âFica na comunidade, parente!â O pedido vem sendo repetido insistentemente pelo diretor-presidente da Federação das Organizações IndÃgenas do Rio Negro (Foirn), Marivelton Baré, desde que a pandemia do novo coronavÃrus chegou ao Amazonas. Passado o primeiro mês do registro da primeira vÃtima, o estado lidera a lista do paÃs com maior taxa de infectados do Brasil. Na área de atuação da Foirn, que representa 750 comunidades indÃgenas e 23 etnias, nenhuma contaminação registrada até agora. Marivelton, no entanto, não esconde seu temor: âEntre ser infectado ou passar fome, nosso povo vai preferir ser contaminado pela covid-19â.
Por solicitação da Foirn, do Coletivo de Apoio aos Povos Yuhupdeh e Hupd´äh (CAPYH) e do Instituto Socioambiental (ISA), o Ministério Público Federal (MPF) do Amazonas recomendou a distribuição de cestas básicas para os indÃgenas, com o apoio do Exército. E também a extensão da ajuda emergencial do governo federal de R$ 600 por seis meses ou enquanto durar a pandemia â o prazo de 90 dias para sacar o recurso é considerado muito curto para a situação de povos indÃgenas que vivem em lugares remotos. Ambas as recomendações foram feitas para evitar o trânsito dos indÃgenas para a cidade, que, caso venha a ocorrer, pode gerar aglomeração â o que vai de encontro à recomendação do Ministério da Saúde para tentar conter a evolução da pandemia. Lideranças indÃgenas consideram que a recomendação do MPF do Amazonas foi uma vitória da Foirn.
âA ajuda emergencial do governo precisa levar em consideração as especificidades geográficas da Amazônia e dos povos indÃgenasâ, critica Marivelton, que vem repetindo, em quatro idiomas, para que os âparentesâ fiquem nas suas comunidades. A logÃstica para chegar na única lotérica da cidade de São Gabriel da Cachoeira, por exemplo, é bastante complexa. âDependendo da localidade, os parentes podem levar um dia para chegar na cidade mais próxima, mas se a comunidade for mais distante, pode levar até sete dias. Tudo vai depender da potência do motor da canoaâ.
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Veja o que já enviamosTemos que agir muito rápido para não deixar o vÃrus chegar nas nossas comunidades. Se tivermos uma proliferação de casos, como está ocorrendo no resto do paÃs, vamos ter uma verdadeira tragédia, porque nossos povos já são muito frágeis para essas doenças pulmonares e respiratórias
[/g1_quote]Se o coronavÃrus entrar na aldeias e comunidades, existe o ârisco iminente de genocÃdio de populações indÃgenasâ, vem alertando a deputada federal Joênia Wapichana (Rede/RR), que preside a Frente Parlamentar Mista em Defesa dos Povos IndÃgenas. A tragédia pode ser ainda maior no caso de contaminação nas terras indÃgenas com povos de pouco ou recente contato. Ainda que nem todos os indÃgenas estejam no grupo de risco, marcadores sociais, como nÃvel de renda, moradia, saneamento e acesso a médicos, podem agravar a situação.
Na terça 14 de abril, representantes da Frente Parlamentar Ambientalista se reuniram, virtualmente, com o presidente do INSS, Leonardo Rolim. âApresentamos nossas preocupações e fizemos sugestões para evitar que os parentes saiam das aldeias para pegar a ajuda emergencialâ, contou Dinamam Tuxá, coordenador-executivo da Articulação dos Povos IndÃgenas (Apib). Ao final da reunião, nenhum avanço. Os indÃgenas reivindicam, por exemplo, a instalação de caixas eletrônicos nas aldeias ou mesmo a criação de aplicativos. âInfelizmente, o que a Foirn conseguiu com o MPF do Amazonas não é uma realidade em todo o paÃsâ, admite Tuxá.
[g1_quote author_name=”Dinaman Tuxá” author_description=”Coordenador-executivo da Articulação dos Povos IndÃgenas (Apib)” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]O SUS alega que saúde indÃgena é problema da Secretaria Especial de Saúde IndÃgena, a Sesai, que, por sua vez, só atende Ãndio aldeado, ou seja, aquele que vive na sua comunidade
[/g1_quote]Marivelton Baré lembra que o histórico de epidemias entre indÃgenas acompanha essas populações desde os tempos do descobrimento do Brasil. âTemos que agir muito rápido para não deixar o vÃrus chegar nas nossas comunidades. Se tivermos uma proliferação de casos, como está ocorrendo no resto do paÃs, vamos ter uma verdadeira tragédia, porque nossos povos já são muito frágeis para essas doenças pulmonares e respiratóriasâ, avalia o diretor-presidente da Foirn. Isolar o paciente contaminado é tarefa praticamente impossÃvel na Terra IndÃgena. Dependendo da etnia, chegam a morar 12 famÃlias numa única maloca.
Para driblar a falta de estrutura nas aldeias para acolher os âparentesâ contaminados, a Apib encaminhou ofÃcio para todos os governadores solicitando que a Casa de Saúde do Ãndio (Casai) abrigue estes pacientes. Apenas dois governadores, o de São Paulo e do Rio Grande do Norte, responderam ârecebidoâ ao ofÃcio. Na prática, a proposta foi ignorada por todos os governadores do paÃs. Um problema adicional é o fato dos indÃgenas que vivem fora de suas aldeias estarem desassistidos. âO SUS alega que saúde indÃgena é problema da Secretaria Especial de Saúde IndÃgena, a Sesai, que, por sua vez, só atende Ãndio aldeado, ou seja, aquele que vive na sua comunidadeâ, denuncia Tuxá, comentando que, atualmente, 36% da população indÃgena vive fora das Terras IndÃgenas.
Antes mesmo da pandemia, os povos indÃgenas já estavam desprotegidos e abandonados à própria sorte. O esfacelamento das polÃticas públicas voltadas à população indÃgena incluÃa, entre outras propostas, a extinção da Sesai. A sugestão de extinguir o órgão sempre foi defendida pelo ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, e só foi adiada devido à realização do 6º Congresso Nacional de Saúde IndÃgena, que, antes da pandemia, havia sido agendado para o final de maio. Não fosse o encontro, a Sesai teria sido extinta este mês, quando o paÃs registrou nove casos da covid-19 na população indÃgena e três mortes, sendo uma de um adolescente Yanomami, de 15 anos, que vivia em Roraima, uma idosa Borari, de 87 anos, que morava em Alter do Chão, no Pará, e um homem da etnia Muro, de 55 anos, em Manaus.
Para monitorar a questão indÃgena e a contaminação pela covid-19, o Instituto Socioambiental (ISA) criou uma plataforma de monitoramento da situação com dados levantados pela Sesai.
