A Reta Velha é um dos bairros limÃtrofes entre Itaboraà e o municÃpio vizinho, Tanguá, na Região Metropolitana do Rio. Visto pelo mapa, o bairro até parece ter sido planejado, com ruas e avenidas de traçado paralelo. Mas o chão de terra batida e as casas simples, são cenário do abandono do poder público, que se reflete na falta de serviços básicos e na violência imposta pela presença do crime organizado. Do alto do Hospital Tavares de Macedo, do outro lado da Avenida Vinte e Dois de Maio, uma das principais vias da cidade e que separa as duas regiões, é possÃvel ter uma visão geral do bairro vizinho. A comunidade se construiu ao longo dos anos como uma espécie de satélite do antigo hospital-colônia que internava compulsoriamente doentes de hansenÃase.
[g1_quote author_name=”Dolores Maciel da Silva” author_description=”Ex-interna da Colônia Tavares de Macedo” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Tive que arrumar uma casa fora da colônia para o parto porque senão levariam minha filha para o educandário. A minha irmã, que era enfermeira, foi quem cuidou de mim e pegou a neném. Todo mundo deixava as crianças na casa dos amigos para não ir para o educandário e várias ficaram na casa dela
[/g1_quote]No bairro, parentes e egressos do âleprosárioâ acabaram se instalando e construindo a vida. à lá que a casa de uma importante personagem da história do hospital resiste à ação do tempo há mais de cinco décadas. A residência de apenas três cômodos chegou a ser abrigo de mais de cinquenta crianças, filhos e filhas de pacientes da Colônia Tavares de Macedo, resgatados por uma enfermeira da instituição antes que fossem levados à força para o Educandário Vista Alegre, em São Gonçalo, e provavelmente nunca voltassem a ter contato com seus pais e mães.
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Veja o que já enviamosAssista ao nosso webdocumentário “Dona Santinha”, sobre a polÃtica de isolamento compulsório
Dédima Pinto Braga nasceu em Mantenópolis, uma pequena cidade, hoje com cerca de 15 mil habitantes, na divisa entre o EspÃrito Santo e Minas Gerais. A mudança para o Rio de Janeiro aconteceu quando seu marido adoeceu e foi diagnosticado com hansenÃase. Oreste Ferreira Braga foi internado na Tavares de Macedo e a esposa passou a atuar como uma espécie de enfermeira na colônia para ficar próxima do companheiro. Ao longo do tempo, o quarto, sala e cozinha no bairro da Reta que a mãe dividia com os quatro filhos passou a ser compartilhado também com as crianças que nasciam nos limites da colônia â ou até fora dela, porque Dédima também auxiliava mães a darem à luz a seus bebês do lado de fora numa tentativa de livrar as crianças da polÃtica de combate à doença.
Durante quatro décadas, a polÃtica de combate da hansenÃase no Brasil consistia em internar os portadores da doença à força e separá-los da famÃlia, inclusive de seus filhos recém-nascidos. As colônias de leprosos ou leprosários reforçaram o preconceito contra uma doença que deixa de ser transmissÃvel ao ser tratada e tem cura para a maioria das pessoas. Série de reportagens de LetÃcia Lopes no #Colabora conta que, os sobreviventes lembram ainda hoje as dores da separação e muitos filhos cobram reparação do Estado na Justiça. ÂLeia todas as reportagens da série HansenÃase: internação à força e filhos separados dos pais
â Eu tive a minha caçula em uma casa, tive que arrumar uma casa fora da colônia para o parto porque senão levariam ela para o educandário. Os hospitais por aà afora não aceitavam a gente porque sabiam que a gente era daqui. A minha irmã, que era enfermeira aqui dentro, é que cuidou de mim e pegou a neném. Todo mundo deixava as crianças na casa dos amigos para não ir para o educandário e várias ficaram na casa dela. Perderam muita criança assim, porque levavam para o educandário e sumiam com os meninos. Tem várias que foram roubadas â lembra Dolores Maciel da Silva, aos 79 anos.
Dona Dodô, como é chamada pela famÃlia e amigos, é irmã de Dédima. Ela e o marido já eram pais de duas meninas quando chegaram à ItaboraÃ. Com a doença em estágio mais avançado, só Dolores foi internada. Silvino Martins da Silva tinha os sinais da hansenÃase em partes não visÃveis do corpo e passou a se tratar escondido das autoridades enquanto trabalhava na Baixada Fluminense para ajudar nas despesas da casa da cunhada, onde passaram a morar as três filhas do casal, Ana Cleide, Cleima e Cleumene, a caçula nascida no Rio.
â Foi ela que fez o parto da maioria das crianças que não chegaram a ir para o educandário. Se você chegar ali na colônia e falar âDona Dédimaâ, olha⦠Eu nunca vi ninguém falar mal dela, sabe? A casa dela era sempre cheia, muita criança, e, se chegasse uma de fora e não tivesse roupa, ela cortava lençol e fazia blusinha, shortinho. Ela tirava da própria boca para dar para a gente. Ajudou muita gente, muita criança â recorda Cleima Maciel da Silva, que passou mais de dez anos na casa da tia, sem contato com a mãe, interna da Tavares de Macedo.
Para colocar comida na mesa e alimentar os filhos de sangue e do coração, Dédima trazia sobras da colônia e também contava com a ajuda dos filhos já adultos, que trabalhavam e ajudavam nas despesas da casa, além do cuidado com os mais novos e as crianças que iam chegando.
â Um dos meus primos é muito revoltado. Lembra de ver titia agradecendo a Deus pela vida que levava, apesar de tudo. Fritava um ovo para dividir com todo mundo, comendo feijão com farinha. Mas ela agradecia mesmo assim, sabe? Lembro que ela espremia uma laranja em um litro dâágua, para poder fazer âsucoâ que rendesse para todo mundo. E que suco gostoso, sabe? Era o suco mais gostoso do mundo â lembra Cleima, em meio a uma risada emocionada â Hoje a gente se encontra e lembra daquela época. Um ajudava o outro. Mas ela lutava muito, sofria muito para alimentar a gente. Trazia pão da colônia, comida que sobrava: era um dia após o outro.
A vida de dificuldades e sacrifÃcios fez Dédima partir cedo, com pouco mais de 50 anos. A enfermeira sofria de problemas cardÃacos, e a falta de dinheiro impossibilitou que seus medicamentos fossem comprados. Depois da morte da matriarca, os filhos assumiram o cuidado da casa e das crianças.
â Lembro que ela parecia triste, uma pessoa muito triste. Falava pouco, mas daquele jeitinho muito devagarinho, muito calminho, você não via o tom de voz aumentar. Eu tinha dez anos quando ela faleceu. Naquela semana, não tinha dinheiro para comprar o remédio dela, e fazia seis meses que o marido dela tinha morrido. Ele caiu de cima de um telhado dentro da colônia e bateu com a cabeça. Chegou a ser internado, mas não teve jeito â conta Cleima. â Acho que ela morreu cedo por conta disso, muita luta. Tenho um orgulho danado dela.
