A pandemia bateu todos os recordes globais neste inÃcio de novembro e registra a impressionante marca de 50 milhões de infecções do SARS-CoV-2 e 1,25 milhão de vidas perdidas, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). As variações diárias, em média, somam mais de meio milhão de casos e cerca de 8 mil óbitos. Isto significa que a covid-19 atingiu novos picos nas curvas de casos e óbitos e a onda que se propaga no segundo semestre de 2020 tem trazido mais mortes do que as muitas já ocorridas na onda do primeiro semestre. A 45ª semana epidemiológica (01 a 07/11) apresentou as cifras médias mais altas da pandemia.
O quadro é preocupante, pois a Europa e a América do Norte voltaram ao epicentro da propagação do vÃrus e da contabilidade de vidas perdidas. PaÃses que pareciam ter se livrado da doença apresentam números assustadores atualmente. Por exemplo, Portugal que foi pouco atingido pela 1ª onda da covid-19, apresenta uma 2ª onda com montantes bem maiores de casos e de mortes. A Bélgica, que foi profundamente atingida na 1ª onda, teve um perÃodo de tranquilidade e agora voltou a bater novos recordes, inclusive se transformando no paÃs com o maior coeficiente de mortalidade (óbitos por milhão de habitantes). A República Tcheca, inesperadamente, se transformou no paÃs com maior coeficiente diário de mortalidade. O continente europeu vive novamente o drama de adotar fortes medidas restritivas de isolamento social numa região já afetada pela recessão econômica, pelo desemprego e pelo cansaço no enfrentamento de uma doença que não dá paz à população.
Nos EUA, o número de pessoas infectadas ultrapassou repetidamente a marca de 100 mil casos e a pandemia bateu recordes sucessivos em plena semana da eleição de 03 de novembro. A covid-19 foi apontada como umas das causas da derrota de Donald Trump, presidente que negou a gravidade da doença e acabou sendo negado pelo eleitorado. Pode-se dizer com alto grau de certeza que o vÃrus derrotou o presidente Trump. Na Nova Zelândia, a pandemia teve pouco impacto e a primeira-ministra Jacinda Ardern derrotou o coronavÃrus e venceu, com larga margem, as eleições gerais de outubro passado. Nos EUA, o presidente Donald Trump tentou negar os fatos e a ciência, perdeu a guerra contra o SARS-CoV-2 e foi derrotado nas eleições.
A 2ª e a 3ª onda da covid-19 na Europa e na América do Norte mostram que é uma péssima ideia apostar na imunidade de rebanho. A Bélgica, que já tinha 10 mil casos por milhão de habitantes na 1ª onda, ultrapassou 40 mil casos na 2ª onda e o número de mortes está crescendo rapidamente, podendo se agravar no inverno do hemisfério norte. O frio, normalmente, favorece a transmissão dos vÃrus respiratórios. Mas não quer dizer que não possa haver uma forte onda no verão, pois o SARS-CoV-2 se propaga por contato na superfÃcie e não apenas pelas vias nasais. Além do mais, o uso de ar-condicionado no verão pode ser um fator de agravamento do risco de contágio. O Brasil deve ficar precavido, pois a disponibilidade de uma vacina efetiva para a imunizar a maioria da população ainda vai demorar.
O panorama global
O mundo já ultrapassou o montante de 50 milhões de pessoas infectadas e 1.250.000 mortes no dia 07 de novembro, segundo o site Worldometers. Mas, para a OMS estes números devem ser alcançados no dia 08 ou 09 de novembro. Há uma certa defasagem na contabilização dos dados, porém, a tendência de recrudescimento global da pandemia é inequÃvoca.
Gostando do conteúdo? Nossas notÃcias também podem chegar no seu e-mail.
Veja o que já enviamosO gráfico abaixo da OMS mostra que o número de casos globais da covid-19 vem crescendo ao longo do ano e bateu todos os recordes na última semana. A OMS divide o mundo em 6 regiões. As Américas incluem a do Norte, Central e do Sul (são 35 paÃses com cerca de 1 bilhão de habitantes) e já apresentaram 21,3 milhões de casos acumulados no dia 07/11 (representando 43,5% do total mundial). A Europa, que inclui a parte Ocidental e Oriental (são 53 paÃses com cerca de 900 milhões de habitantes), soma 12,8 milhões de casos (representado 26% do total mundial).
[g1_quote author_name=”Franklin D. Roosevelt (1882-1945)” author_description=”Presidente dos EUA de 1933 a 1945″ author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]A única coisa que devemos temer é o próprio medo
[/g1_quote]A região do Sudeste da Ãsia inclui Ãndia, Indonésia, etc. (são 11 paÃses com cerca de 2 bilhões bilhão de habitantes) e apresenta 9,6 milhões de casos acumulados (19,5% do total global). A região do Mediterrâneo Oriental, que inclui os paÃses do Norte da Ãfrica, do Oriente Médio e da Ãsia Central (são 21 paÃses com cerca de 700 milhões de habitantes), apresenta 3,3 milhões de casos (6,7% do total global). A Ãfrica, que inclui principalmente os paÃses da Ãfrica Subsaariana (são 46 paÃses e cerca de 1 bilhão de habitantes), apresenta 1,4 milhões de casos (2,8% do total global). A região do PacÃfico Ocidental, que inclui os paÃses do Leste Asiático (China, Coreias, Japão, etc.) e os paÃses da Oceania (são 37 paÃses com cerca de 2 bilhões de habitantes), apresenta 760 mil casos (representando 1,5% do total mundial).
Nota-se que as Américas estão mantendo uma alta proporção de casos durante todo o ano. A Europa teve uma alta proporção do número de casos nos meses de março e abril, diminuiu nos meses seguintes e voltou a aumentar enormemente no mês de outubro e no inÃcio de novembro. O sudeste da Ãsia aumentou significativamente a proporção nos meses de agosto e setembro, mas reduziu o volume nas últimas seis semanas. As regiões do Mediterrâneo Oriental, da Ãfrica e no PacÃfico Ocidental â com cerca de 50% da população do Planeta â têm cerca de 11% dos casos globais.
O outro gráfico abaixo, também da OMS, mostra que o número de óbitos globais da covid-19 que teve um pico em abril de 2020, reduziu a média nos meses seguintes e voltou a ter um novo pico na primeira semana de novembro, com recordes que significam um segundo pico da pandemia, ainda maior do que o primeiro. A soma de vÃtimas fatais nas Américas foi de 653 mil óbitos até 07/11 (representando 53% das mortes globais). A Europa acumulou 308 mil vidas perdidas (25% do total). A região do Sudeste da Ãsia teve até aqui 149 mil falecimentos (12% do total). A região do Mediterrâneo Oriental somou 83 mil mortes (6,7% do total). A Ãfrica acumulou 31 mil óbitos (2,5% do total) e a região do PacÃfico Ocidental teve 16 mil mortes (representando 1,3% do total mundial).
Nota-se que as Américas acumulam a maior proporção de mortes durante todo o ano, a Europa teve uma alta proporção do número de óbitos nos meses de março e abril e voltou a subir enormemente no mês de novembro. O sudeste da Ãsia aumentou muito a proporção das mortes nos meses de agosto e setembro, mas tem diminuÃdo a proporção nas últimas semanas. As regiões do Mediterrâneo Oriental, da Ãfrica e no PacÃfico Ocidental tem menos de 10% das mortes globais.
O Brasil e outros paÃses em destaque no mundo
O Ministério da Saúde não tem conseguido atualizar os dados da pandemia nos últimos dias. A última atualização foi no dia 04 de novembro. Vários estados também estão com problemas para divulgar os dados. Assim, segundo o consórcio de imprensa, com dados não oficiais, o Brasil chegou a 5,65 milhões de casos e 162,3 mil óbitos, com uma taxa de letalidade de 2,9%. Mesmo com todos estes problemas, felizmente, o número de casos e de mortes está diminuindo no Brasil, ao contrário do que acontece na Europa e na América do Norte que enfrentam uma 2ª e até 3ª onda.
O gráfico abaixo, do jornal Financial Times, mostra a média móvel de sete dias do número diário de casos da covid-19, ponderado pelo tamanho da população, para o Brasil e alguns paÃses selecionados. Nota-se que a curva epidemiológica dos casos do Brasil chegou a apresentar os maiores números entre maio e julho de 2020, mas atualmente apresenta números menores. A Bélgica foi o paÃs que apresentou o maior volume de casos na 1ª onda, reduziu bastante os números e voltou a apresentar volumes elevados de pessoas infectadas pelo novo coronavÃrus. Os EUA, mesmo não sendo o paÃs com os maiores volumes de casos atualmente, já estão na 3ª onda e, em termos de cifras acumuladas, já ultrapassaram 10 milhões de casos. O destaque atual é a República Tcheca que tem passado por uma 2ª onda muito acentuada. A Argentina tem apresentado uma onda única, mas que cresce de forma constante. A Ãndia tem números absolutos altos (está atrás apenas dos EUA em números acumulados de casos), mas, quando ponderado pela demografia, o coeficiente de incidência (casos por milhão de habitantes) é mais baixo e apresenta tendência de queda atualmente.
O gráfico abaixo, também do jornal Financial Times, mostra o coeficiente de mortalidade (óbitos por milhão de habitantes) para o Brasil e os mesmos paÃses selecionados. A Bélgica é o paÃs com a maior proporção de mortes da comunidade internacional. A República Tcheca é o paÃs da atualidade com o maior coeficiente de mortalidade diário. A Argentina, que tinha baixo coeficiente, cresceu continuamente e está em vias de ultrapassar o Brasil. Os EUA estão na 3ª onda. A Ãndia tem o menor coeficiente entre os 6 paÃses em questão e apresenta tendência de queda do número diário de óbitos.
A tabela abaixo apresenta os dados dos seis paÃses, por ordem decrescente do tamanho demográfico. A Ãndia tem o segundo montante de casos e o terceiro montante de mortes, mas apresenta os menores coeficientes de incidência (6.143 casos por milhão) e mortalidade (91 mortes por milhão), abaixo da média mundial de casos (6.446 casos por milhão) e de mortes (161 óbitos por milhão). A Bélgica, no extremo oposto, ultrapassou o Peru e apresenta os maiores coeficientes de incidência (42.047 casos por milhão) e de mortalidade (1.095 óbitos por milhão). Mas nota-se que a Bélgica (junto com os EUA) é o paÃs que tem a maior proporção de testes, possivelmente, indicando menor subnotificação. A República Tcheca â que chegou a comemorar o fim da pandemia â agora apresenta os maiores coeficientes diários, embora tenha coeficiente acumulado de mortalidade menor do que o do Brasil, paÃs que só tem coeficiente de mortalidade (766 óbitos por milhão) menor do que o da Bélgica. A Argentina já tem coeficiente de incidência (27,3 mil casos por milhão) maior do que o do Brasil (26,7 mil casos por milhão). A taxa de letalidade varia de 1,1% na República Tcheca a 2,9% no Brasil.
A pandemia tem apresentado números crescentes em termos globais, mas nem todos os paÃses são perdedores. Algumas nações como Taiwan, Camboja, Butão e alguns outros conseguiram vencer o SARS-CoV-2. O que os paÃses que conseguiram eliminar a curva da covid-19 tem em comum é a união entre a sociedade polÃtica (governo) e a sociedade civil. Juntos, o esforço vitorioso tem se concentrado em três princÃpios de ação:
- Testes em massa para identificar todas as pessoas com sintoma da covid-19;
- Rastreamento e monitoramento de todas as pessoas infectadas ou com suspeita de infecção;
- Uma combinação de isolamento social vertical e horizontal, protocolos de higiene e quarentenas efetivas, inclusive, mas não necessariamente, com a adoção de âlockdownâ (fechamento total).
Já os paÃses que perderam o controle sobre a transmissão comunitária do vÃrus encontram dificuldade para conter o surto pandêmico. A pandemia tem apresentado sazonalidade e a propagação tem ocorrido em ondas. O Brasil está em fase de refluxo, mas um novo fluxo não está descartado.
Por exemplo, o Amapá (AP), um estado pequeno da região Norte, com uma população de menos de 1 milhão de habitantes, apresenta uma morbimortalidade superior à média brasileira e superior à média de paÃses altamente impactados pela pandemia. No Amapá, o coeficiente de incidência está em 63 mil casos por milhão de habitantes e o coeficiente de mortalidade está em 900 óbitos por milhão de habitantes. A população do AP, com diversos problemas econômicos e sociais, já vinha sofrendo com o retorno da propagação do SARS-CoV-2 e, subidamente, foi vÃtima de um amplo apagão elétrico, desorganizando o dia-a-dia das pessoas e desmantelando o abastecimento de energia elétrica, de água, derrubando o sinal da Internet e dificultando o atendimento dos pacientes internados para tratamento da covid-19. Da mesma forma que o LÃbano, que teve uma erupção de casos e mortes da pandemia depois da explosão do porto de Beirute, Macapá (e o restante do Amapá), poderá enfrentar um quadro de descontrole da pandemia em decorrência da desestruturação da vida social pós apagão.
O apagão do Amapá e o impacto sobre a pandemia â entrevista com Adrimauro Gemaque
Para entender o que está acontecendo no Amapá nesta semana, entrevistei o amapaense Adrimauro Gemaque, ex-colega do IBGE, que mora em Macapá e é Administrador, Consultor em Gestão Pública e Articulista.
– Dizem que a chuva que caiu em Macapá foi excepcional e fruto das mudanças climáticas. Como você descreve o que aconteceu na terça-feira (03/11/2020)?
Adrimauro Gemaque: Segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), a causa do incêndio ainda não é conhecida e se abriu uma investigação com prazo de 30 dias para apurar as causas e responsabilidades. O que ocorreu na noite de terça-feira, aqui em Macapá, foi surreal. Nunca havia visto algo tão assustador com tantos relâmpagos, trovões e chuvas torrenciais. Choveu em um dia o que estava previsto para o mês. Podemos mesmos estar vivendo novas mudanças climáticas aqui no norte do paÃs.
 – A queda da energia foi um acidente ou um acúmulo de omissões e falta de investimento em infraestrutura?
Adrimauro Gemaque: A distribuição e comercialização da energia no estado é feita pela Companhia de Eletricidade do Amapá â CEA, que é uma empresa do governo do Amapá, que há vários anos já vem enfrentando dÃvidas elevadÃssimas e ameaças de privatização. Em 2012, o governo do Amapá fez um empréstimo de R$ 1.400.000.000,00 para sanear as dÃvidas da CEA. Este empréstimo, que o governo somente terminará de pagar em dezembro de 2034, não deu a eficiência necessária para a empresa, mas elevou em muito a DÃvida Pública do Amapá.
– Como a população está lidando com a falta de energia, de água e de alimentos?
Adrimauro Gemaque: Evidentemente que a população tem sido duramente impactada pela falta de energia, os preços de vários produtos foram elevados, alguns em até 400%, como foi o caso do gelo. O certo é que a falta de energia gerou também outras consequências como o desabastecimento de todo tipo e a falta de comunicação via internet. O certo é que os serviços, de modo geral, foram extremamente atingidos, com prejuÃzos incalculáveis. O que sem dúvida alguma se refletirá em uma grande perda para a economia do Amapá. Veja bem, excluindo a Administração Pública, a atividade dos serviços representa 87,2% do PIB do Amapá.
– Qual é o impacto desta situação sobre a pandemia da covid-19?
Adrimauro Gemaque: Muito preocupante, pois o último Boletim Informativo da Covid-19, divulgado no 03 de novembro, pelo governo do Amapá, aponta que são 52.832 casos confirmados e 1.593 em análise laboratorial. Os testes também descartaram 38.437 casos suspeitos. O prefeito de Macapá, Clécio Luiz, em entrevista neste sábado (07/11) disse que âteme um eventual aumento nos casos de covid-19 após o apagão que atingiu a região â já que, com a falta de energia elétrica, veio também a falta de águaâ. Vale ressaltar que 60% da população do Amapá está na Capital.
– As eleições municipais do próximo domingo estão mantidas?
Adrimauro Gemaque: O Tribunal Regional Eleitoral do Amapá (TRE-AP) afirmou, nesta sexta (06/11), que as eleições municipais estão mantidas no estado, mesmo diante da situação de emergência por conta do blecaute que atingiu 14 das suas 16 cidades do AP. Porém, pelo menos dois candidatos que concorrem ao pleito já se manifestaram pelo adiamento das eleições que foram o João Capiberibe (PSB/REDE) e o Dr. Furlan (Cidadania/MDB). Em paralelo ao processo eleitoral, a comunidade se mobiliza, com a hashtag #SOSAmapá, para ter acesso aos serviços básicos, evitando o descontrole de um novo surto da covid-19 no estado.
Frase do dia 08 de novembro de 2020
âA única coisa que devemos temer é o próprio medoâ
Franklin D. Roosevelt (1882-1945), presidente dos EUA de 1933 a 1945
