Ana Amélia Hamdan, Kátia Brasil e Emily Costa*
A Secretaria Especial de Saúde IndÃgena (Sesai), do Ministério da Saúde, confirmou na noite desta quinta-feira (9/4) que o estudante Yanomami, de 15 anos, morreu por complicações da infecção no pulmão devido à doença Covid-19. O médico infectologista Joel Gonzaga, da Sesai, afirmou à Amazônia Real que o quadro de saúde do estudante se agravou âcom o comprometimento cerebral, tromboembolismo e complicações da resposta inflamatória do vÃrusâ.
O estudante tinha a saúde afetada por ter contraÃdo, antes da Covid-19, âdoenças como desnutrição, anemia, malárias repetitivas e foi tratado, mês passado (março), de Malária Falciparumâ, disse Gonzaga. Conforme o Ministério da Saúde, o jovem é Alvanei Xirixana, nascido na Comunidade Helepi, na Terra IndÃgena Yanomami, em 02 de março de 2005. Seus pais são Ivanete Xirixana e Alfredo Xirixana. Alvanei estudava o ensino fundamental em uma escola da Comunidade Boqueirão, na Terra IndÃgena Boqueirão, dos povos Macuxi e Wapichana, no municÃpio de Alto Alegre, no norte de Roraima.
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Veja o que já enviamosOs pais do estudante, cinco profissionais da saúde indÃgena, um piloto de avião e a Comunidade Helepi, com cerca de 70 pessoas, estão no isolamento e monitoramento pela Sesai por terem mantido contato com o Alvanei. Até o momento não há informações sobre como o menino foi infectado pelo novo coronavÃrus.
Como publicou a Amazônia Real, o estudante Alvanei Xirixana passou 21 dias com os sintomas do novo coronavÃrus, buscando por atendimento de saúde e não foi submetido no inÃcio da doença ao teste para Covid-19. Ele chegou a receber alta do Hospital Geral de Roraima após sua primeira internação no dia 18 de março um dia depois de ser atendido no Hospital de Alto Alegre, no norte de Roraima. Ele voltou ao hospital nos dias 20 e 22 de março – os sintomas do estudante foram tratados como malária, febre e mialgia (dor muscular). Alvanei também esteve em outras unidades de saúde até ser definitivamente internado no HGR no dia 3 de abril – após seu quadro se agravar e ele ser transferido de avião da comunidade Helepi para Boavista.
O diagnóstico da doença Covid-19 só foi confirmado no estudante Yanomami apenas no último dia 7 de abril com a contraprova realizada com o sangue (RT-PCR), que detectou o coronavÃrus, que causa a pandemia mundial. O Ministério da Saúde informou o primeiro caso de Covid-19 entre indÃgenas Yanomami no dia 8 de abril. Em sua rede social, o antropólogo francês Bruce Albert disse que o jovem era de uma comunidade âda região do rio Uraricoera, área de garimpoâ. Ele também destacou que o adolescente não foi atendido pelo sistema de saúde quando sentiu os primeiros sintomas da gripe.
âEstava (o jovem) perambulando entre Casai leste e HG de RR desde 19/3 com sintomas respiratórios caracterÃsticos e prescrição de antibióticos. Conviveu com muita gente desde entãoâ, disse o antropólogo e etnógrafo Bruce Albert, amigo do lÃder e xamã Davi Kopenawa desde os anos 70 e ambos parceiros na autoria do livro âA queda do céuâ.
Outras mortes
Alvanei Xirixana é a primeira vÃtima falta que morava em aldia indÃgena. Entretanto, segundo o Instituto Sociambiental (ISA), dois indÃgenas já morreram infectados pela Covid-19: uma mulher da etnia Borari, em Alter do Chão, no Pará, e um homem do povo Mura, de 55 anos, do municÃpio de Itacoatiara, no Amazonas. Como eles viviam em contexto urbano e não recebiam cobertura do subsistema de saúde indÃgena dos Dseis, os óbitos não foram considerados como sendo de indÃgenas pela Secretaria Especial de Saúde IndÃgena (Sesai), do Ministério da Saúde.
O caso de Covid-19 no estudante Yanomami foi o primeiro notificado de indÃgena no estado de Roraima, que tem uma população indÃgena de 70.596 pessoas. Os Yanomami somam uma população de 26.789 pessoas. No Amazonas, foram confirmados quatro casos do novo coronavÃrus em indÃgenas do povo Kokama, no municÃpio de Santo Antônio do Içá, na região do Alto Rio Solimões.
Entre os dias 17 de março, data em que procurou o primeiro hospital para atendimento, e 3 de abril, quando foi definitivamente internado em Boa Vista,  jovem esteve com diferentes companhias: parentes Yanomami, funcionários da Saúde IndÃgena, povos Macuxi, motorista de táxi e até com um piloto de helicóptero, pois foi removido da comunidade Helepi, segundo o Ministério da Saúde.
Alvanei saiu da comunidade Helepi, no Rio Uraricoera, para fazer o ensino fundamental na Terra IndÃgena Boqueirão, onde vivem os povos Macuxi e Wapichana, localizada no municÃpio de Alto Alegre, no norte de Roraima. Na área, moram 464 pessoas. O estudante transita pelas duas comunidades, que são constantemente ameaçadas pela invasão de garimpeiros. âSão rotas de grande trânsito de pessoas não indÃgenas devido a intensa exploração ilegal de minérios na regiãoâ, diz o Ministério da Saúde em nota ao confirmar a contaminação do estudante pelo coronavÃrus, na quarta-feira.
Dario Yawarioma Urihithëri, diretor da Hutukara Associação Yanomami (HAY), e filho do lÃder Davi Kopenawa Yanomami, disse à Amazônia Real que as 380 comunidades Yanomami estão em isolamento por causa da pandemia do novo coronavÃrus. Foi ele quem avisou, ainda na quarta, que Alvanei estava mesmo com a covid-19. “Falamos através de radiofonia, conversamos com as lideranças locais e conversando com os Yanomami, nas suas comunidades, através de rádio. O nosso território é grande, a gente não tem como chegar nas comunidades. Continuamos muito preocupados e os invasores [os garimpeiros] estão lá no nosso território”, disse Dario.
*Amazônia Real
