A cidade onde a poluição acabou com o futebol

Prédios pintados de vermelho escondem as marcas da poluição provocada pela Siderúrgica Ilva. Foto Janaína Cesar

Taranto, no sul a Itália, teve aumento de 28% de mortes causadas por câncer; 1500 pessoas são vítimas a cada ano

Por Janaína Cesar | ODS 3 • Publicada em 22 de janeiro de 2018 - 21:23 • Atualizada em 24 de janeiro de 2018 - 12:14

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Prédios pintados de vermelho escondem as marcas da poluição provocada pela Siderúrgica Ilva. Foto Janaína Cesar
Prédios pintados de vermelho escondem as marcas da poluição provocada pela Siderúrgica Ilva. Foto Janaína Cesar
Prédios pintados de vermelho escondem as marcas da poluição provocada pela Siderúrgica Ilva. Foto Janaína Cesar

“Ripiano, Guarino, Papalia, La Carbonara, De Gennaro, De Tuglio, Andrisani, Catapano, Casile, D’Alò,  Capozza, a lista é interminável”, ele diz. Estão mortos, morreram de câncer sonhando o com gol da vitória. Eram jogadores de futebol e operários da siderúrgica italiana ILVA.  Ciccio Cavallo, 64 anos, é um homem alto, de olhos verdes e constituição robusta esculpida no decorrer dos vinte anos em que jogou futebol.  Memória viva de uma época em que o progresso chegou sem pedir licença, como um rolo compressor. Ele é a síntese de Tamburi, o bairro de operários que sonhou em ser classe média abdicando, conscientemente ou não, do direito à saúde.

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Um país que proíbe suas crianças de jogar futebol não pode participar de uma copa do mundo porque é um país doente. Taranto virou prisioneira dela mesma. Pisar descalço num campo de terra batida para jogar uma pelada ou simplesmente brincar em um parquinho é coisa perigosa

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A construção da siderúrgica na cidade de Taranto, no sul da Itália, foi programada pelo governo nos anos 1960 como política de inclusão e geração de emprego. “Os primeiros anos foram tempos de glória”, lembra Ciccio, “mas esqueceram de avisar que a conta chegaria depois, que seria muito alta e que, praticamente, não teríamos escolha”, diz.  O presente estava dado, sem direito a restituição.

Taranto exibe números desoladores de incidência de câncer. Segundo uma pesquisa publicada em março passado pelo Instituto Nacional de Estatística(Istat), 1500 pessoas morrem por ano na cidade vítimas da doença. O índice é muito alto para uma cidade de somente 200 mil habitantes. De acordo com a pesquisa, nos últimos 27 anos, o número de mortes teve um aumento de 28%.

Nascido e crescido na rua Machiavelli, no Tamburi, Ciccio conta sua vida como um narrador de rádio de partidas que enfatiza os dribles, grita gol, engole a seco e deixa a emoção transparecer no silêncio da derrota. “Comecei a jogar aos 16 anos porque no bairro havia muitos jovens e o jogo era visto sim como divertimento, mas também como uma válvula de escape ou oportunidade de inclusão social”, diz.  Centroavante da Polisportiva Jonica, era sua a responsabilidade de cavar oportunidades para a tentativa do gol.  E quantos não foram feitos nessa longa carreira. No começo, porém, o técnico percebeu que existia um problema naquele time: cinco jogadores tinham o mesmo nome: Antonio. “Quando o técnico gritava: Antônio!! era uma confusão danada (risos). Como eu era grande, robusto ele começou a me chamar de Ciccio (fofo) e assim ficou. Ninguém mais me chama de Antonio, nem a minha família.”

A inocente partida de futebol com a montanha de resíduos industriais ao fundo. Foto Arquivo Pessoal

Maracanã Tarantino

Dois dos cinco Antonios constam na longa lista de nomes de amigos que amargamente se foram. Além deles, Ciccio cita carinhosamente Casile e Catapano, companheiros eternos de peladas e operários da ILVA. Casile trabalhava na manutenção elétrica e morreu de câncer na garganta. Catapano definhou com um tumor no cérebro.  Ciccio vive com o peso de ser um dos poucos sobreviventes de um tempo glorioso em que 35 times de futebol jogavam nos gramados da cidade e se enfrentavam na quadra Tamburi velho, chamada orgulhosamente de Maracanã. Enquanto corriam atrás da bola, respiravam a poeira da morte que saía das chaminés e engoliam os minerais que eram depositados ao ar livre no terreno da siderúrgica, formando pequenas colinas pretas. Bastava um sopro de vento para o ar ficar preto e vermelho, carregado de minério. O maraca Tarantino ficava exatamente do lado da ILVA. “Inconscientemente jogávamos ali”, diz.

O número crescente de mortos acabou dizimando o futebol na cidade. “Hoje o número de times cabe em uma mão: são cinco e a conta regressiva não parou”, diz o veterano jogador.  O campo batizado com nome brasileiro já não existe mais, foi literalmente lacrado para uso. O terreno abandonado deu lugar a um lixão. Do buraco feito no muro de cimento erguido para cobrir o gramado é possível ver a montanha de metais que foi coberta propositalmente pela mata, mas que durante anos ficou ali, como uma moldura de um quadro velho cheio de cupins que custa a quebrar.

Os 35 times de futebol dos aos 60 hoje não passam de cinco. Maioria dos jogadores morreu de câncer. Foto Arquivo Pessoal

Um passado genuíno

O Tamburi era um bairro onde as pessoas iam respirar ar puro, do mar.  Ciccio conta que até os anos 1960, as ruas tinham nome de árvores: rua da quércia, dos eucaliptos e dos oleandros.  “Lembro que quando era pequeno tinham oliveiras, árvores frutíferas, lembro dos vagalumes que voavam pelas ruas e iluminavam a noite escura. Hoje é tudo diferente, tudo mudado.  Aqui não é mais possível viver, o bairro virou uma morte social. Chegamos a um ponto em que as pessoas pela manhã fazem o sinal da cruz e se perguntam quem morrerá naquele dia vítima do câncer.”

Ciccio não para, quer falar, vomitar para o mundo toda a dor e revolta de quem vê todos os dias avisos necrológicos colados nas paredes dos prédios baixos de 3 ou 4 andares espalhados pelo bairro. “Basta dar uma volta para encontrar avisos de pessoas falecidas. No final as interpreto como se fossem o cartaz de um teatro que anuncia a próxima peça. No que nos reduziram?  Tantas vezes começo a ver as fotos da época em que jogava e penso: aquele é morto, aquele e esse também e por aí vai. Alguns chegaram aos 50 anos, outros nem a isso.”

Prédios vermelhos

A fumaça carregada de dioxina que sai da chaminé mais alta da Europa, não atinge só o bairro Tamburi como muitos acreditam. Durante o wind day o vento leva a morte para toda a cidade, a fumaça venenosa se alastra por quilômetros e entra sem pedir licença nas casas, nas escolas e nos corpos dos habitantes da cidade.  Porém, é em Tamburi que as escolas fecham e as crianças são proibidas de brincar em áreas abertas.

Fuvio Colucci, jornalista de Tarantino e autor do livro Ilva Football Club, faz uma provocação. “Um país que proíbe suas crianças de jogar futebol não pode participar de uma copa do mundo porque é um país doente”, diz. Para ele, “a cidade virou prisioneira dela mesma”. Pisar descalço num campo de terra batida para jogar uma pelada ou simplesmente brincar em um parquinho é coisa perigosa. Basta fazer um experimento com um pedaço de imã e colocá-lo no chão, no vão de uma parede ou qualquer lugar que seja. Após segundos, ele estará repleto de minerais.

O bairro foi tão castigado pela poluição que alguns prédios foram pintados de vermelho ferrugem para esconder o minério que se deposita nas paredes externas dos edifícios.  Antonella Bonillo trabalha no cemitério como auxiliar de limpeza há 20 anos. Todos os dias recolhe sacos de minerais que se encontram no chão, nas tumbas, nas flores e nos retratos dos mortos dessa tragédia não anunciada. “Tem dias que chego em casa, sopro o nariz e sai mineral vermelho e preto”, diz ela.

O ex-centroavante Ciccio Cavallo, um dos poucos que sobreviveu à tragédia. Foto Janaína Cesar

“As pessoas precisam entender que não existe outro caminho a não ser o fechamento do monstro”, dizem as mães do Comitê Genitores Tarantinos. O grupo se reúne semanalmente e segue na linha de frente, praticamente com a bola nos pés, para o ataque. “Exigimos que a ILVA seja fechada e que os operários sejam contratados para o trabalho de remediação ambiental do parque siderúrgico”, declara Loredana, dona de casa, 44 anos e mãe de 2 filhos.

Nessa partida o grupo de genitores não está sozinho. Os amigos do MiniBar, como são chamados os voluntários que freqüentam o bar minúsculo comandado pelo simpático Ignazio D’Andrea, fizeram uma campanha de arrecadação de fundos através da venda de camisetas e recolherem 500 mil euros que foram doados ao Hospital de Taranto para a realização da pediatria infantil oncológica que faltava na cidade.  Em um ano foram vendidas 45 mil camisetas no mundo inteiro, inclusive no Brasil.

Partida suspensa

Naquela manhã de 18 de dezembro, Ignazio estava radiante pois acabara de participar da inauguração da pediatria oncológica.  Segundo dados do ministério da saúde, Taranto apresenta uma incidência de câncer infantil 30% superior à média nacional. No entanto, só depois da mobilização dos moradores ela ganhou uma ala do hospital destinada ao tratamento das crianças. “Foi preciso que a população agisse para que fosse criada uma ala no hospital da cidade”, diz Paolo Rusciano, 45 anos, um dos voluntários e amigos do MiniBar. Rusciano diz que a cidade já registra dados históricos de tumor e que o pico da doença está previsto para acontecer entre 2020 e 2025.

Para Ciccio, o descaso político sempre foi uma marca da região. “Ninguém se importa se adoecemos ou se morremos. Viramos estatísticas ou talvez nem isso”, diz ele.  A verdade é que após anos respirando aquela poeira de cor cobre e preta misturada com os farelos de metais pesados, Taranto vive como numa partida que ficará eternamente suspensa.

Janaína Cesar

Formada pela Universidade São Judas Tadeu (SP), trabalha há 17 anos como jornalista e vive há 15 na Itália, onde fez mestrado em imigração, na Universidade de Veneza. Escreve para Estadão, Opera Mundi, IstoÉ e alguns veículos italianos como GQ, Linkiesta e Il Giornale di Vicenza. Foi gerente de projetos da associação Il Quarto Ponte, uma ONG que trabalha com imigração.

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