No final de abril, na porta do Palácio da Alvorada, ao ser indagado por uma jornalista sobre o número crescente de mortes causadas pela covid-19 no Brasil, o presidente Jair Bolsonaro respondeu: âE daÃ? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagreâ. De lá para cá, o paÃs ficou sem mais um ministro da saúde, o número de casos passou de 1 milhão, o de mortos saltou de 5 mil para mais de 50 mil e o Messias seguiu sem saber o que fazer. Logo, não é por acaso que o Brasil ocupe a última colocação em um ranking mundial de avaliação das ações dos governos frente à pandemia do coronavÃrus. A pesquisa leva em conta a opinião da população residente em cada uma das 53 nações avaliadas. Os dados são do Ãndice de Percepção da Democracia, um levantamento feito pelo Instituto Dalia, da Alemanha, entre abril e junho.
De acordo com a pesquisa, apenas 34% dos brasileiros acreditam que o governo brasileiro está lidando bem com a pandemia. No mundo, em média, a avaliação positiva dos governos gira em torno de 70%. No grupo de paÃses ou governos mais mal avaliados, o Brasil conta com a companhia dos Estados Unidos, de Donald Trump; do Chile, de Sebástian Piñera; e do México, de López Obrador. Entre os que aparecem bem na foto, os destaques ficam com a China, em primeiro lugar; o Vietnam, em segundo, que até o fechamento desta edição não tinha registrado nenhuma morte pela covid-19; a Grécia e a Malásia, todos com aprovações acima ou em torno de 90%.
Outro dado relevante da pesquisa é a indicação de que a maior parte das pessoas em todo o mundo não acredita que a reação dos seus governos à pandemia, incluindo normas rÃgidas sobre isolamento social, tenha sido exagerada. Nos 53 paÃses pesquisados, cerca de metade da população sente que o governo aplicou a “quantidade certa” de restrições, enquanto 28% acham que seu governo “não fez o suficiente” e apenas 17% acham que o governo errou na dose. No Brasil, mais de 60% da população avalia que o governo de Jair Bolsonaro não fez o suficiente para conter a pandemia de covid-19. Mais uma vez, é a pior avaliação entre os 53 paÃses do ranking. A pesquisa foi feita pela internet com 124 mil pessoas de 53 paÃses. No Brasil, foram realizadas 3.032 entrevistas. A margem de erro é de 3,25%.
O fato é que Jair Bolsonaro, desde o inÃcio, minimizou a pandemia e apostou todas as suas fichas contra o coronavÃrus que, segundo ele, não passava de uma âgripezinhaâ ou de um âresfriadinhoâ. O presidente deixou de tomar medidas básicas recomendadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e por alguns dos melhores especialistas brasileiros, como criar uma barreira sanitária para impedir a propagação do vÃrus, unir  governadores e prefeitos em torno de uma causa comum, incentivar o isolamento social, rastrear e monitorar os doentes e investir na realização de testes. Pelo contrário, sempre que teve oportunidade ele criticou o trabalho que vinha sendo feito e desrespeitou a quarentena: âEsse vÃrus trouxe uma certa histeria. Tem alguns governadores, no meu entender, posso até estar errado, que estão tomando medidas que vão prejudicar e muito a nossa economiaâ, disse Bolsonaro no dia 17 de março.
Mas, afinal, que respostas poderiam ser dadas para a pergunta que o próprio presidente Bolsonaro fez no final de abril? âQuer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagreâ. Ao longo desses 100 dias de pandemia, especialistas, autoridades e familiares de vÃtimas da covid-19 apresentaram várias sugestões:
âEle poderia começar respeitando pais, mães, avós, parentes, amigos que perderam as vidas pelo coronavÃrus, aquele que o presidente classificou com uma gripezinhaâ, João Doria, governador de São Paulo, em entrevista ao UOL.
âBolsonaro deveria investir em pesquisa, especialmente na Amazônia. Com o desmatamento descontrolado corremos o risco de gerarmos novas epidemias e pandemias, já que a floresta tem centenas, milhares de tipos de vÃrus. Imagina se aparecer um vÃrus desses, com a facilidade da transmissão do coronavÃrus e a mortalidade de um ebola? Por isso precisamos de muita pesquisa, primeiro para saber o que temos lá, e depois para termos poder de previsão”, Carlos Nobre, cientista e pesquisador sênior do Instituto de Estudos Avançados da USP, em entrevista ao UOL.
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Veja o que já enviamosâNão vejo no Bolsonaro a disposição de ser o lÃder nacional de que o Brasil precisa. Um lÃder nacional une. Bolsonaro, divideâ, Flávio Dino, governador do Maranhão, em entrevista à TV Globo.
âFalta ao Bolsonaro uma noção básica de solidariedade e de empatia para entender o que significa a mensagem âfiquem em casaâ. Ela não funciona como uma arma para cada um se proteger, ela é um sinal de compaixão, de proteção de todos, especialmente dos mais vulneráveis e dos desafortunadosâ
Sérgio Besserman, economista, em entrevista ao #Colabora.
âEle poderia ter liberado os leitos dos hospitais federais que ficaram ociosos e seriam úteis para os pacientes da covid-19. Ele deveria contratar mais profissionais de saúde para estas unidades, assim como comprar materiais e insumosâ, Alexandre Telles, presidente do Sindicato dos Médicos do Rio de Janeiro, em entrevista ao jornal O Dia.
âO presidente tinha que sentir na pele o que eu estou sentindo, o que estamos passando. Ele só vai dar valor quando perder um ente querido. O descaso com nossa saúde foi muito grande”, Carla Medeiros, moradora do Rio de Janeiro que perdeu o marido, de 39 anos, vÃtima da covid-19, em entrevista ao jornal O Dia.
âO governo deveria ter evitado que os brasileiros fizessem filas quilométricas para receber o auxÃlio emergencial de R$ 600. Na prática, ele encorajou as pessoas a descumprir o isolamento. Para melhorar esse processo, ele deveria usar mais as estruturas dos Centros de Referência de Assistência Social ou pedir o auxÃlio das ONGs, coisa que o governo abominaâ, Marcelo Neri, ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, em entrevista ao UOL.
âO governo deveria coordenar o processo de aprendizado dos estudantes brasileiros durante a pandemia, no isolamento social, para mitigar os riscos de aumento da desigualdade educacional no paÃs e de piora da crise no ensino públicoâ, Claudia Costin, mestre em Economia Aplicada à Administração, em entrevista à Folha de S. Paulo.
“A primeira coisa que o governo federal deveria ter feito era assumir a pandemia como uma agenda nacional. Não parece que seja uma prioridade que o governo queira resolver. Pedir para as pessoas ficarem em casa não é suficiente. O governo precisa subsidiar, de fato, as famÃlias mais pobres, principalmente os informais e sem emprego. O valor de R$ 600 é baixo para a subsistência das famÃlias e muita gente não consegue receber. O governo só promete, mas não oferece exames para detectar a covid-19. à preciso assumir que não tem exames e divulgar o número de casos e óbitos suspeitosâ, Eder Gatti, médico infectologista e presidente do Sindicato dos Médicos de São Paulo, em entrevista ao UOL.
Essa lista de sugestões é quase infinita. Mesmo depois de três meses, desde o inÃcio da pandemia, ainda há muito o que ser feito. Alguns dizem que chegamos ao pico da doença no Brasil ou talvez a um platô que ainda trará muito sofrimento aos brasileiros. De acordo com o demógrafo e professor José Eustáquio Alves, titular deste Diário da Covid-19, o Brasil ainda pode chegar a 4 milhões de infectados e 200 mil mortos, até o final de setembro. Nunca é tarde para agir, basta ter vontade polÃtica.
Frase do dia 22 de junho
âDe onde menos se espera é que não sai nada mesmoâ
ApparÃcio Torelly, o Barão de Itararé (1895-1971)
