âNós decidimos que Ãamos nos casar perante a lei, mudar os nossos nomes e fazer a coisa se tornar mais séria do que já era perante a sociedade. Com isso, começou a construção do sonho de aumentar a nossa famÃlia através da paternidadeâ, relata o gestor de vendas Jarbas Mielke Bitencourt, 48 anos, companheiro há mais de 15 anos do fotógrafo Mikael Mielke Bitencourt, 35 anos. O casal se conheceu na praia de Imbé, no litoral Norte do Rio Grande do Sul e há dois anos, depois de se casarem oficialmente, eles começaram a buscar formas de se tornarem pais e multiplicar o afeto que sentem um pelo outro. Agora, com o apoio da amiga Jéssica Konig, 31 anos, o casal está perto de alcançar esse sonho através de processo conhecido como âbarriga solidáriaâ.
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Quem descobriu a possibilidade foi a própria Jéssica, que já é mãe de duas crianças, uma menina de sete anos e um menino de seis. âNa realidade, todo esse processo era desconhecido por nós até a Jéssica trazer essa informação. Na minha vida, só ouvia falar em barriga de aluguelâ, revela Jarbas. Antonella, nome escolhido para a bebê com nascimento previsto para maio, foi gerada com o sêmen de Jarbas e o óvulo doado pela irmã de Mikael, Marie Bortolanza; com isso Antonella, possui os genes de ambos os pais.
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Veja o que já enviamosEu acho que nós vamos ser meio que embaixadores do processo de barriga solidária; é uma vontade nossa, porque nós somos um casal homoafetivo casado há 15 anos. Nós somos de Porto Alegre, do estado do Rio Grande do Sul, dois gaúchos: um de Bento Gonçalves, italiano, e outro de Porto Alegre, uma capital extremamente provinciana. E está tudo certo, desde que a gente seja respeitado
A âbarriga solidáriaâ ou âútero de substituiçãoâ, como é o nome técnico da reprodução assistida, ocorre quando uma mulher recebe de forma voluntária o embrião gerado em laboratório por uma pessoa solteira ou um casal hétero ou homoafetivo. Esse método é diferente da âbarriga de aluguelâ, quando uma pessoa paga para outra gerar seu filho/a – o que no Brasil é proibido por lei. Geralmente, o Conselho Federal de Medicina (CFM), permite apenas que parentes de até quarto grau possam receber o embrião dos pais; no entanto, após o pedido junto ao Conselho Regional de Medicina (Cremers), o casal conseguiu a liberação para realizar o procedimento.
Da escolha da clÃnica que realizaria a fertilização âin vitroâ, até a liberação do CFM para o âempréstimoâ da barriga por Jéssica, Jarbas e Mikael tiveram de esperar quase oito meses, até meados de setembro do ano passado. âComo eu já tenho meus filhos também, eu acho que nada mais justo do que realizar o sonho de quem quer ser paiâ, comenta Jéssica Konig sobre a escolha de participar do processo.
O primeiro caso de barriga solidária envolvendo um casal LGBTQIAPN+ no Brasil foi em 2021, quando dois engenheiros de Minas Gerais foram pais de gêmeos, em um processo realizado em BrasÃlia. Três anos depois, a alternativa é ainda pouco conhecida, por isso, o casal gaúcho busca compartilhar sua história e sonha em inspirar outras pessoas, sejam hétero ou homoafetivas.
Casal tentou adotar criança e enfrentou frustração no final
Antes de conhecer a fertilização através da barriga solidária, Jarbas e Mikael tentaram realizar a adoção de uma criança. Assim conheceram uma jovem que estava grávida e queria doar o filho. O casal então começou os preparativos para receber o bebê, inclusive organizando o quarto e acompanhando a mãe no perÃodo do pré-natal. O que deveria ser a realização de um sonho virou um pesadelo quando a jovem parou de responder à s tentativas de contato do casal.
âChegou na finaleira da gestação que a criança estava para nascer em janeiro e ela começou meio que a sumir e nos mandou uma mensagem dizendo que iria desistir da adoção, que a avó paterna iria ficar com a criançaâ, conta Mikael. Mesmo assim, ambos seguiram buscando uma alternativa de conversar com a mãe para fazer parte da vida da criança, no entanto, no dia do nascimento, eles descobriram que o bebê seria doado para outro casal.
A gente debate muitas coisas, por exemplo, como é que dois homens vão fazer para entrar com a Antonella num banheiro para trocar ela? A gente vai no banheiro masculino ou vamos no banheiro feminino? E se não tiver fraldário?
Por trabalhar como fotógrafo principalmente com o público infantil, Mikael adoeceu com a frustração no processo de adoção. âNão tinha estado psicológico para estar trabalhando no meio das crianças, sabendo que, no inÃcio do ano, eu perdi um filhoâ. Foi justamente por acompanhar de perto a dor do casal que Jéssica decidiu pesquisar formas de reprodução assistida, até descobrir o método da barriga solidária.
Em setembro de 2023, depois da liberação do Cremers e da doação dos óvulos pela irmã de Mikael, o casal foi até a clÃnica em Porto Alegre, onde seria feita a fertilização âin vitroâ. Inicialmente, foram onze embriões fecundados, sendo que três foram investigados pelo casal – termo utilizado para se referir ao exames para descobrir o sexo e condições de saúde do embrião.
A princÃpio o casal teria um menino – Benjamin receberia o mesmo nome do filho que seria adotado antes. Porém, no dia da transferência do embrião para a barriga de Jéssica, apenas um dos três embriões selecionados se multiplicou, o de uma menina. âIndependente da crença de qualquer um, mas, espiritualmente, acho que a vida estava nos dando sinais. Vocês têm que ter uma meninaâ, completa Jarbas, ao recordar tudo que viveu ao lado do companheiro para realizar o sonho da paternidade.
Misto de sentimentos e desejo de quebrar preconceitos
Mesmo vivendo em um paÃs e em um estado com forte presença do preconceito contra casais LGBTQIAPN+, o casal acredita que pode fazer a diferença e pretende divulgar todo o processo de paternidade através do instragram @2paisdaantonella. âA gente acredita que a Antonella tem coisas para nos mostrar, para nós e para a sociedade como um todo, porque tem muito preconceito ainda, existe muito preconceito, quer queira ou nãoâ, comenta Jarbas.
Atualmente, o casal também lida com a ansiedade e o fato de que – independente da configuração da famÃlia – não existe um manual de como ser pai. âEu só penso nela. Não vejo a hora de pegá-la no colo, dar carinho, te encher de beijo e amor. Então, o sentimento é muito grande, é inexplicável, ser pai é assimâ, celebra Mikael. A mesma apreensão é vivida por Jarbas.
Uma das questões que tira o sono dos futuros pais é como lidar com âemergênciasâ em locais públicos. âA gente debate muitas coisas, por exemplo, como é que dois homens vão fazer para entrar com a Antonella num banheiro para trocar ela? A gente vai no banheiro masculino ou vamos no banheiro feminino? E se não tiver fraldário?â, questiona Mikael, que acrescenta estar disposto a comprar a briga em nome da normalidade para o fato de casais LGBTQIAPN+ com filhos andarem por um shopping e qualquer outro local de forma tranquila.
âEu acho que nós vamos ser meio que embaixadores do processo de barriga solidária; é uma vontade nossa, porque nós somos um casal homoafetivo casado há 15 anos. Nós somos de Porto Alegre, do estado do Rio Grande do Sul, dois gaúchos: um de Bento Gonçalves, italiano, e outro de Porto Alegre, uma capital extremamente provinciana. E está tudo certo, desde que a gente seja respeitadoâ, finaliza Jarbas. O casal também permanece na fila da adoção e quer aumentar ainda mais a famÃlia em breve.
