Izabel Santos*
Manaus (AM) â Em nove paÃses na Amazônia, os povos indÃgenas enfrentam sozinhos a pandemia do novo coronavÃrus. Eles têm criado seus próprios protocolos, fechado seus territórios com guardas indÃgenas comunitárias e se tratado com medicina ancestral. Mas sem apoio efetivo das autoridades as ações são insuficientes. âNão há polÃticas transfronteiriças entre os governos. E o Brasil, por ter fronteiras com quase todos os paÃses da Amazônia, tem sido um fator de transmissãoâ, denunciou Gregorio Mirabal, do povo indÃgena Kuripaco da Venezuela e coordenador geral da Coordenação das Organizações IndÃgenas da Bacia Amazônica (Coica).
O novo coronavÃrus já matou 1.086 indÃgenas no Brasil, Equador, Peru, Suriname, Venezuela, BolÃvia, Colômbia, Guiana e Guiana Francesa. A Coica e a Coordenação das Organizações IndÃgenas da Amazônia Brasileira (Coiab) levantaram 21.847 casos confirmados de Covid-19 entre 172 dos mais de 390 povos indÃgenas desses paÃses. Organizações indÃgenas participaram da série de diálogos El Grito de La Selva, na Primeira Assembleia Mundial pela Amazônia, evento online que debateu, semana passada, os impactos da doença nas comunidades indÃgenas. Na série, as lideranças se mostraram preocupadas com o avanço da doença na região.
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Veja o que já enviamosâO que vemos é uma ausência total das autoridades nos territórios indÃgenas. Os governos não têm um plano para os povos indÃgenas, só subnotificações, não têm transparência no manejo de recursos da pandemiaâ, afirmou Mirabal em entrevista à agência Amazônia Real. âAlém disso, vemos o colapso total da infraestrutura de saúde e, em muitas comunidades, ela sequer existe. Os povos em isolamento voluntário são os mais vulneráveis nesse contexto.â
A pandemia tem sido oportuna para ataques contra os indÃgenas, criticou a brasileira Valéria Payer Kaxuyana, representante da Coiab, entidade integrante da Coica e comandada pela amazonense Nara Baré. Invasões por garimpeiros, o desmatamento e agora o processo das queimadas têm potencializado a chegada do vÃrus nos territórios, colocando em xeque o respeito aos direitos dos povos indÃgenas, como o isolamento social. âTudo isso sendo incentivado pelo atual governo do Brasil, que também legaliza ocupações promovidas pelas invasões através do Cadastro Ambiental Rural (CAR)â, disse Valéria.
O Brasil, paÃs que conta com o maior número de povos indÃgenas isolados, deveria estar ainda mais preocupado. Segundo o Instituto Socioambiental, são 115 registros de povos indÃgenas vivendo em isolamento, sendo 28 confirmados, outros 86 permanecem em investigação. São esses povos os mais vulneráveis à invasão de não indÃgenas em suas terras.
[g1_quote author_name=”Taciana Coutinho” author_description=”Bióloga e pesquisadora da Universidade Estadual do Amazonas” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Parece que, do dia para noite, o vÃrus arrumou a mala e foi embora de Tabatinga. Quando você passa pela fronteira, a visão é de outro panorama. Do lado brasileiro, não se tem mais controle das ações, fiscalização nenhuma. Em LetÃcia, na Colômbia, para entrar, é preciso explicar o porquê você está indo e o que vai fazer lá. São duas dinâmicas de combate e enfrentamento totalmente diferentes e que, na verdade, deveriam caminhar juntas, porque estamos em constante contato
[/g1_quote]Dos paÃses que formam a Amazônia, o mais afetado pela Covid-19 é o Brasil, com 12.655 casos confirmados e 480 mortos, segundo a Coiab em relatório divulgado em 21 de julho. Depois vêm o Peru, com 3.987 indÃgenas infectados e 379 mortes; Colômbia, 2.748 casos e 113 óbitos; Equador, 1.435 casos e 37 mortes; BolÃvia, 792 casos e 73 mortes; Venezuela, 139 casos e 1 morte; Guiana, 72 casos e 2 mortes; Suriname, 19 casos e 1 morte; e Guiana Francesa com 1 morte.
âA situação na Amazônia peruana é muito crÃtica. Estamos há 120 dias em situação de emergência, mas os povos indÃgenas estão em abandono sanitário”, protestou o presidente da Associação Interétnica para o Desenvolvimento da Selva Peruana (AIDESEP), Lizardo Cauper, do povo Shipibo. “Temos usado a medicina tradicional para nos proteger desse vÃrus, que tem levado tanta genteâ, adicionou. âQuando o governo decretou estado de emergência e isolamento social, foi uma confusão generalizada, pois os povos indÃgenas não entenderam nada, não sabiam do por quê e nem do que se tratava. As organizações indÃgenas que fizeram o papel do governo de esclarecê-losâ, relatou a coordenadora de Ciência e Educação da Coica, Tabea Casique Coronado, do povo Ashaninka do Peru.
Diante das dificuldades e do impacto cultural que a pandemia tem provocado, o presidente da Organización Regional de los Pueblos IndÃgenas del estado Amazonas (Orpia), Eligio Da Costa Evaristo, da Venezuela, defendeu que os indÃgenas deveriam participar da elaboração de protocolos de saúde. âAcho que devemos ter um protocolo indÃgena próprio, um que fosse menos geral. Temos que ter um que considere os nossos conhecimentos ancestraisâ, disse.
Alerta nas fronteiras
Uma iniciativa conjunta entre instituições de pesquisa do Brasil, Colômbia e Peru, incluindo a brasileira Fiocruz, criou a Rede Transfronteiriça Covid-19, liderada pelo biólogo de la Universidad Nacional de Colombia e pesquisador em Medicina Tropical, José JoaquÃn Carvajal. A rede armazena notas técnicas, boletins epidemiológicos, análises de áreas crÃticas e resultados de grupos de pesquisa, com documentos português e espanhol.
âJá nos reunimos com o Ministério da Saúde do Brasil e apresentamos uma proposta de intervenção do Alto Rio Negro, Alto Solimões e Alto Javari, que vai abranger também o lado colombiano e o departamento de Loreto, no Peruâ, informou Carvajal à reportagem da Amazônia Real. Um dos objetivos da rede é impulsionar a participação dos Estados, com as prefeituras de Tabatinga e LetÃcia, para a criação de uma sala situacional entre Brasil e Colômbia com a produção de informes epidemiológicos dos paÃses.
A Colômbia chegou a declarar emergência sanitária na fronteira com o Brasil, entre as cidades de LetÃcia e Tabatinga, por causa do número de casos e da situação do Brasil. Em maio, a cidade de LetÃcia chegou a ter proporcionalmente, o maior número de casos de coronavÃrus da Colômbia (94 a cada 10 mil habitantes). Muitos eram importados do Brasil. Com isso, o paÃs vizinho reforçou a presença de militares no local e tornou mais rÃgidas as regras de trânsito de pessoas no local.
âEm LetÃcia, o diferencial é que existe uma testagem mais eficiente na população, daà o Ãndice de infectados ser bem maior. Aqui, em Tabatinga, voltou ao ânormalâ e não se tem uma testagem como lá. Se em uma casa existe uma pessoa contaminada, toda famÃlia é testada. Isso fez a grande diferença no número de casos. Em Tabatinga, podemos ter muito mais contaminados do que LetÃcia, porém não se tem esse registro eficaz de testagemâ, avaliou a bióloga Taciana de Carvalho Coutinho, colaboradora do Núcleo de Estudos Socioambientais do Amazonas (Nesam), da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).
âParece que, do dia para noite, o vÃrus arrumou a mala e foi embora de Tabatinga. Quando você passa pela fronteira, a visão é de outro panorama. Do lado brasileiro, não se tem mais controle das ações, fiscalização nenhuma. Em LetÃcia, para entrar, é preciso explicar o porquê você está indo e o que vai fazer lá. São duas dinâmicas de combate e enfrentamento totalmente diferentes e que, na verdade, deveriam caminhar juntas, porque estamos em constante contatoâ, acrescentou Taciana Coutinho.
Ainda na Colômbia, 44 povos indÃgenas foram afetados pela covid-19, sendo que os Tikuna, também presentes no Brasil, concentram o maior número de casos, totalizando 311, de acordo com o último boletim da Coica. Entre os afetados ainda estão, Witoto, Kokama, Desano, Tukano, Kuripako, Piratapuya, Tuyuca e Wanano, todos com registro no Brasil. De acordo com a Organizacion Nacional IndÃgena de Colombia, mais de 400 mil famÃlias indÃgenas seguem em risco de contágio.
As situações em outros paÃses também são alarmantes. No Peru, o sistema de saúde enfrentou no inÃcio de junho escassez de oxigênio, comprometendo o tratamento de doentes graves. O governo peruano declarou o oxigênio como ârecurso estratégicoâ. O paÃs entrou em confinamento três meses, com toque de recolher noturno e fronteiras fechadas.
O Equador foi o primeiro paÃs da América Latina a entrar em colapso sanitário e, no dia 11 de março, o governo do presidente LenÃn Moreno declarou estado de emergência sanitária, pois o sistema de saúde estava sobrecarregado e as funerárias não conseguiam mais dar conta dos enterros. Imagens de caixões e cadáveres sendo abandonados nas ruas da segunda maior cidade do paÃs, Guayaquil, foram exibidas mundialmente. Foi preciso o governo intervir para recolher e enterrar os mortos do novo coronavÃrus e outras doenças.
Para a bióloga Taciana de Carvalho Coutinho é importante entender que para os indÃgenas Kokama não existe uma fronteira de divisão entre os povos brasileiros, colombianos e peruanos. Segundo ela, esse povo faz parte da etnia que mais teve mortes não contabilizadas de maneira correta, além de não serem incluÃdas no boletim oficial do Distrito Sanitário (Dsei) do Alto Solimões. âA luta deles tem sido diária para a distribuição de alimentos, acompanhamento das lideranças e uso com medicamentos caseirosâ, disse.
Atualmente, o trabalho do Núcleo de Estudos Socioambientais do Amazonas (Nesam) da UEA, que forma uma rede de pesquisa sediada no Alto Solimões desde a sua criação, em 2014, envolve a parceria com mulheres indÃgenas Tikuna em Benjamim Constant. São elas que distribuem álcool em gel em comunidades. âComo são indÃgenas, a entrada delas é permitida. O próximo passo é iniciar a distribuição de 300 cestas básicas durante seis meses para 300 famÃlias e estudantes indÃgenas, que são os mais necessitados. A UEA atende a mais 500 alunos indÃgenas das etnias Tikuna, Kokama, Kambeba, Kaixana, Marubo, Matis e Kanamari. Eles não recebem nenhum apoio do governo federal e, infelizmente, são invisÃveis aos projetos de polÃticas públicas, daà a distorção nos registrosâ, disse Taciana Coutinho.
*Amazônia Real
