Johanesburgo (Ãfrica do Sul) – Na atual corrida mundial contra o tempo para frear a pandemia, ânenhum paÃs deve ser deixado para trásâ na visão do atual presidente da União Africana, Cyril Ramaphosa, que anunciou a reserva de 270 milhões de doses de vacinas contra o coronavirus para paÃses africanos, que devem ser distribuÃdas ainda este ano. As vacinas serão fornecidas pela Pfizer, Johnson & Johnson e AstraZeneca (por meio de um licenciado independente, Serum Institute of India), de acordo com a Equipe Africana de Aquisição de Vacinas, criada em agosto pela UA para tratar do assunto.
Pelo menos 50 milhões de doses devem estar disponÃveis entre abril e junho. âFoi um passo adicional para garantir vacinas de forma independente, usando nossos próprios recursos limitadosâ, disse Ramaphosa, que também é o presidente da Ãfrica do Sul, paÃs responsável por 40% do número de casos de covid-19 no continente. A Ãfrica do Sul enfrenta, oficialmente, uma segunda onda de infecções, bem mais preocupante que a primeira, segundo autoridades sul-africanas.
Levando em consideração que serão duas doses por pessoa, as 270 milhões de vacinas imunizarão apenas 10% da população africana. Os 54 paÃses da Ãfrica formam o segundo continente mais populoso do mundo, com quase 1,3 bilhão de habitantes. Juntos, confirmaram até agora 3.177.181 casos de covid-19 desde fevereiro, quando o primeiro caso foi divulgado no Egito. Isso representa 3,5% dos casos no mundo. Deste total de infectados, 76.757 (2,4%) morreram e 2.594.285 (81%) se recuperaram. Números menores que os do Brasil, que tem bem menos habitantes (cerca de 211 milhões) que toda a Ãfrica.
Na coletiva semanal para tratar da pandemia na Ãfrica, a diretora da Organização Mundial de Saúde para a região, Dra Matshidiso Moeti, comemorou o anúncio da estratégia, que complementa a ação da Covax, iniciativa da OMS para garantir o acesso equitativo a vacinas da covid-19 a 190 paÃses. âA Covax cobre apenas 20% da população africana, por isso é realmente maravilhoso ver os esforços da União Africana para garantir 270 milhões de doses provisórias até o final de 2021â, disse.
As doses não são doações, os paÃses pagarão pelas vacinas. O Banco Africano de Exportação-Importação (Afreximbank) apoiará a estratégia garantindo até US$ 2 bilhões aos fabricantes em nome de paÃses africanos, de acordo com o presidente Cyril Ramaphosa. âCada caso será analisado. Os paÃses terão até 7 anos no máximo para pagarâ disse à reportagem o vice-presidente do Afreximbank Denys Denya.
A União Africana e o Banco Mundial também estão trabalhando juntos para permitir que os membros da UA tenham acesso a US$ 5 bilhões para comprar mais vacinas. âà necessário vacinar 60% da população da Ãfrica. Nós temos que engajar toda a Ãfrica, não um paÃs apenas. Caso contrário não atingiremos a meta de imunizaçãoâ, completou Denys Denya.
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Veja o que já enviamosGovernantes de paÃses ricos, onde vivem 14% da população mundial, compraram mais de 50% das vacinas disponÃveis até dezembro, segundo a Aliança Vacina para Todos, da qual fazem parte a Anistia Internacional, Oxfam e Justiça Global. São bilhões de doses que seriam suficientes para imunizar habitantes desses paÃses ricos mais de uma vez.
Cyril Ramaphosa havia dito, na semana passada, que o primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau, telefonou para o lÃder africano dizendo que o Canadá compartilharia vacinas extras com paÃses necessitados assim que os suprimentos estivessem disponÃveis.
O presidente do Instituto Brasil Africa, professor João Bosco Monte, acha que o maior desafio do continente africano é âcada paÃs entender a sua necessidade especÃfica e trabalhar em conjuntoâ. Um problema tão complexo dificulta, na visão dele, uma resposta imediata quando se trata de solução. Porém, tentando identificar uma saÃda para o continente africano, o presidente do IBRAF acredita que a resposta possa ser trazida de fora do continente. âCom as empresas, com a diáspora, com os paÃses desenvolvidos que de uma maneira muito objetiva precisam ser solidáriosâ, completou, destacando ainda a importância da participação do setor privado. âAs grandes empresas, corporações que fazem negócio e ganham muito dinheiro no continente africano precisam trazer uma resposta. E a resposta há de existir com a solidariedade. Sem solidariedade não há condição de resolver um problema tão sério como a pandemia na Ãfrica e em outras regiões do mundoâ, concluiu.
Entre os dias 28 de dezembro e 10 de janeiro, segundo a OMS, foram registrados, em média, 25.223 novos casos por dia em todo o continente. A maioria na Ãfrica do Sul, que demorou quase 4 meses para confirmar os primeiros 100 mil casos, mas que em cerca de uma semana confirmou 100 mil novos infectados
A velocidade do aumento das infecções tem preocupado as autoridades sul-africanas porque estão sobrecarregando algumas unidades hospitalares. O vÃrus está se espalhando muito mais rapidamente agora por conta da variante identificada por uma equipe de cerca de 40 cientistas que pesquisam o genoma do coronavÃrus há meses. O time é liderado pelo bioinformático brasileiro Túlio de Oliveira, que mora na Ãfrica do Sul há 23 anos. âA gente tem que começar a vacinar as pessoas, e rapidamenteâ, disse o brasileiro em uma entrevista no inÃcio deste mês.
Antes do anúncio dessa semana feito pela União Africana, o governo sul-africano já havia dito que deve receber este mês um milhão de vacinas da India. Outras 500 mil doses devem chegar no mês que vem. A meta do paÃs é imunizar 67% da população de, no total, quase 60 milhões de habitantes. Mas neste primeiro trimestre a prioridade serão os profissionais de saúde.
Em frente ao hospital Steve Biko, que fica na capital Pretória, a reportagem encontrou Johanna Shihlene, uma auxiliar de enfermagem de meia idade que tinha acabado de receber o resultado do teste de covid-19: positivo. âSenti alguns sintomas na semana passada. Febre, dor de gargantaâ, disse. Ela contou que no dia a dia não trabalhava diretamente com os pacientes infectados pelo coronavirus, que têm sido atendidos em tendas montadas do lado de fora do hospital Steve Biko. Um vÃdeo viralizou na Ãfrica do Sul, na semana passada, mostrando alguns desses pacientes sendo atendidos em uma área mal coberta em um dia de muita chuva.
Perguntada pela reportagem se irá se vacinar, a auxiliar de enfermagem foi direta ao dizer que não. âNão confioâ, disse. Ela não é a única. Em várias regiões do continente pessoas demonstram desconfiança, medo de serem esterilizadas e até mortas após a vacina. O medo ganha força com boatos e teorias conspiratórias que circulam em redes sociais, como um vÃdeo onde um homem â se ouvia a voz, mas não se via o rosto dele â afirmava que antenas de internet 5G estariam sendo usadas para espalhar o coronavÃrus e matar pessoas por aqui. No inÃcio do mês três torres de duas companhias telefônicas foram destruÃdas na provÃncia de KwaZulu-Natal. Os desafios de paÃses africanos, que logo no inÃcio da pandemia fecharam suas fronteiras, suspenderam voos e proibiram aglomerações, vão além de conseguir comprar as vacinas e armazená-las adequadamente.
Por e-mail, a OMS AFRICA disse que cada paÃs vai determinar se as vacinas serão obrigatórias e/ou gratuitas para a população. Para a OMS, a melhor estratégia é cada paÃs incentivar e facilitar o acesso a vacinas para que as pessoas reconheçam os benefÃcios para sua saúde e segurança. Para isso, a população precisa receber informações precisas sobre as vacinas, seus benefÃcios e limitações. Isso é extremamente importante por conta da disseminação de boatos e teorias conspiratórias que circulam sobre as vacinas no continente africano. O e-mail ainda diz que governos da Ãfrica precisarão de fortes estratégicas de risco envolvendo o público com calma, em vez de correr o risco de entrar em pânico por meio de medidas confusas e incoerentes.
