Com uma live reunindo mais de 30 mulheres indÃgenas de todas as reuniões do paÃs, a Articulação dos Povos IndÃgenas do Brasil (Apib) lançou a campanha âVacina, parente!â para conscientizar sobre a importância da vacinação no combate à pandemia de covid-19 e para cobrar a vacinação para toda população indÃgena no paÃs. “Numa continuação dos ataques genocidas contra os povos indÃgenas, as aldeias estão sendo invadidas por informações falsas para desmoralizar as vacinas”, afirmou Célia Xakriabá, de Minas Gerais, integrante da coordenação da Apib.
De acordo com dados do Comitê Nacional pela Vida e Memória IndÃgena, da APIB, 46.508 indÃgenas foram contaminados pelo novo coronavÃrus e 929 faleceram em decorrência da covid-19, que afetou diretamente 161 povos em todo paÃs. “Os indÃgenas estão no grupo prioritário pela nossa mobilização, mas também porque está provado que os indÃgenas são mais vulneráveis à doença, com um percentual de mortes maior do que de não indÃgenas”, destacou Nara Baré, do Amazonas, dirigente da Coordenação das Organizações IndÃgenas da Amazônia Brasileira (Coiab).
As lÃderes indÃgenas criticam, duramente, o plano de vacinação apresentado pelo Governo Federal que não inclui a totalidade da população indÃgena do Brasil no cronograma de imunização prioritária. O critério adotado define como indÃgenas – para estar entre o grupo prioritário para a vacinação apenas os povos que vivem em aldeias de terras indÃgenas homologadas, ignorando a complexidade do processo de demarcação, indÃgenas que vivem em contexto urbano e os povos venezuelanos que se encontram refugiados no Brasil. “Esse critério é mais um processo discriminatório porque inclui apenas a metade dos indÃgenas. Há muitos povos indÃgenas reconhecidos mas sem ainda seu território regularizado e que estão terrivelmente ameaçados pela pandemia”, apontou Cris Pankararu, de Pernambuco, coordenadora da Articulação dos Povos e Organizações IndÃgenas do Nordeste, Minas Gerais e EspÃrito Santo (Apoinme).
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Veja o que já enviamosAs primeiras vÃtimas fatais entre indÃgenas foram exatamente moradores de áreas urbanas. “à importante não esquecer que os indÃgenas foram desalojados de suas terras de muitas maneiras. Foram as cidades que invadiram as terras indÃgenas, por isso tantos parentes moram nas cidades”, argumentou Ana Patté, integrante da Apib e indÃgena do povo Xokleng, de Santa Catarina. “A maioria é tão ou até mais vulnerável do que os indÃgenas que vivem na aldeia e tem apoio da comunidade”, acrescentou.
O combate à s fake news é outra prioridade da campanha, que está sendo disseminada pelas redes sociais com a hashtag #VacinaParente. “Eu fiz questão de ser vacinada logo para mostrar para os parentes, principalmente os mais velhos, que a vacina é segura e é única forma de evitar mais doenças e mortes”, contou Oé Kayapó, do Pará. “Os parentes no Brasil inteiro estão recebendo informações falsas – desde que os indÃgenas foram escolhidos para começar a vacinação para servir de cobaia até a que essas vacinas não servem porque foram desenvolvidas de forma muita rápida”, acrescentou Leonice Tuoari, de Rondônia.
Participaram do lançamento virtual a pesquisadora Ana Lúcia Pontes, coordenadora do GT Saúde IndÃgena da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva) e a médica sanitarista Sofia Mendonça, coordenadora do Projeto Xingu, programa de extensão universitária da Escola Paulista de Medicina. “A vacina é uma vitória da ciência. Muitos indÃgenas morreram, nesses cinco séculos de Brasil, exatamente por falta de vacina”, disse a médica Sofia. “Os mais velhos devem lembrar como era antes das vacinas. Temos vacinas seguras que vão ser fundamentais para impedir o avanço da doença”, afirmou a pesquisadora da Abrasco.
Os mais velhos são exatamente a maior preocupação das mulheres indÃgenas. “Nós perdemos tantos anciões. Perdemos nossas bibliotecas, nossas farmácias, nossa história. à isso que os mais velhos representam e a vacina é fundamental para protegê-los”, afirmou Anna Terra Yawalapiti, da aldeia Tuatuari, de Mato Grosso. Os idosos também são os mais desconfiados: em várias aldeias, eles pedem para os mais jovens serem vacinados primeiro para ver se a imunização funciona.
A Apib, ao lançar a campanha Vacina, Parente!, também divulgou um Manifesto pela Vida onde criticam os critérios do governo e a desinformação. “Seria um absurdo incabÃvel colocar todos os profissionais de saúde, indÃgenas e idosos para serem exterminados como âcobaiasâ da vacina. Essa informação mentirosa precisa ser encarada de frente. A vacina é a principal arma hoje para o enfrentamento da pandemia, parentes!”, afirma o documento.
O manifesto ataca o governo, as suas informações falsas e a falta de ação contra a pandemia. “à preciso combater o desserviço feito por agentes públicos, a começar pelo presidente Jair Bolsonaro e seus filhos, que difundem mentiras e buscam desqualificar a ciência, autoridades e organismos mundiais de saúde”, diz o documento. “Repudiamos a perversidade de Bolsonaro e do alto escalão do Governo Federal no empenho para que as pessoas façam tratamento precoce com uso indiscriminado de medicamentos que não possuem comprovação de eficiência no combate à covid-19”.
