(Ana Lúcia Mantel*) – Boa Vista (RR) – O governo Bolsonaro entupiu aldeias da Amazônia com comprimidos de cloroquina 150 miligramas (mg). Desde que o Brasil confirmou o primeiro caso do novo coronavÃrus, em 26 de fevereiro de 2020, os Distritos Sanitários Especiais IndÃgenas (Dseis) da região receberam 622 mil comprimidos do medicamento enviados pelo Ministério da Saúde. O primeiro caso de Covid-19 entre indÃgenas foi confirmado pela Sesai (Secretaria Especial de Saúde IndÃgena) no dia 1º de abril de 2020; menos de 10 dias depois, foi registrada a primeira morte.
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Só o Dsei Yanomami, em Roraima, recebeu quantidade suficiente para oferecer 10 comprimidos por indÃgena, muito acima do necessário. Nos Dseis Rio Tapajós, no Pará, e Médio Rio Purus, no Amazonas, foram destinados 4,3 e 4,2 comprimidos por indÃgena, duas vezes mais do que a média distribuÃda para os 20 Dseis da região amazônica.
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Veja o que já enviamosA informação consta da Nota Informativa nº 8, uma resposta da Secretaria Especial de Saúde IndÃgena (Sesai), do Ministério da Saúde, para a CPI da Covid, a partir de um requerimento de autoria dos senadores Humberto Costa e Rogério Carvalho, ambos do PT, ao qual a Amazônia Real teve acesso. O objetivo era saber como o governo Bolsonaro atuou ou deixou de atuar em relação ao combate da pandemia nos territórios indÃgenas.
Na resposta, a Sesai informa que ânos primeiros meses da pandemia, não havia evidências cientÃficas ou estudos conclusivos que estabelecessem um protocolo especÃfico para tratamento da covid-19â e âa prescrição de todo e qualquer medicamento é prerrogativa do médicoâ. Nessa mesma resposta, o órgão informa ainda que não houve âaquisição, distribuição, utilização de medicamentos sob o tÃtulo de âkit-covidââ.
O que os senadores suspeitam é que as aldeias indÃgenas estão sendo utilizadas para desovar os estoques de cloroquina, produzidos ou comprados em massa por ordem de Jair Bolsonaro (sem partido). O medicamento é um antimalárico, historicamente empregado em regiões de alta incidência da malária. Sua aplicação obedece a protocolo clÃnico especÃfico para a doença.
De acordo com a nota da Sesai, a malária é endêmica em 25 dos 34 Dseis do Brasil. Contudo, em alguns Dseis localizados na região Norte, como Dsei Manaus, Dsei Alto Rio Purus e Dsei Alto Rio Negro, a proporção de cloroquina 150 mg entregues foi inferior a um comprimido por indÃgena, o que revela uma falta de estratégia para o uso do medicamento. âPercebemos que o governo estava fazendo campanha como propaganda do governo federal distribuindo os remédios nas Terras IndÃgenasâ, explicou o lÃder Dário Kopenawa Yanomami, vice-presidente da Hutukara Associação Yanomami (HAY).
Ele contou que a organização denunciou à s autoridades o uso polÃtico da distribuição de cloroquina nas aldeias. âJá que o uso do medicamento não era para covid-19, por que o próprio presidente ficou fazendo campanha da cloroquina na Terra IndÃgena? Falta respeito à s lideranças locais, falta consulta, falta dialogar com os representantes do povo Yanomamiâ, acrescentou o lÃder indÃgena.
O coordenador-geral do Conselho IndÃgena de Roraima (CIR), Edinho Batista, do povo Macuxi, disse à Amazônia Real que a distribuição dos comprimidos de cloroquina é uma violação. âSe não tem comprovação cientÃfica que esse remédio é para combater a covid-19, então consideramos isso grave. Não tem efeito e nem comprovação cientÃfica para essa doença. Estão cometendo crime, e isso fere os princÃpios de um povo, das organizações, das comunidades indÃgenas. Estamos acompanhando nossas regiões e se caso alguém tiver tomado esse remédio para Covid-19 vamos tomar providências imediatasâ, disse o lÃder Mucuxi.
A ineficácia da cloroquina
Em 3 de junho de 2020, foi publicado um primeiro estudo âpadrão ouroâ, da Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos, indicando que o remédio não tinha eficácia contra a Covid-19. Três dias depois, a Universidade de Oxford, no Reino Unido, testou a hidroxicloroquina com 1.500 pacientes e não encontrou âqualquer efeito benéficoâ da substância em pacientes hospitalizados.
[g1_quote author_name=”Dário Kopenawa Yanomami” author_description=”LÃder indÃgena” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Acionamos o Ministério Público Federal para que fosse feita uma investigação. Ninguém foi comunicado de nada. Simplesmente invadiram a nossa terra. Entraram no nosso território sem a autorização do nosso povo
[/g1_quote]Mas a grande distribuição de cloroquina 150 mg estava só por começar pelo governo Bolsonaro. Pelo cronograma informado pela Sesai aos senadores, dos 622 mil comprimidos enviados aos Dseis da região amazônica entre 2020 e 2021, 546 mil foram distribuÃdos depois de junho do ano passado; portanto, após a comunidade cientÃfica ter anunciado a ineficácia da cloroquina. Na ocasião, o ministro da Saúde já era o general Eduardo Pazuello.
Nos dias 29 de junho de 2020 e 1º de julho, uma missão interministerial, tendo à frente o então ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva, levou 66 mil comprimidos de cloroquina 150 mg para o tratamento de indÃgenas de povos da Terra IndÃgena Yanomami, onde vivem também o povo Yekuana e grupos indÃgenas isolados, e da Terra IndÃgena Raposa Serra do Sol. Neste território, vivem os povos Macuxi, Wapichana, Taurepang, Patamona e Ingaricó.
âO grupo do governo que foi à Terra IndÃgena Yanomami fazer a entrega de cloroquina não comunicou à s lideranças de Roraima. Nós, da Hutukara, não recebemos nenhum documento para consulta. Os povos indÃgenas têm direito à consulta. Existe um protocolo para entrar na Terra IndÃgena, mas nada foi respeitado. Isso mostra a falta de respeito e responsabilidade das autoridades com a saúde e vida do nosso povo indÃgenaâ, afirmou Dário Kopenawa Yanomami para a Amazônia Real.
De acordo com Dário, mais de 3 mil quilos de materiais foram levados para a TI. âAcionamos o Ministério Público Federal para que fosse feita uma investigação. Ninguém foi comunicado de nada. Simplesmente invadiram a nossa terra. Entraram no nosso território sem a autorização do nosso povoâ, protestou.
Em nota enviada à Amazônia Real, o MPF informou que existe um procedimento instaurado para acompanhar as missões militares e a distribuição de cloroquina, mas que ainda estão em curso. âAs investigações ainda estão em andamento. Mas, até o momento, não houve comprovação de prescrição do medicamento para Covid ou casos confirmados após a missão citada. Continuamos fiscalizando junto aos órgãos de saúde indÃgena.â
O desperdÃcio de recursos
De acordo com o lÃder Dário Kopenawa, os comprimidos de cloroquina entregues nas comunidades Wakaris e Surucucu, da Terra IndÃgena Yanomami, foram devolvidos para a Sesai. âMandamos recolher as cloroquinas. Tiramos esse comprimido que seria usado para covid-19 em nosso povo. Mandamos recolher para devolver para o Dsei Yanomami e depois mandar para onde precisa, para o tratamento de maláriaâ, afirmou Dário.
O governo tem outra explicação para o desembarque da missão com 66 mil comprimidos de cloroquina na TI Yanomami. âA missão teve o objetivo de levar atendimento especializado como pediatra, ginecologista e infectologista das Forças Armadas para atender à demanda reprimida causada pela pandemia, uma missão humanitária de reforço ao serviço básico de saúde realizado pelos distritosâ, alegou a Sesai na nota.
A justificativa da Sesai é questionada por Dário que vê âdesperdÃcio do recurso públicoâ na iniciativa. O governo federal gastou bastante dinheiro na compra desses medicamentos para fazer essa distribuição. Esse dinheiro poderia ser usado para melhorar a saúde, os atendimentos públicos de qualidade, a educação de qualidade, melhorar a segurança dos povos indÃgenas do Brasil. As autoridades têm que investigar, esses remédios foram comprados com dinheiro público, não podemos deixar que isso sempre aconteçaâ, protestou Dário.
A Amazônia Real entrou em contato com a Sesai e o Dsei Yanomami, solicitando informações sobre a devolução dos comprimidos. A Secretaria não respondeu o que foi feito com os medicamentos, mas informou que a cloroquina distribuÃda era para ser utilizada no tratamento da malária e receitada somente em caso de confirmação através de exames.
Testagem pÃfia entre indÃgenas
Os senadores da CPI da Covid também questionaram como foi feita a distribuição de testes RT-PCR na população atendida pela Sesai. A secretaria informou que, de março de 2020 até maio deste ano, foram realizados 20.630 testes RT-PCR, considerado o âpadrão ouroâ pela comunidade cientÃfica.
Nos Dseis da região amazônica, o número de testes foi de 53,8 por mil indÃgenas, quase um terço dos 149,2 por mil para a população brasileira. Isso significa que uma das populações mais vulneráveis ao novo coronavÃrus ficou à mercê da sorte.
[g1_quote author_name=”Douglas Rodrigues” author_description=”Médico sanitarista e professor da Unifesp” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Mandar cloroquina é ser negacionista, é querer apostar em medidas ineficazes para deixar a população dos povos indÃgenas achando que está sendo feito alguma coisa. O governo aposta e vende a ideia de um remédio que diz que é eficaz. Ele está colocando em risco e ameaçando a vida dos povos indÃgenas
[/g1_quote]Desde o inÃcio da pandemia, o presidente Bolsonaro abandonou as metas de testagem em massa da população. O governo chegou a anunciar que iria superar os 24 milhões de exames RT-PCR até dezembro de 2020, mas não chegou à metade disso nas unidades do SUS. Os Estados Unidos testam dez vezes mais que o Brasil, e o Reino Unido, 21 vezes.
Na Nota Informativa nº 8, a Sesai garante que para os trabalhadores que atuam nas aldeias âé preconizada a realização do teste antes da entradaâ, exceto para aqueles que se deslocam diariamente para as Terras IndÃgenas. Para esses agentes, a realização do teste é feita âno mÃnimo uma vez ao mêsâ. A secretaria informou aos senadores que não realiza a compra direta dos testes RT-PCR.
âSendo assim, não há disponibilização especÃï¬ca de testes RT-PCR para a saúde indÃgena e nem distribuição aos DSEI, sendo os testes realizados conforme demanda dos DSEI e ï¬uxos estaduais e municipais para processamento nos LACEN [laboratórios centrais, geridos pelos governos estaduais]â, acrescentou a nota da Sesai.
A informação da Sesai dada aos senadores contraria denúncias dos próprios indÃgenas, especialmente na primeira onda da Covid-19, em 2020. Na Terra IndÃgena Vale do Javari, no Amazonas, por exemplo, os primeiros infectados foram profissionais de saúde do Dsei que atuam naquela região. Alguns deles precisaram ser removidos emergencialmente, como aconteceu na aldeia São LuÃs. Logo em seguida, os próprios indÃgenas Kanamari foram infectados, dando inÃcio aos primeiros contágios dentro do território.
Outro dado grave assumido na nota da Sesai em relação aos Dseis, e em particular aos da região amazônica, foram as 126 mortes por Covid-19 de 198 indÃgenas que foram transferidos para UTIs de Estados e municÃpios, nos casos de média e alta complexidade. Os senadores também questionaram o total de mortes de indÃgenas sem assistência médica. A Sesai informou que foram 91 óbitos no ano passado nos 34 Dseis, mas que há ainda um prazo de 120 dias para esclarecer a causa da morte.
A boa notÃcia da Nota Informativa é que já foram vacinados 80,5% do público-alvo dos Dseis com a primeira dose e 67,9% com as duas doses. A meta é atingir 90% de imunização dos povos indÃgenas.
Saúde ameaçada
Para o médico sanitarista Douglas Rodrigues, do Departamento de Medicina Preventiva da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o atual governo vem demonstrando uma polÃtica equivocada de cuidado para os povos indÃgenas. âTem sido uma polÃtica de ataques de retiradas de direitos, em todos os aspectos”, afirma o médico.
Rodrigues trabalha com populações indÃgenas e em isolamento voluntário na Amazônia há mais de 50 anos. “No que diz respeito à pandemia, tem coisas muitos importantes que já deveriam ter sido feitas, que não foram feitas até agora. Por exemplo a demarcação de territórios – sabendo que onde tem garimpo, madeira, grilagem, todas essas coisas que são portas de entrada para Covid – e ainda o funcionamento das barreiras adequados, proteção dos isoladosâ, disse o especialista à Amazônia Real.
O médico explica que é preciso ações concretas e eficazes que leve saúde pública de qualidade com responsabilidade para os povos indÃgenas. âSabemos que, em vários lugares, faltou máscara e montagem de estruturas respiratórias nas Terras IndÃgenas. Mandar cloroquina é ser negacionista, é querer apostar em medidas ineficazes para deixar a população dos povos indÃgenas achando que está sendo feito alguma coisa. O governo aposta, acha e vende a ideia de um remédio que diz que é eficaz. Ele está colocando em risco e ameaçando a vida dos povos indÃgenasâ, finalizou.
O boletim epidemiológico da Sesai do dia 16 de julho informa que 51.128 indÃgenas no Brasil foram infectados pela covid-19, com 739 óbitos. A Sesai não faz divisão de povos nem de regiões. A notificação é apenas por Dseis, sem mencionar que povos são afetados pela doença. O órgão de saúde também não contabiliza indÃgenas que vivem em contexto urbano ou que habitam territórios não reconhecidos pela Funai ou não cobertos pelo subsistema de saúde indÃgena. Este posicionamento indica, desde o inÃcio da pandemia, uma grande subnotificação dos casos e óbitos entre indÃgenas.
Na contagem deste dia 19 de julho da Articulação dos Povos IndÃgenas do Brasil (APIB), são 57.025 indÃgenas infectados pela doença e 1.135 mortos, com 163 povos afetados, no paÃs. Um boletim de final de maio da Coordenação das Organizações IndÃgenas da Amazônia Brasileira (Coiab), foram confirmados 38.884 casos somente entre os indÃgenas que habitam a região amazônica e 946 óbitos, de 152 povos (a maior parte deles no Amazonas).
Esta reportagem é apoiada pela Open Society Foundations dentro do projeto âMarcas da Covid-19 na Amazôniaâ
