A Ãndia está afogada em uma catastrófica segunda onda da covid-19 – com 400 mil casos e 4 mil mortes por dia â e já foi avisada pelo principal assessor cientÃfico do governo que uma terceira onda está a caminho. O paÃs, no entanto, não enfrenta apenas o vÃrus, mas uma gigantesca máquina de propaganda da pseudociência, que se propaga há vários anos na Ãndia. Desde o inÃcio da pandemia, receitas pseudocientÃficas são endossadas por polÃticos da extrema-direita, gurus e até atores de Bollywood.
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Segundo paÃs mais populoso do mundo, com 1.3 bilhão de habitantes, a Ãndia tem o maior número de usuários de WhatsApp (750 milhões de pessoas) e essa rede social foi um dos principais túneis de disseminação de tratamentos para a covid-19 que não contam com a chancela cientÃfica. Alguns deles são elixires à base de urina de vaca (animal sagrado no hinduÃsmo), a ingestão de leite com cúrcuma e a aspiração de ar quente, seja de uma sauna, seja do secador de cabelos.
Nas últimas semanas, circularam no mundo imagens de multidões de sadhus (homens santos do hinduÃsmo) e fiéis banhando-se nas águas do Rio Ganges, considerado sagrado, durante o famoso festival Kumbh Mela, na cidade de Haridwar, em abril. A água, foi descrita, então, como âuma benção que fluiâ. Muitos voltaram infectados de lá, quando a Ãndia já se afogava na segunda onda da pandemia. PolÃticos chegaram a pedir a médicos e cientistas que descobrissem propriedades curadoras da Gangajal (como é chamada a água do Ganges) contra a doença.
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Veja o que já enviamosAs pessoas pobres, que vivem nas áreas rurais, com pouco acesso à educação, são os mais vulneráveis a esse tipo de curanderismo perigoso e enganoso. Parte do problema vem de uma cultura que procura soluções na religião, mais do que na ciência
[/g1_quote]A Ãndia, como o Brasil de Jair Bolsonaro, é governada pela extrema-direita representada pelo BJP (Bharatyia Janata Party, ou Partido do Povo Indiano), do primeiro-ministro Narendra Modi. E os governantes indianos não impediram a realização do Kumbh Mela. Além disso, Modi chegou até mesmo a participar de um comÃcio, já que o paÃs passava, de fevereiro a abril, por uma campanha eleitoral em cinco estados.
Um evento que simboliza o problema da pseudociência na Ãndia ocorreu em março de 2020, quando se iniciava a pandemia: foi a festa da Gaumutra (urina de vaca), realizada em Kolkota (a antiga Calcutá) e organizada por um grupo de hindus fundamentalistas. Seus participantes, cerca de 200 pessoas, se enfileiravam para beber um preparado à base de urina de vaca que âos protegeriam contra o vÃrusâ.
A urina de vaca e outros elementos relacionados a esse animal sagrado (como esterco e o ghee, a manteiga clarificada) são, há alguns anos, vendidos como produtos com propriedades curativas por esses grupos fundamentalistas hindus e empresas ligadas a eles. Essas bebidas à base de urina de vaca, indicadas para doenças das mais diversas, como diabetes e até câncer, foram apelidadas pela mÃdia indiana de âcow ka colaâ.
Na pandemia, as bebidas de gaumutra apareceram em cena. Um lÃder polÃtico do estado de Assam (Nordeste da Ãndia), do partido governista, chegou a afirmar em uma sessão da Assembleia Legislativa que urina e esterco de vaca poderiam ser usados no tratamento contra o coronavÃrus.
Em junho do ano passado, quando o paÃs vivia a primeira onda, um dos gurus de Ioga mais populares da Ãndia, Baba Ramdev, lançou o Corona kit, com três produtos: Coronil, Swasari e Anu Tel. Ele dizia que os âremédiosâ eram capazes de curar o doente em sete dias. As afirmações do guru – um grande aliado do BJP de Modi – causaram polêmica. As autoridades de saúde do estado de Uttarakhand, onde estão a sede da Patanjali e o principal ashram (retiro espiritual) de Ramdev, autorizaram a propaganda do produto como suplemento para ajudar no gerenciamento da covid-19.
Em fevereiro deste ano, em evento diante do ministro da Saúde da Ãndia, Harsh Vardham, Ramdev afirmou que seu remédio – condenado pela Associação Médica Indiana – havia sido certificado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), mas a entidade desmentiu a informação, esclarecendo que não certificou a efetividade de nenhum produto da chamada medicina alternativa para o tratamento da covid-19.
Atores da indústria cinematográfica de Bollywood também envolveram-se em polêmicas durante a pandemia por promover produtos naturais contra o vÃrus, sem o aval da ciência. O galã Akshay Kumar, por exemplo, virou garoto-propaganda de um tradicional produto da medicina aiurvédica chamado Chyawanprash: uma mistura de ingredientes naturais como mel, geleia de frutas, ghee, ervas e especiarias. Ironicamente, Kumar acabou infectado pelo coronavÃrus e tratou-se com médicos que seguem as orientações da ciência.
Nascida na Ãndia, a professora Ayesha Ray, do Departamento de Ciências PolÃtica do Kingâs College Pennsylvania (Estados Unidos), critica os tratamentos falsos que tem sido pregados por sadhus e gurus, afirmando que isso leva à desinformação sobre a covid-19. âAs pessoas pobres, que vivem nas áreas rurais, com pouco acesso à educação, são as mais vulneráveis a esse tipo de curandeirismo perigoso e enganoso. Parte do problema vem de uma cultura que procura soluções na religião, mais do que na ciênciaâ, afirmou Ray ao #Colabora.
A cientista polÃtica ressalta que o próprio ministro da Saúde da Ãndia endossou repetidamente tratamentos aiurvédicos contra a covid-19: âO governo indiano é completamente responsável pela promoção desses tratamentos e pelos eventos terrÃveis que ocorrem agora. O ministro da Saúde tem feito uma série de comentários não cientÃficos. à chocanteâ.
Em artigo intitulado âSegunda Onda: pseudociência está por trás da crise de covid-19 na Ãndiaâ, o indiano Ashok Swain, professor de Relações Internacionais na Uppsala University (Suécia), lembra que três paÃses do mundo responderam muito mal à crise do coronavÃrus: EUA, Brasil e Ãndia
No caso dos EUA, o então presidente Donald Trump chegou a sugerir desinfetante para o tratamento contra o vÃrus e Jair Bolsonaro não se cansa de defender uso da hidroxicloroquina, mesmo após os cientistas alertarem que não é eficaz. âAlém de serem todos governos de extrema-direita populista, o outro aspecto em comum entre esses três paÃses é ignorar a ciência e os dados para glorificar as crenças popularesâ, ressaltou.
No caso especÃfico da Ãndia, Ashok Swain explicou que o governo de extrema-direita que assumiu o poder a partir de 2014 passou a fazer âreivindicações sensacionais, como as de que cirurgias cosméticas e a ciência genética existiam na Ãndia há milhares de anosâ. De acordo com o professor, a pseudociência tem causado prejuÃzo à habilidade e preparo da Ãndia em lutar contra o coronavÃrus.
O escritor indiano best-seller Chetan Bhagat fez um apelo em prol da Ciência na coluna que assina no The Times of India, principal jornal em lÃngua inglesa do paÃs. âMilhões de pessoas foram se banhar no rio durante o Kumbh Mela, mesmo diante do fato estabelecido da segunda onda [da pandemia]â, afirmou. âAme a sua religião, siga e respeita as tradições. Mas seja cientÃfico. Apenas isso vai nos fazer criar uma era de ouro para a Ãndia novamenteâ, concluiu.
