Falta de reação à vacina para covid-19 não é problema

Enfermeiras preparam doses da vacina contra a covid-19 da AstraZeneca no município mineiro de Paraisópolis: falta de reação não é falta de proteção (Foto: Mauricio Camargo/ NurPhoto / AFP – 14/04/2021)

Imunologista explica que falta de efeito colateral, como febre, não significa falta de proteção e boa parte dos vacinados não registra qualquer desconforto

Por The Conversation | ODS 3 • Publicada em 5 de maio de 2021 - 09:00 • Atualizada em 7 de maio de 2021 - 20:14

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Enfermeiras preparam doses da vacina contra a covid-19 da AstraZeneca no município mineiro de Paraisópolis: falta de reação não é falta de proteção (Foto: Mauricio Camargo/ NurPhoto / AFP – 14/04/2021)

Veenu Manoharan*

A maioria das vacinas tem efeitos colaterais e as vacinas contra a covid não são diferentes. Campanhas tem buscado tranquilizar o público informando que sentir dor no braço onde a agulha foi inserida ou cansaço, dor de cabeça, febre ou náusea são apenas sinais de que o sistema imunológico está funcionando como deveria. Isso deixou algumas pessoas se perguntando: se é o sistema imunológico fazendo o que deve fazer, a falta de efeitos colaterais significa que meu sistema imunológico não foi preparado para me proteger?

Fique tranquilo: falta de reação não significa falta de proteção. Os ensaios clínicos de vacinas conduzidos pela Pfizer mostram que 50% dos participantes não experimentaram efeitos colaterais significativos durante os testes, mas 90% dos participantes desenvolveram imunidade contra o vírus. E a própria bula da vacina Moderna diz que os efeitos colaterais comuns podem ser experimentados por uma em cada dez pessoas, mas a vacina protege 95% daqueles que a tomam.

Isso pode ser explicado considerando a maneira como o sistema imunológico desenvolve imunidade protetora contra vírus quando acionado para fazê-lo por uma vacina. A maioria das vacinas contra a covid – inclusive a AstraZeneca, aplicada no Brasil – usa uma proteína viral encontrada no envelope externo do coronavírus, conhecida como proteína spike, para simular uma infecção viral natural e iniciar uma resposta imune.

O ramo da resposta imune conhecido como imunidade inata responde quase imediatamente à proteína viral. Ele lança um ataque contra ele, iniciando uma inflamação, cujos sinais cardeais são febre e dor. Portanto, é a resposta imune inata que causa os efeitos colaterais comuns que as pessoas experimentam um ou dois dias depois de terem recebido a injeção.

A imunidade específica de longa duração – o objetivo final de qualquer vacinação – é alcançada apenas pela ativação do segundo ramo da resposta imune: a imunidade adaptativa. A imunidade adaptativa é acionada com o auxílio dos componentes da imunidade inata e resulta na geração de células T e anticorpos, que protegem contra a infecção na exposição subsequente ao vírus.

Ao contrário da imunidade inata, a imunidade adaptativa não pode iniciar a inflamação, embora estudos recentes sugiram que ela pode contribuir significativamente para isso. Em algumas pessoas, essa resposta inflamatória tanto do sistema imunológico inato quanto do adaptativo é exagerada e se manifesta como um efeito colateral. Em outros, embora esteja funcionando normalmente, não está em níveis que possam causar efeitos colaterais perceptíveis. De qualquer forma, a imunidade contra o vírus é estabelecida.

O que causa uma resposta imunológica diferente?

Os cientistas já perceberam que as pessoas com mais de 65 anos estão tendo menos efeitos colaterais com a vacina do que os mais jovens. Isso pode ser atribuído ao declínio gradual relacionado à idade na atividade imunológica. Embora isso possa estar relacionado a níveis mais baixos de anticorpos, eles ainda têm imunidade contra o vírus.

As diferentes reações podem estar relacionadas também ao sexo da pessoa vacinada. Em um estudo nos Estados Unidos, 79% dos relatos de efeitos colaterais foram de mulheres. Esse viés sexual pode ter algo a ver com a testosterona. A testosterona tende a diminuir a inflamação e, portanto, os efeitos colaterais associados a ela. Os homens têm mais testosterona do que as mulheres, o que pode contribuir para menos relatos de efeitos colaterais em homens.

Pessoas sofrendo de doenças inflamatórias crônicas – como artrite reumatóide, doença inflamatória intestinal e esclerose múltipla – que tomam medicamentos imunossupressores para controlar seus sintomas, podem sentir menos efeitos colaterais devido a uma resposta inflamatória atenuada. Embora a resposta imunológica seja atenuada, isso não significa que seja inexistente. Estudo de 2020, que comparou os níveis de anticorpos em pessoas que usavam drogas imunossupressoras com aquelas que não estavam, mostrou que pessoas em drogas imunossupressoras produziram níveis mais baixos de anticorpos, mas nenhuma delas estava desprovida de anticorpos antivirais.

Os efeitos colaterais da vacina não devem ser considerados como uma medida da eficácia da vacina. Apesar da variada resposta imunológica às vacinas, a maioria das pessoas obtém imunidade contra o coronavírus na vacinação, independentemente da presença, ausência e gravidade dos efeitos colaterais.

*Veenu Manoharan é professora de Imunologia da Universidade Metropolitana de Cardiff (País de Gales)

The Conversation

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