Emily Costa*
Boa Vista (RR) â Há quase seis meses, a famÃlia luta para levar os restos mortais da mestra da cultura Macuxi Bernaldina José Pedro, conhecida como Vovó Bernaldina, para a comunidade Maturuca, onde viveu desde os 20 anos de idade. A matriarca foi uma das lÃderes pela demarcação da Terra IndÃgena Raposa Serra do Sol, em Roraima. Em 14 de junho, ela foi levada à s pressas de seu território para a capital Boa Vista, onde recebeu tratamento para a covid-19 no Hospital Geral de Roraima. Nunca mais voltou.
à revelia da famÃlia, o corpo de Vovó Bernaldina foi enterrado em uma sepultura comum no Parque Cemitério Campo da Saudade, em Boa Vista. âA pessoa que morre tem que ser enterrada na comunidade em que começou a sua luta, os seus trabalhos, e também onde deixou suas lembranças e legados, para não ficar tão esquecido quanto se ficar enterrado na cidadeâ, desabafou Charles Gabriel, um dos seis filhos da vovó, que deixou 15 netos.
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Veja o que já enviamosEle teme que, enterrada tão longe de casa, ela seja esquecida pela comunidade. A anciã era uma liderança reconhecida internacionalmente pela luta da demarcação da Terra IndÃgena Raposa Serra do Sol, homologada em 2005. Esteve com o Papa Francisco, em Roma, em 2018.
[g1_quote author_name=”Charles Gabriel” author_description=”Professor, filho de Bernaldina” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Era um buraco cavado de qualquer jeito, de um tamanho muito grande, muito mesmo, mais de dois metros de comprimento e mais de sete palmos
[/g1_quote]Em 2018, Vovó Bernaldina esteve em Roma onde conheceu o papa Francisco e entregou a ele uma carta em nome do povo Macuxi. O documento mencionou as ameaças de garimpo ilegal, construção de hidrelétricas e ocupações dos territórios indÃgenas, especialmente as Terras IndÃgenas Yanomami e Raposa Serra do Sol. âNós, povos indÃgenas, sabemos viver bem na natureza. Se nos matarem, a natureza morre e será o fim do mundoâ, escreveu Bernaldina na carta entregue ao PontÃfice.
A mestra da cultura Bernaldina José Pedro faleceu na noite de 24 de junho, aos 75 anos. Ficou dez dias internada, cinco deles sentada em uma poltrona, porque faltavam leitos no Hospital Geral de Roraima. A unidade é a única para pacientes graves de Covid-19 no estado que tem proporcionalmente a maior população indÃgena do paÃs. âEla foi ficando cada dia mais frágil, sem ar e muito cansadaâ, relembra o filho, Charles Gabriel, de 41 anos, professor de lÃngua Macuxi. Ele próprio chegou a ser internado.
Vovó Bernaldina, como era conhecida, possuÃa um rico conhecimento sobre as canções, as danças, o artesanato, a medicina tradicional e as orações do povo Macuxi. Diagnosticada com a Covid-19, ela ficou hospitalizada por 10 dias, entre 14 e 24 de junho. Segundo o filho, a mãe ficou cinco dias numa cadeira plástica, recebendo oxigênio e só depois foi para um leito onde passou a ser medicada. Durante a internação, Charles Gabriel gravou vÃdeos documentando a luta da mãe, alguns deles compartilhados com a Amazônia Real.
Em um deles, a matriarca Macuxi está sentada e respira com dificuldade. Em outro, sofre com o calor e precisa ser abanada. âDepois de cinco dias no hospital, ela não conseguia mais andar. O banheiro era péssimo, ruim, fedorento, não tinha ventilação. E minha mãe ficou muito cansada, muito cansada mesmo. Não podia nem andar sem oxigênio.â
O enterro da anciã Bernaldina José Pedro foi registrado em um vÃdeo de 6 minutos pelo filho. Ele mostra o caixão da mãe sendo carregado para o sepultamento comum no cemitério privado de Boa Vista, mas conflitante ao costume indÃgena. âEra um buraco cavado de qualquer jeito, de um tamanho muito grande, muito mesmo, mais de dois metros de comprimento e mais de sete palmosâ, descreveu.
Violação de direitos indÃgenas
Além de Bernaldina José Pedro, o Conselho IndÃgena de Roraima (CIR) listou as lideranças Macuxi vÃtimas da Covid-19: Alvino Andrade da Silva, 59 anos, José Adalberto Silva, 61, Secundino Raposo, 74, Euzébio de Lima Marques, 59, Valmir Izidoro Mecias, José Mota Henriques, 71, e os professores Fausto Mandulão, 68, Luciano Peres, 68, Alvino de Andrade Silva, 58 anos, Maika Ferreira de Melo, 40, Bernita Miguel, 52 e Getúlio Tobias.
Outros familiares de indÃgenas vÃtimas da Covid-19 enfrentam a mesma luta, em Roraima. Em 9 de maio, Raquel Raposo, de 17 anos, foi a primeira Macuxi morta pelo novo coronavÃrus. Um mês antes, um jovem Yanomami de 15 anos, foi o primeiro indÃgena vÃtima da Covid-19 no estado. O enterro de Raquel, feito à s pressas, só pode ser acompanhado pela mãe, Marlene Raposo.
âNinguém mais conseguiu chegar a tempo. Era domingo de Dia das Mãesâ, disse Marlene, que desejava que a filha fosse enterrada na comunidade Bom Jesus, da Terra IndÃgena São Marcos. O território tem uma população de cerca de 6,5 mil Ãndios das etnias Macuxi, Wapichana e Taurepang. Raquel Raposo morreu após dois dias de internação no Hospital Geral de Roraima. âQuando saiu de casa ela sofria com muitas dores na barriga, e perdia muito sangue. Piorou e foi retirada da comunidade. Em Boa Vista, disseram que era coronavÃrus e logo depois ela morreu.â
A famÃlia do Yanomami aguarda que o corpo seja cremado no território no ritual da etnia. Uma ação tramita no Ministério Público Federal. Os sepultamentos no cemitério de Boa Vista em desrespeito aos rituais indÃgenas foram determinados pela Secretaria Especial de Saúde IndÃgena (Sesai), do Ministério da Saúde. Os Yanomami aguardam também a liberação dos corpos de três bebês. As mães das crianças, que não sabiam dos sepultamentos, achavam que elas estavam desaparecidas.
Dois indÃgenas Wai Wai, todos vÃtimas da Covid-19, também foram enterrados em Boa Vista. As famÃlias pedem pelo direito ao sepultamento nas comunidades. Os indÃgenas Wai Wai chegaram a ingressar com uma ação na Justiça cobrando o direito do sepultamento das duas vÃtimas da etnia em Roraima. As três etnias afirmam que não autorizaram os enterros no cemitério da capital.
Roraima tem mais de 90 indÃgenas mortos pela covid-19
O Distrito Sanitário Especial IndÃgena Leste (Dsei-Leste), que atende a uma população de 51.797 mil indÃgenas de sete etnias (Macuxi, Wapichana, Taurepang, Ingaricó, Patamona, Wai Wai e Sapará) tem o segundo maior número de mortes por Covid-19 entre os 34 Dseis do paÃs. Até esta segunda-feira (23 de novembro), segundo a Sesai, eram 47 óbitos e 2.458 casos confirmados do novo coronavÃrus no Dsei-Leste.
Mas pode ter havido o dobro de indÃgenas mortos pela Covid-19 em Roraima. Segundo o levantamento da Coordenação das Organizações IndÃgenas da Amazônia Brasileira (Coiab), até 10 de novembro, foram 92 óbitos entre os indÃgenas do estado. A etnia mais afetada foi a Macuxi com 19 mortes, depois Yanomami (11), Wapichana (7), Taurepang (2), Wai Wai (2) e Warao da Venezuela (2). Outras 49 vÃtimas indÃgenas da pandemia ainda não haviam sido identificadas conforme sua etnia. A Coiab mantém um monitoramento próprio dos casos entre os povos da região (aldeados ou não).
Segundo o presidente do Conselho Distrital de Saúde IndÃgena do Dsei-Leste, Manduca Tavares, a pandemia começou a se espalhar pelas comunidades ainda em maio. Ele atribuiu a disseminação acelerada à necessidade dos indÃgenas de quebrarem o isolamento. âAs pessoas saÃam para os municÃpios e retornavam para a comunidade, então os casos evoluÃram rapidamenteâ. Quando se iniciaram os saques do auxÃlio emergencial, do governo federal, houve aglomerações nas agências bancárias. Não há bancos, nem casas lotéricas nas comunidades.
Outro fator potencializador foi a forma de vida nas comunidades, onde o convÃvio é quase sempre coletivo, segundo Tavares. âÃs vezes, as pessoas também não sentiam sintomas ou eram sintomas leves e saÃam para visitar os parentes, porque esses são os nossos costumes. à claro que buscamos conscientizar as pessoas, mas não foram todas que obedeceramâ, disse o presidente do Condisi-Leste.
*Esta reportagem da Amazônia Real foi financiada pelo Fundo Global de AuxÃlio Emergencial ao Jornalismo do Google News Initiative para notÃcias locais no âmbito da pandemia da covid-19.
