. Alguns estão hesitantes, infelizmente alguns são anti-vacinas. Nem sempre sabemos porque não querem se vacinar
[/g1_quote]O Reino Unido foi o primeiro a fechar fronteiras para voos vindos de paÃses do sul da Ãfrica, mesmo sem muitas informações. Uma atitude criticada e considerada precipitada pelo governo sul-africano. Mas não adiantou ter fechado as fronteiras a paÃses africanos. Dois casos da variante recém-descoberta do coronavÃrus acabaram sendo confirmados em território britânico. PaÃses como Canadá e Estados Unidos resolveram seguir a decisão britânica. Ao todo, 8 paÃses africanos acabaram entrando para listas vermelhas pelo mundo: Ãfrica do Sul, Lesoto, Eswatini (antiga Suazilândia), Botsuana, Moçambique, Zimbábue, NamÃbia e Malaui. O Brasil também proibiu a entrada de quem esteve em quase todos esses paÃses (exceto Moçambique e Malaui) nos 14 dias anteriores a data do desembarque.
Na rede social, o cientista brasileiro lembrou que os profissionais do Ãfrica do Sul têm sido muito transparentes com as informações cientÃficas. âIdentificamos, tornamos os dados públicos e alertamos, pois as infecções estão aumentando. Fizemos isso para proteger nosso paÃs e o mundo, apesar de sofrermos potencialmente uma discriminação massivaâ, postou. E chegou a marcar nos tweets os bilionários Bill Gates, Jeff Bezos, Alon Musk e Dr. Soon-Shiong para dizer que âesta nova variante do coronavÃrus é realmente preocupante no nÃvel mutacional. A Ãfrica do Sul e a Ãfrica precisarão de apoio (financeiro, de saúde pública, cientÃfico) para controlá-la para que não se espalhe pelo mundo. Nossa população pobre e carente não pode ficar presa sem apoio financeiroâ.
O governo sul-africano divulga diariamente, desde o ano passado, relatórios com dados sobre o avanço do coronavÃrus no paÃs. O boletim de sábado à noite revelou que o paÃs teve 3.220 novas infecções e 8 mortes por conta da covid-19 em 24 horas. Tudo leva a crer que o paÃs, que começou novembro registrando 106 casos no primeiro dia do mês, está caminhando para sua quarta onda de infecções, o que já é realidade em 11 paÃses africanos, segundo o Centro para Controle e Prevenção de Doenças (CDC, sigla em inglês), a agência de saúde pública da União Africana.
A Ãfrica do Sul teve, desde março do ano passado, quase três milhões – 2.958.548 – de casos confirmados. Os primeiros faziam parte de um grupo de sul-africanos que voltaram da Itália. Mas a maioria dos pacientes se recuperou (2.847.083), e nem todos precisaram de internações. Até agora a covid-19 matou 89.791 pessoas no paÃs. Atualmente há 21.674 infectados pelo coronavÃrus em tratamento.
O escritório da ONU para a Ãfrica divulgou, na quinta-feira, um levantamento feito em 25 paÃses do continente que mostrou que apenas um em cada quatro profissionais de saúde desses paÃses está totalmente vacinado. Cada um dos 54 paÃses africanos tem uma particularidade que possa justificar os baixos percentuais de vacinação – da indisponibilidade de imunizantes à rejeição da vacina pela população. âAtualmente cerca de 1/3 dos profissionais de saúde não estão vacinados na Ãfrica do Sul. Alguns estão hesitantes, infelizmente, alguns são antivacina. Nem sempre sabemos porque não querem se vacinarâ, disse, ao #Colaboram, Angelique Coetzee, presidente da Associação Médica da Ãfrica do Sul. Até agora, aproximadamente, 24% dos sul-africanos estão totalmente vacinados. O percentual chega a 28% levando em consideração os que receberam pelo menos uma dose.
